quinta-feira, 20 de março de 2014

O meu inter-rail; 5º capítulo: "Les riches”



A viagem para Nice correu bem, obrigado. Depois de umas horas sentado no chão da Gare de Cerbère (eu e mais umas dúzias de outros interrailers piolhosos) apareceu o comboio que me iria levar até à cidade mais importante da Côte d'Azur, a zona indicada para gajos com uma apresentação cuidada como era a minha. Foi nesse momento que teve lugar o primeiro contacto com o tipo de carruagem em que iria fazer 90% das viagens e que me permitiram executar o plano de austeridade assente em dormidas nos comboios sem excessivo sofrimento. Não sendo pessoa de me entregar facilmente ao costume português de sentir muitos sentimentos admito, envergonhado, que foi amor à primeira vista. Amor pela carruagem em si e não por nenhuma pessoa que estivesse lá dentro . Amor, aliás, que apenas nasceu por não estarem muitas pessoas lá dentro. Vou explicar melhor partindo do princípio de que se vocês fossem muito inteligentes estavam a ler bons textos de bons escritores e não esta coisa que vos ponho à frente. As carruagens-tipo do meu inter-rail não foram aquelas a que eu estava habituado em Portugal, conhecidas na gíria técnica como “open” (ou seja, sem divisórias) e caracterizadas por um corredor central ladeado por assentos, mas sim aquelas a que chamam “compartment car” e que são constituídas por um corredor lateral, ligado por portas de correr a vários compartimentos de 6 lugares (3 passageiros num dos lados, sentados cara-a-cara com outros 3 passageiros no outro).



Corredor lateral, o local indicado para fumar uns cigarros com os restantes interrailers ; em caso de partilha do compartimento fechado com terceiros, é de bom tom visitar este espaço aquando da libertação de flatulências



Em alguns casos os assentos eram fixos, permitindo que duas pessoas se deitassem, e noutros eram reclináveis, conseguindo-se encostar cada um deles ao que lhe ficava em frente e permitindo que não duas mas sim três pessoas se deitassem. Uma vez que o comboio não tinha muitos passageiros consegui ficar sozinho numa das divisões, o que permitiu que dormisse o sono da beleza com total conforto (por me conseguir esticar ao comprido) e com total despreocupação (por saber que a porta fechada e as sapatilhas malcheirosas colocadas em posição de cão de guarda me protegeriam dos ladrõezecos e das ninfomaníacas suecas). Este surpreendente oásis de espaço acabou por se revelar a regra nas minhas viagens, o que muito contribuiu para a felicidade do cartão de crédito do meu pai e para a infelicidade de albergueiros, hospedeiros, estalajadeiros, e outros espelunqueiros em geral.



Compartimento com lugares reclináveis; se baixarmos totalmente os 6 assentos conseguimos transformar a divisão numa cama única onde podem dormir 3 pessoas paralelamente à janela; se não os baixarmos pode dormir 1 pessoa de cada lado, perpendicularmente à janela; se viajarem 6 pessoas no compartimento, ninguém dorme e é uma grande merda



Tendo chegado a Nice de manhã cedo e verificado que a melhor opção para prosseguir para leste seria apanhar o comboio das 8 da noite com destino a Roma, decidi ocupar umas horas desse dia na cidade-estado do Mónaco*. As possibilidade de diversão que se encontravam ao alcance da minha carteira no caríssimo Principado eram, à primeira vista, mais reduzidas que as saias das putas dos bordéis de Matosinhos em dias de atracagem de cargueiros no Porto de Leixões. No entanto, com alguma imaginação, foi possível preencher o tempo de uma forma agradável e sem necessidade de estuporar quantidades homéricas de francos franceses (se a memória não me falha um franco francês valia aproximadamente 30 escudos). Decidi desde logo que iria levar a cabo uma das “turistices” mais parolas do infindável universo de “turistices” parolas que existem no mundo: percorrer a pé todo o Circuito de Fórmula 1, túnel incluído. Podem gozar à vontade mas para um ex-viciado em F1Grand Prix (um jogo de computador dos anos 90) era irresistível a tentação de fazer aqueles 3,34 kilómetros (com k, já sabem como é; quem não souber, que vá ler o 1º capítulo) pelas ruas dos quartiers de Monte-Carlo e La Condamine. Comecei na recta da meta, virei à direita na Sainte Devote, a primeira curva da prova (onde numerosos gajos se espetam logo na primeira volta, 4 segundos depois da partida, numa notável ejaculação precoce automobilística), subi a Avenue d'Ostende até ao Casino, parei uns minutos a descansar no jardim que aí se encontra, virado para o luxuosíssimo Hôtel de Paris e assistindo a numerosos facholas a abandonarem as suas inacreditáveis viaturas no meio da rua para que os impecáveis porteiros as estacionassem devidamente, retomei o percurso até à famosa curva-cotovelo (a mais lenta de todo o campeonato de Fórmula 1, abordada a menos de 50 Km/h),  


A curva mais lenta de toda a época de F1, uma homenagem dos monegascos à Alheira de Mirandela


continuei até ao túnel onde os suicid… pilotos, depois de serem atingidos por um primeiro choque visual provocado pela súbita mudança da luminosidade mediterrânica para a escuridão do buraco e antes de serem atingidos por um segundo choque visual provocado pela súbita mudança da escuridão do buraco para a luminosidade mediterrânica, atingem uma velocidade superior a 250 km/h, atravessei-o, dei um delicioso mergulho a partir de um dos paredões do porto, que se encontra logo à saída do túnel (informo não ter sido uma cena “à puto da Ribeira”, uma vez que o paredão em causa estava dotado de uma escada de ferro de acesso ao mar e de um chuveiro de água doce), sequei-me ao sol enquanto observava a entrada e saída de iates GCC (Grandes Comó Caralho), prossegui para a chicane** que obriga os pilotos a travar a fundo logo a seguir a levarem com o segundo choque visual no focinho, entrei no cais onde atracam os já referidos GCC´s e onde é possível espreitar para dentro dos mesmos (e ficar, rápida e inevitavelmente, com uma pasmada cara de lorpa), e terminei a parola “turistice” na zona da piscina, dando descanso às pernas e observando as monegascas em bikini (por forma a manter a cara de lorpa, não fosse dar-se o caso de ocorrer um desvanecimento da mesma, o que seria uma afronta às gentes da terra).



O X a vermelho marca o sítio onde dei um mergulho; espero que consigam ver bem onde está o X


Cumprido o plano inicial, avancei para um almoço de iguarias locais (um BigMac menu, se bem me lembro), marimbei-me para o Musée Océanographique, que até tinha sido dirigido pelo Jacques Cousteau (“e como lhe custou essa direcção!”, diria o Fernando Mendes no “Preço Certo”, lançando um olhar às pernas da Lenka) e optei por visitar o túmulo da Grace Kelly, localizado na mesma Igreja onde, pelo casamento, se tinha transformado em Princesa do Mónaco no ano de 1956. Ainda cheirei a laje para tentar captar as feromonas de fêmea que tinham desorientado os córtex cerebrais de um Príncipe, de vários actores bem-parecidos (Clark Gable, James Stewart, Cary Grant, Frank Sinatra, …) e, segundo alguns estudiosos da 7ª arte, do próprio realizador Alfred Hitchcock, mas, infelizmente, cheirava apenas ao produto de limpeza utilizado para manter a mármore sempre a brilhar. Desiludido, dei por encerrada a visita e abandonei aquele éden de riches, regressando à cidade de Nice. Resumindo a jornada monegasca, posso afirmar sem medo que foi uma excelente não-aventura de condução de Ferraris, Bentleys e Lamborghinis pelas curvas do Principado, uma inesquecível não-diversão numa festa privada regada a champagne a bordo de um iate de 30 metros, uma requintada não-experiência de baccarat chemin-de-fer no pano verde do Casino de Monte-Carlo e uma soberba não-degustação de um jantar no Le Louis XV, um três estrelas Michelin liderado pelo chef Alain Ducasse onde, rezam as lendas, repousam mais de meio milhão de garrafas dos melhores vinhos do mundo. Como podem ver, tudo correu pelo melhor. O Mónaco foi também o local onde percebi a sanha persecutória do fisco português em relação à classe média: não é nada pessoal, é mesmo por falta de alternativas que se enquadrem no que normalmente chamamos de “realidade concreta”. Queriam que o Ministério das Finanças perseguisse quem? Os pobres que não têm onde cair mortos? Ou os ricos que se podem facilmente pirar para estes paraísos fiscais à beira-mar*** onde nem sequer existe IRS? Tenham juízo e paguem mas é o caralho dos impostos caladinhos. E já que falo nas muitas coisas que por lá aprendi nas poucas horas em que por lá andei, fica aqui, em jeito de despedida, mais uma bonita história: lembram-se do filme “Os diamantes são eternos”, com o Sean Connery a fazer aquelas piadinhas de merda maravilhosas no papel de James Bond? Quando vi o filme não consegui entender uma delas. Sendo eu um grande fã e não existindo nessa altura internet para investigar essas coisas, fiquei muito, muito triste! Recordo-vos a cena, entre o agente secreto 007 e a contrabandista de diamantes Tiffany Case:  

Tiffany Case: “Não existe um Mr. Case. O “T” é de Tiffany.”
James Bond: “Tiffany Case?! Que nome elegante!”
Tiffany Case: “Eu nasci lá! [referindo-se à famosa joalharia Tiffany´s] No 3º andar, enquanto a minha mãe comprava um anel de casamento.”
James Bond: “Sorte a sua não ter sido na Van Cleef & Arpels...”

Só no Mónaco, vários anos depois, especado em frente à montra da luxuosa joalharia Van Cleef & Arpels, consegui perceber a puta da piada! E como bónus, em jeito de revelação, apercebi-me definitivamente do carácter de fim-de-mundo do simpático país em que tinha nascido. Digam lá se não foi uma bonita epifania…


(continua) 


* fica a menos de 20 km de Nice e há comboios e autocarros que nos levam lá; ainda pensei em roubar um carro para me deslocar por uma das 3 corniches (não confundir com cornices, estou a falar de estradas) mas depois lembrei-me da Grace Kelly (do acidente fatal, não do bonito picnic com o Cary Grant no filme “To Catch a Thief”) e desisti da ideia (uns anos depois voltei a visitar a Riviera e acabei por conduzir pelas famosas corniches, mas foi num carro alugado meio foleiro e em termos de glamour foi assim um bocado uma merda).



Eu e a Grace Kelly sentados num Alpine Sports Roadster ; ao fundo, o Mónaco





Nesta foto ela trocou-me pelo Cary Grant derivado ao facto de eu lhe ter dito que as costelinhas estavam mal passadas! Gajas…



** sequência de curvas que tem o objectivo de forçar os pilotos a diminuírem a velocidade; não confundir com chicana, aquela coisa em que os deputados se enredam desavergonhadamente, uns por serem uns peçonhentos e outros por estarem verdadeiramente convencidos que é assim que se desenvolve a actividade de “fazer política”.

*** embora um apartamento no Mónaco custe vários milhões (há quem fale de um preço por m2 de 50.000 dólares), dá sempre para rentabilizar a varanda no fim-de-semana do Grande Prémio de F1 (dependendo da vista e da área pode render uma pequena fortuna). 

 

quinta-feira, 13 de março de 2014

estruturadores reestruturando a estrutura



A única maneira segura de limpar um campo de minas, é conseguir convencer os militares que participaram no trabalho de colocação dos engenhos a participarem posteriormente no trabalho de remoção dos mesmos. Esta grande verdade militar, que só não foi desenvolvida por Sun Tzu por manifesto esquecimento, nem sempre pode ser aplicada devido à ausência de espírito de colaboração de alguns soldados ou, em certos casos, à circunstância de eles já não se encontrarem vivos. Felizmente para nós, alguns dos valentes compatriotas que minaram as nossas finanças e economia com dívidas explosivas ainda se encontram de boa saúde e com vontade de participar no difícil e arriscado trabalho de desminagem que está em curso. É assim de louvar o recente “Manifesto pela Reestruturação da Dívida”, onde algumas das personalidades que nos foram dizendo nos últimos anos que precisávamos de pedir empréstimos para fomentar o crescimento, nos dizem agora que só podemos crescer se não pagarmos esses empréstimos que pedimos.

Sabendo que a característica má-língua dos portugueses se prepara para acusar estas figuras de altíssimo nível de terem o secreto desejo de dar um baixíssimo calote, consultei o dicionário com o intuito de iluminar de sabedoria as mentes de tão ignorante povo. Ficam pois desde já a saber que “reestruturar” não é mais do que estruturar novamente e que “estruturar” é apenas o acto de dotar algo com uma estrutura. Para melhor entenderem o que está em causa tentem lembrar-se da vossa casa: quando tomaram a decisão de a construir tiveram de chamar um projectista que a dotasse de uma estrutura. Imaginem agora que a vossa família cresce e que por isso se torna necessário acrescentar-lhe um novo piso com mais quartos. Quem é a pessoa indicada para tratar desse processo? Um novo profissional ou o mesmo técnico que a desenhou de raiz e que por isso sabe com exactidão onde se encontram e como estão construídas as fundações, sapatas, vigas, pilares, paredes mestras e muros de suporte? Naturalmente que, estando ele vivo e mostrando disponibilidade para o trabalho, a vossa escolha recairá no projectista inicial. Assim, o homem que no passado estruturou a coisa tratará agora de a reestruturar. O que acontece com este Manifesto, para grande sorte do país, é bastante parecido. As assinaturas de João Cravinho, pai das SCUT e grande promotor de PPP e de mega-projectos, e de João Galamba, ferrenho defensor do investimento público e um dos principais conselheiros do ex-Primeiro-Ministro José “aumentamos o défice porque quisemos” Sócrates, são a prova de que os portugueses podem estar descansados. Quem estruturou a dívida não se esquiva à difícil tarefa de a reestruturar, os nossos projectistas estão vivos e com vontade de trabalhar.            

quinta-feira, 6 de março de 2014

O João e o Adão



Dizia Oscar Wilde que a coerência é a virtude dos imbecis. Talvez por acreditarem nessa teoria e por não gostarem de insultar ninguém, alguns dos twitteiros que sigo têm dedicado algum do seu tempo a debater a suposta falta de coerência de outro twitteiro que também sigo. Uma vez que todos eles são importantes na difícil tarefa de aliviar os momentos de tédio do meu dia-a-dia, pretendo dar o meu contributo à discussão, batalhando pela harmonia universal and the pursuit of happiness. Pelos vistos o twitteiro A, conhecido pela empenhada defesa das ideias liberais, desenvolve actividade de investigação sob a alçada de recursos públicos (ou, nas certeiras palavras de Margaret Thatcher que Deus a tenha, sob a alçada de recursos do contribuinte). Logo os twitteiros B, C e etc., imbuídos do saudável espírito do anda cá que já te fodo, saltaram com galhardia em cima do twitteiro A, acusando-o de ser um Frei Tomás agasalhado por um manto de contradições e de ter um corte de cabelo démodé. Adiante que se faz tarde e não estou aqui para empatar: pode um convicto liberal ganhar a vida a soldo do orçamento de Estado sem peso na consciência? Caros amigos e inimigos, a minha resposta é rápida: pode. E se por acaso sentir um remorso nocturno a atrapalhar o necessário repouso deve procurar com urgência um psicólogo que lhe desenrodilhe a linha do pensamento. O debate intelectual de ideias não pode substituir nem condicionar a primitiva actividade de obter honestamente o pão nosso de cada dia e a manteiga para o barrar. Um liberal pode comprar livros do Milton Friedman e do Hayek com o dinheiro que ganhou a trabalhar para o Estado e um socialista pode comprar livros do Keynes e do Karl Marx com o dinheiro que ganhou a trabalhar nas empresas do grupo Mello ou no Banco Espírito Santo. Usando a conversa da treta do Prós & Contras e os finais de telejornal do Rodrigo Guedes de Carvalho, qualquer um deles pode lutar por mudar o “paradigma” do país e do mundo mas qualquer um deles continuará a precisar de comer enquanto o “paradigma” do país e do mundo se mantiver tão estático como a defesa do meu FCP que Deus o tenha também. Na minha maneira de ver as coisas com os olhos da cara e não com o olho cosmológico de Henry Miller, cada pessoa deve analisar as oportunidades que existem no contexto da totalmente legal legalidade e escolher as que considera melhores para a sua vida. Tudo isto sem levar em linha de conta as tais ideias liberais que pode considerar adequadas mas que deverão ser reservadas para o debate ideológico e prática política. Aliás, o maior problema destas discussões é que o próprio conceito de liberalismo anda mais distorcido que o espelho de uma anoréctica. Se usarem também os vossos olhos da cara, perceberão com facilidade que todas as análises do liberalismo que se desviem das clássicas características do “liberalismo político” e do “liberalismo económico” são uma bela merda de análises, construídas apenas para vos baralhar os entrefolhos do cérebro. Ide ler meia dúzia de coisas sobre o pensamento de John Locke e de Adam Smith, os supostos pais desses dois liberalismos, e passareis a mandar abaixo de Braga muitos dos gajos que andam para aí a evangelizar. O primeiro lutou contra o absolutismo de direito divino, defendendo que a origem do Poder Político se encontrava no Povo. Querem uma merda mais democrática do que esta em pleno séc. XVII? Afirmou que deveriam ser os cidadãos a delegar os seus poderes no Estado, para que este aplicasse a justiça pública, protegendo a vida, a liberdade e a propriedade de todos. E que essa delegação deveria ocorrer sempre de uma forma limitada para impedir abusos e tiranias. Que atire a primeira pedra o absolutista prepotente que estiver contra o liberalismo político. Quanto ao Adam Smith, o homem da “mão invisível” (a que está relacionada com a economia de mercado e não a que vocês usam para apalpar gajas em discotecas apinhadas), ficou famoso por defender o mercado livre e a liberdade económica. Mas não empreendeu (bonita palavra para utilizar com este senhor) essa defesa por ser um individualista feroz mas por considerar eticamente superior o princípio da cooperação voluntária entre os homens e porque, na sua análise, o liberalismo económico permitiria um maior crescimento económico de toda a sociedade, melhorando os rendimentos dos pobres sem ter que se confiscar o património dos ricos. Note-se que o conjunto dual de ambos os dois (João e Adão) considerava como insubstituível o papel do Estado nas áreas da Defesa, Justiça, elaboração de Leis e construção de Obras Públicas. Ou seja, pela lógica dos que não gostam de insultar ninguém, o twitteiro A, liberal, nunca poderia ser militar, magistrado, polícia, ministro das obras públicas ou deputado, e todas essas funções ficariam reservadas para os defensores do socialismo (que tratariam de perpetuar o mesmo para todo o sempre). Aliás, se o twitteiro A tivesse tido o azar de nascer num país totalmente estatizado (em que toda a actividade económica está nas mãos do Estado), não poderia exercer nenhuma profissão e teria de emigrar! Mas como normalmente nesses países as fronteiras se encontram fechadas, o nosso twitteiro estaria bem fodido. Caros amigos e inimigos, o que os liberais querem é que o Estado se retire progressivamente de algumas áreas, o que permitirá a diminuição dos seus gastos, o que permitirá a diminuição dos impostos que cobra às pessoas e às empresas, o que permitirá um aumento do investimento, o que permitirá um crescimento da riqueza nacional, o que permitirá que algumas empresas e instituições privadas aumentem os seus orçamentos de investigação, o que permitirá que o nosso twitteiro A tenha novas oportunidades para ganhar a vida. E por muito barulho que façam, não me parece possível alterar a ordem dos acontecimentos acima apresentada. “Ah, mas ó Aníbal, isso é impossível porque a cultura portuguesa é a da cunha e do amiguismo, o Estado está tomado de assalto por tachistas e os partidos políticos são um antro de filhos da puta que não vão decidir contra os seus próprios interesses”. Pois, é capaz, por isso é que eu, que até me considero liberal, olho com simpatia para a troika e para a Merkel e para o Tratado Orçamental e para a inscrição dos limites do défice e da dívida na Constituição e ainda gostaria que nos obrigassem a gravar numa pedra da Assembleia da República um tecto máximo para a carga fiscal e outro para o peso das despesas públicas no PIB. No fundo, já que o nosso Estado não imita Ulisses e não se aprisiona a si próprio, que venha alguém de fora e que amarre o sacana a um mastro com cabos de sisal entrançado e duplo lais de guia. Caso contrário as putas das sereias vão-nos continuar a lixar.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Adenda



Esqueci-me da fotografia dos candeeiros do Passeig, carago! Os gajos deram-lhes o nome de ”Bancs-Fanals”, qualquer coisa como “bancos-candeeiros” em português. Estavam com uma imaginação do caralho no dia do baptismo, os sacanas. Reparem que o local onde nos podemos sentar foi decorado com bocados partidos de cerâmica, uma técnica muito utilizada no Modernismo Catalão mas que dá cabo das bochechas do rabo das espanholas que usam aqueles calções muito curtos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O meu inter-rail; 4º capítulo: "Penetrar no Anillo"



“A oeste nada de novo”, dizia o escritor alemão de quem os nazis não gostavam. Ah, a literatura*, que sempre comandou os meus passos e os comanda uma vez mais neste pequeno percurso entre o comboio que acaba de chegar e a bilheteira que já lá se encontra! “Buenos dias, senhorita, faça-me aí uma reserva antecipada de lugar, a tal que é obrigatória apesar do meu “passe que permite andar gratuitamente durante um mês nos comboios de todos os países europeus excepto naquele em que nasceste”**. Pode ser para o primeiro coiso*** que me leve para leste, que eu já conheço a sua cidade e quero é chegar a Istambul”. O melhor que me arranjou foi um coiso ao fim da tarde destinado à fronteira com França, onde poderia mudar, sem grande espera, para um outro que me levaria até Nice. A ideia agradou-me bastante pois esta seria a segunda viagem a ter lugar durante a noite. Como também seria a segunda viagem a ter lugar durante o inter-rail, detectei, com brilhantismo, a possibilidade da existência de um padrão. Inspirado por motivos de natureza cultural, também conhecidos como “falta daquilo com que se compram melões”, comecei a idealizar um plano de austeridade assente em dormidas nos comboios. E o plano foi tão bem desenhado que a primeira vez que encostei o esqueleto a um colchão foi na Turquia, uma semana depois de ter saído de casa. Mas regressemos a Barcelona, onde teria de ocupar aproximadamente umas 8 horas. O que fazer? Numa visita anterior à Catalunha já tinha despachado o típico roteiro turístico (a distinção entre turista e viajante, essa questão melindrosa que tanto apoquenta os intelectuais, fica para depois, talvez para Roma) das Ramblas, Bairro Gótico, Camp Nou e obras do Gaudí, do Parque Güell à Casa Batlló, passando pela Santa Engrácia lá do sítio, de seu nome Templo Expiatório da Sagrada Família, uma enorme basílica flanqueada, se bem me recordo, por dois terrenos vazios com dimensão suficiente para a edificação de um shopping modernaço de grandes dimensões****. Alguns dos principais museus também já tinham sido vistos na última viagem e o único que me tinha deixado saudades, o Teatro-Museu Dalí, ficava a mais de 100 km da cidade (“Ah, mas ó Aníbal, não é suposto não se poder dizer nunca que um museu está visto uma vez que a soma de todos os pormenores e interpretações das obras expostas tende para o infinito obrigando por isso a impossíveis infinitas visitas para que tal fosse verdade?”; “Hum, interessante problemática! Antes de mais o meu muito obrigado pelo pertinente comentário. Quanto à questão em concreto, estimo bem que te fodas.”; “Ah, mas ó Aníbal, lembrei-me agora que estamos a falar de Barcelona, uma cidade onde os principais museus estão recheados de Cubismo, de Surrealismo, e de outras correntes da Arte Moderna, o que torna ainda mais relevante a multiplicidade interpretativa que evoquei!”; “Sim, sem dúvida. Felizmente, o “estimo bem que te fodas” está imune a divergências de interpretação.”).



“Museu Picasso” – se deseja conhecer as mais importantes obras deste artista,
este é um dos museus que não deve visitar



Nunca tinha assistido, para grande pena minha, a uma ópera no Gran Teatre del Liceu ou a um concerto no Palau de la Música Catalana, mas também não ia ser desta que o ia fazer em derivado a factos relacionados com o carácter diurno da estadia (se lá permanecesse para a noite não o faria na mesma em derivado a factos relacionados com o carácter andrajoso da vestimenta). Optei então, depois de largar a mochila num cacifo, por dedicar umas horas à zona olímpica de Montjuïc e aproveitar o resto do tempo para coçar os toma…, digo, observar o fluxo da humanidade e os magníficos candeeiros, sentado numa esplanada do Passeig de Gràcia.
A majestosa colina de Montjuïc, ponto nevrálgico dos Jogos Olímpicos de 1992, assume sem modéstia, do alto dos seus 170 metros de altitude, um olhar sobranceiro sobre a Cidade Condal. Agora sem merdas e com os exemplos que mereceis: lembrais-vos das imagens espectaculares proporcionadas pela modalidade de saltos para a água nos JO 92 e em posteriores Campeonatos do Mundo? Foi o olhar sobranceiro da Piscina Municipal de Montjuic que as permitiu. Mas por Deus, não façais confusão com as Piscinas Picornell onde decorreram as provas de natação e que também se situam em Montjuic apesar de não se conseguir ver, a partir das suas bancadas, a ponta de um corno da cidade.



Atenção: este gajo não está a saltar para as Piscinas Picornell




Além desses dois húmidos equipamentos, o “Anillo Olímpico” (este nome é tão pornográfico que até mete nojo mas, cariños, juro que não fui eu que o inventei) inclui ainda um conjunto de outras instalações desportivas das quais importa destacar o Estádio Olímpico, palco de variadíssimas actividades nos Jogos de 92, nomeadamente o espectacular momento em que um arqueiro acende a Pira Olímpica disparando uma flecha em chamas de um local tão distante que poderia ser incluído sem medo no conceito de “longe comó caralho”. Claro que as más línguas vieram logo dizer que o arqueiro tinha disparado para fora do Estádio e que a pira tinha sido acesa electronicamente, numa manobra de pura ilusão de massas combinada e ensaiada ao segundo. Apesar das más línguas estarem provavelmente correctas, desejo-lhes na mesma um destino à la João César Monteiro.


Antonio Rebollo prestes a “acender” a Pira Olímpica



De referir que o Estádio Olímpico de Montjuic foi construído há quase 100 anos e tinha pretensões a ser o palco principal dos Jogos Olímpicos de 1936. A candidatura foi perdida para Berlim mas, uma vez que a votação ocorreu antes da ascensão dos nazis ao poder, não me parece necessário que comeceis a apelidar de fascistas os ilustres membros do Comité Olímpico Internacional. Duvido, porém, que consigais resistir a chamar-me fascista quando vos disser que o brutalmente nazi Estádio Olímpico de Berlim mete num bolso das moedas o parente afastado de Barcelona. E que uns Jogos em Montjuic na década de 30 não teriam uma Riefenstahl atrás da câmara de filmar. Adiante, que a estética totalitária é um fantasma à solta no meu sistema nervoso central. Finalizo o relato da minha rápida penetração no “Anillo Olímpico” transmitindo o que senti quando vi a “Torre de Telecomunicaciones” plantada no local pelo Arquitecto Santiago Calatrava: puta que pariu o filho da puta do megalómano! Foi isto que senti e que até terei dito em voz alta perante o enorme piçalho circuncisado que o valenciano ergueu mesmo no meio do Anillo, quase de certeza apoiado em sapatas de fundação armadas com as pastas de arquivo das facturas relacionadas com as derrapagens orçamentais*****. 


 
“Enorme Piçalho Circuncisado”, também conhecido como
“Torre de Telecomunicaciones de Montjuïc”



Terminada a visita desci ao centro da cidade, comi um McQualquerCoisa, bebi uma cerveja ranhosa em frente a um dos candeeiros pretendidos, cocei os…, perdão, observei o fluxo da humanidade e, no final do dia, enfiei-me no comboio com destino à fronteira francesa. Passei por Figueres (terra do Salvador Dalí e do tal museu que me deixou saudades) e duas horas depois fui largado em Cerbère, já do lado francês, onde aguardei mais umas horas pelo outro coiso que me deixaria em Nice na manhã seguinte. A troca de comboios deveu-se à diferente bitola utilizada nos dois países (Ibérica em Espanha, Internacional em França), o que implica que entre Portbou (Catalunha) e Cerbère (Languedoque-Rossilhão) coexistam duas linhas diferentes. Poderia explicar esta treta com mais detalhe mas, uma vez que no recente debate sobre o TGV quase todos os portugueses se mostraram especialistas em bitolas, penso não ser necessário. Acrescento apenas que não me lembro de ter trocado de comboio na fronteira quando regressei. Tal pode ser explicado por ter sido efectuada numa das estações uma operação de ajustamento dos rodados das carruagens ou por eu me encontrar em tal estado de exaustão que tenha sido transportado ao colo de um comboio para outro depois de ter sido sodomizado por quatro revisores, dois maquinistas, um guarda-freio  e um chefe de estação. Esperemos que tenham ajustado o caralho dos rodados.     



* copyright ou o catano daqueles gajos do Canal Q

** a repetição desta frase provoca-me uma confusão de sentimentos, como se visse o Pedro Silva Pereira a engasgar-se com o meu James Martin's 30 anos. Por um lado parece-me que pode servir como um ponto de referência comum aos vários textos uma vez que eles são publicados em alturas diferentes. Por outro lado já estou farto dela e nunca mais a escrevo.     
[Obviamente também reflecte a influência (a sinceridade é muito bonita) que o ensaio do David Foster Wallace sobre o Federer exerce sobre a minha pena; a continuada repetição, no mesmo texto, da expressão "estilo moderno dos potentes jogadores de fundo do campo", não me tendo enjoado em relação ao autor, acabou por me enjoar em relação aos autores que nunca se tinham lembrado desse truque].

*** aqui devia escrever “comboio” mas ainda estou no início do texto e já escrevi “comboio” uma vez e “comboios” outra; podia escrever “locomotiva” mas estaria tecnicamente errado; podia escrever “meio de transporte sobre carris” mas ficaria ridículo; vou deixar o “coiso”. 

**** Belmiro, não sei o que esperas para reunir com o Alcaide.    

***** Estou em condições de afirmar, após ter visto ao vivo a sua obra na cidade de Valência, que a humanidade já não era sujeita a um gajo com tamanha mania das grandezas desde o tempo de Ramsés II. Dada a dimensão, as formas e os materiais usados nas suas construções, é até de estranhar que os desvios nos custos não sejam maiores. Mas devo acrescentar que existe uma surpreendente delicadeza nas suas pontes e no “Turning Torso” de Malmö que contrasta com o gigantismo da maioria das outras obras.

 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

The ring



A última temporada do Breaking Bad está vista. Muito bom, tudo muito bom. Com tempo e talento poderia escrever um ensaio sobre os poderosos combustíveis que são o ressentimento e a frustração ou sobre o estoicismo de Gustavo Fring ou sobre a fronteira México-USA como o grande fétiche da produção cultural contemporânea ou sobre as nuances de raiz religiosa que distinguem o “desire to provide for the family” de Walter White do “la familia es todo” de Hector Salamanca ou sobre dezenas de outros temas que foram mexendo com os meus neurónios desde o primeiro episódio. No entanto, se tivesse mesmo talento (a verdade é que até tenho tempo), abordaria a brilhante lição dada pela equipa técnica de Breaking Bad à equipa técnica do Senhor dos Anéis através da discreta omnipresença da aliança de casamento de Walter White. É assombroso como um objecto de 3,8 cm2* se impõe com aquela força no ecrã de televisão durante toda a série.




* área calculada de acordo com a fórmula [A = Pi*r2] e considerando que a aliança de Walter White tem 2,2 cm de diâmetro (a minha tem apenas 2 cm mas o WW tem os dedos grossos)



Em relação à magna questão levantada aqui pela Carla Hilário Quevedo, se esta é uma série sobre um homem que se torna mau ou uma série sobre um homem que apenas acaba por assumir a sua verdadeira natureza, vou ler o Hobbes (penso que era adepto da teoria da maldade intrínseca do ser humano; não tenho a certeza uma vez que abordei o Leviathan através de uns apontamentos que me foram emprestados por um gajo que tinha uma letra pouco perceptível), o Rousseau (propagou a visão optimista da natureza humana, não há dúvidas; a treta do bom selvagem e tal) e aquela espectacular máxima do “homem e a sua circunstância” do Ortega Y Gasset, e talvez volte ao assunto mais tarde. Mas aproveito para antecipar que não afasto uma hipótese alternativa: WW não era um homem mau no 1º episódio e WW não é um homem mau no último episódio. O único momento em que se entregou sem reservas à verdadeira maldade, aquela que é praticada de forma gratuita, sem motivo e sem necessidade, foi com Mike Ehrmantraut, e não me parece que um ser humano mereça o inferno por ter ido uma vez beber um copo com o diabo. Entretanto, se tudo correr bem, tentarei rever até ao fim do ano todos os 62 episódios da série. Mas apenas umas 2 ou 3 vezes, no máximo...

  
PS – numa óptica de promoção do empreendedorismo aproveito para sugerir ao Shéu Han que abra um Los Pollos Hermanos na zona de Benfica. Não sei porquê mas lembrei-me.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O meu inter-rail; 3º capítulo: "mierdices"



Recapitulando: o cair da tarde pintava de laranja as austeras paredes da granítica cidade galega no momento em que… Paneleirice! Esta frase está carregada de paneleirice. Recapitulando a recapitulação: é fim da tarde em Vigo e acabo de entrar no comboio com destino a Barcelona. Carrego uma mochila de campismo e tenho no bolso das calças o bilhete de inter-rail, o tal que me foi vendido como “passe que permite andar gratuitamente durante um mês nos comboios de todos os países europeus excepto naquele em que nasceste”. Claro que não sou totalmente inocente e o gajo que mo vendeu (gajo que não é meu amigo, ao contrário do gajo que me deu boleia) sabia que eu sabia que ele sabia que nem todos os países europeus estavam contemplados. Bielorrússia e Ucrânia, só para citar dois, não estavam. Mas quantos dos nossos vizinhos que encontramos na fila do Pingo Doce sabem que a Bielorrússia e a Ucrânia pertencem à Europa? O Sr. Lemos do 3º esq. que trabalha nas Finanças e a D. Fátima do R/C que é secretária na Escola Secundária? Talvez. Quem sabe. É portanto justo dizer que estavam contemplados todos os países europeus que todos os portugueses conhecem como sendo países europeus, alguns países europeus que alguns portugueses conhecem como sendo países europeus (Bulgária e Roménia, por exemplo) e um país meio-europeu que 284 portugueses conhecem como sendo um país meio-europeu. Falo da Turquia, terra que me interessava muito e à qual queria chegar o mais rapidamente possível. Não contava por isso com as dificuldades técnicas, mais conhecidas por merdices, que me surgiram logo na viagem inicial. Mas voltemos um bocado atrás. Estou na carruagem que me serviu, de forma totalmente aleatória, de entrada para o comboio, e reparo que a mesma é constituída por várias cabines muito agradáveis, cada uma das quais contendo duas magníficas poltronas que se podem transformar em camas. Parece-me demasiado bom para ser verdade mas resolvo sentar-me numa delas com ar de banqueiro de investimento que por engano se vestiu às escuras no quarto do jardineiro*. Antes que tivesse tempo de pegar em qualquer coisa para ler ou num mapa para analisar** entra-me na cabine uma espanhola já velhota, totalmente aperaltada (já passava das 6 da tarde, hora a partir da qual todas as espanholas se apresentam com uma camada de maquilhagem que seria suficiente para tapar as rachadelas das paredes de todos os edifícios da Puerta del Sol) e que me começa a olhar como se eu fosse um jardineiro que se vestiu às escuras no seu próprio quarto. Atiro-lhe um buenas tardes manhosíssimo ao que ela responde com um pienso que está sentadito en el lugar que es mio ou outra coisa muito parecida que já não me lembro bem pois foi há muito tempo. Sabendo que aquela Duquesa de Alba que me observava atentamente deveria ter razão abandonei com celeridade o lugar, talvez temendo que lhe pudesse passar pela cabeça sentar-se no meu colo. Avanço pelo comboio fora e deparo-me com uma carruagem repleta de beliches e ocupada por muitos rapazes e raparigas que aparentavam ter partilhado comigo a escuridão do quarto e respectivo guarda-roupa do jardineiro. Todos tão obviamente interrailers*** que nem me senti envergonhado quando perguntei ao primeiro que olhou para mim se aquelas camas estavam todas ocupadas. E foi aí que estabeleci contacto com a 2ª dificuldade técnica, mais conhecida por merdice, daquele início de viagem. Pelos vistos aqueles beliches estavam sujeitos a marcação prévia, coisa que vos deve parecer óbvia e que eu próprio considero óbvia neste momento, mas que não tinha considerado óbvia antes daquela conversa. Já com a locomotiva em movimento arrasto a mochila para a carruagem seguinte, a primeira que apresentava uma disposição semelhante às da CP, e sento-me num lugar à sorte, completamente rendido à perspectiva de passar as 15 horas seguintes num estado de – riscar o que não interessa de acordo com a visão optimista ou pessimista que normalmente utiliza para interpretar a humanidade e os acontecimentos do quotidiano – semi-conforto / semi-desconforto. Como o comboio ia parar em todas as estações e apeadeiros que faziam parte da linha Vigo-Barcelona resolvi pegar no mapa de Espanha para me ir situando no percurso. Estava quase a chegar à fronteira de Castela e Leão quando aparece o Pica (com letra maiúscula, que aqui há respeito) e me pede o bilhete com uma voz de quem tinha passado o dia todo a comer serrim e a fumar daqueles Ducados que faziam o SG Filtro parecer tabaco para crianças. “Toma mi passe”, digo-lhe eu com cara simpática enquanto acrescento mentalmente um poderoso cabrón. “Donde tienes la reserva?”, pergunta-me o galego ou castelhano ou catalão ou o caralho. Pronto, estava armada a 3ª dificuldade técnica, mais conhecida por merdice, daquele início de viagem. “Que resierva, hombre?, io tengo uno daqueles passes que permiten andar gratuitamente durante um mês nos comboios de todos los países europeus excepto naquele em que has nascido!” Não era suficiente. Nas terras de Espanha era obrigatório, mesmo em inter-rail, fazer uma reserva antecipada de lugar nas bilheteiras das estações a troco de mil e tal pesetas. Aqui o vosso Aníbal não tinha a reserva e muito menos as pesetas pelo que teve, após um choradinho acompanhado de castanholas e juras de ignorância, de abandonar o comboio na estação seguinte, correr para um multibanco para levantar pesetas, correr para a bilheteira para reservar um lugar, correr para o comboio para seguir viagem e correr para o – letra maiúscula por favor – Pica para lhe agradecer muito, desejar-lhe imensas felicidades para toda a família e transmitir-lhe que os dias 14 de Agosto de 1385 e 1 de Dezembro de 1640 tinham sido os piores dias de toda a História de Portugal e que o Conde de Andeiro tinha agido correctamente ao papar a D. Leonor de Teles, encornando o Rei D. Fernando. A partir desse momento não ocorreram mais dificuldades técnicas dignas de registo e na manhã seguinte, depois de 15 horas sentado num lugar de mierda, cheguei a Barcelona.

(continua)




* o vestuário que utilizei durante a viagem foi de uma simplicidade extrema, verdadeira austeridade avant la lettre. Um par daquelas calças que se podem transformar em calções serviu para o mês inteiro (quase sempre utilizadas na forma de calções); eram escuras e não se notava (muito) a sujidade. Nos pés levava umas sapatilhas (sou do norte, não calço ténis; vocês, lisboetas, costumam ver na televisão os jogos de sapatilhas do Nadal?) e no tronco uma t-shirt (não se preocupem, ao contrário das calças, levei mais do que uma t-shirt; também levei alguns pares de meias e de cuecas). Na mochila transportava uma toalha de praia, uns chinelos, artigos de higiene, alguns livros, guias de viagem e mapas, uma caixa de paracetamol, dois pacotes de bolachas, uns calções de banho, uma segunda mochila de tamanho reduzido, um saco-cama, uns maços de tabaco (já não fumo mas na altura fumava) e uma sweat (era Verão, foi pouco utilizada). O cartão de crédito (do meu pai) e um pequeno maço de dólares (nos anos 90 o euro ainda estava a ser projectado; por falar nisso, bela merda de projecto que fizesteis, meus caralhos) estavam devidamente escondidos num bolso falso que a minha mãe ardilosamente criou no interior das calças que raríssimas vezes abandonaram as minhas pernas.


** não sei se já vos disse mas gosto muito de mapas; mapas-mundo, mapas de países, mapas de cidades, mapas de centros históricos, mapas políticos, mapas físicos, mapas demográficos, etc. Um´mapita sabe sempre bem. Brincadeira de palavras estúpida, gosto mesmo muito de mapas.              


*** é verdadeiramente impressionante a semelhança de todos aqueles que se encontram a fazer um inter-rail; suspeito que apenas nas paradas militares que ocorrem na Praça Kim Il-sung em Pyongyang poderemos encontrar pessoas tão parecidas umas com as outras. E a resposta é sim, a palavra interrailers usa-se neste meio.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Cai neve em Nova Iorque, chovem críticos de arte no meu país, excepto em Viseu


São Pedro

Aproveito para recomendar a todos os críticos de arte que surgiram em Portugal nas últimas semanas uma visita ao Museu Grão Vasco em Viseu. Passei por lá no início do ano e fiquei verdadeiramente maravilhado com o talento do homem. Tivesse ele tido a sorte de ter nascido em Florença ou na Flandres e seria conhecido e admirado em todo o mundo. Assim, tem tido uma média de 190 visitas por dia na sua terra natal. Que não se queixe, os velhotes que estão nos lares têm muito menos.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O meu inter-rail; 2º capítulo: "Vigo"



Tendo chegado a Vigo ao fim da tarde, apanhado o comboio para Barcelona ao fim da tarde e levando em consideração que esses dois fins de tarde ocorreram no mesmo dia, seria de esperar que não ocupasse qualquer linha desta reflexão a falar dessa cidade onde não passei nem uma hora do meu inter-rail. No entanto, por respeito à sua importância histórica na vida dos habitantes do Entre-Douro-e-Minho, não a poderia deixar de fora deste relato sentimental. Vigo foi o destino de milhares de romarias consumistas antes da abertura do El Corte Inglés de Vila Nova de Gaia e ainda é o destino de milhares de romarias “Hangover” style dedicadas a nubentes e organizadas pelos seus amigos. Encaixando com alguma habilidade na modéstia de espírito e de carteira do nortenho, é a nossa Las Vegasinhas*. Além disso, e não deixando de aproveitar o espaço aberto pela utilização desse interessante verbo que é o “encaixar”, importa também referir que foi nessa importante cidade pesqueira** que, numa bonita noite de Novembro de 1999, se encaixaram 7 deliciosos remates na baliza do Benfica, aumentando ainda mais a sua reputação de animadora de portuenses. Adivinhasse eu que tal jogo teria lugar num futuro próximo e teria cumprido peregrinação antecipada ao parque de diversões de Balaídos no pequeno intervalo entre os dois fins de tarde referidos na primeira linha deste texto. Como não adivinhei, pedi ao gajo que me deu boleia (é meu amigo mas às vezes trato-o por gajo ou por “meu caralho”) que me levasse directamente à estação da RENFE onde, munido do meu “passe que permite andar gratuitamente durante um mês nos comboios de todos os países europeus excepto naquele em que nasceste”, me enfiei sem demora na locomotiva com destino a Barcelona. Apesar de ter prometido resumir essa etapa neste segundo capítulo, vou-me marimbar para a promessa e deixar esse relato para o próximo texto. Até porque o “passe que permite andar gratuitamente durante um mês nos comboios de todos os países europeus excepto naquele em que nasceste” acabou por mostrar ter mais particularidades a necessitar de explicação do que aquelas que seriam de esperar de um “passe que permite andar gratuitamente durante um mês nos comboios de todos os países europeus excepto naquele em que nasceste”. É tudo uma cambada de ladrões é o que é…

(continua)




* acham que Las Vigos teria potencial como marca? A minha mulher diz que sim, para borrachões e putanheiros. Vou pensar melhor no assunto e depois vê-se.  


** o espírito de cidade pesqueira está bem representado neste magnífico monumento de enorme valor. Falo de valor sentimental para mim e não de valor propriamente dito em termos artístico-culturais, embora suspeite que o mesmo possa acumular os dois, suspeita que poderia confirmar rapidamente através de uma pesquisa rápida no Google que efectuaria escrevendo o nome do monumento na caixa de pesquisa (sei o nome de cor, chama-se “Los Rederos”) e descobrindo a partir daí o nome do escultor que a fez e o seu valor no financeiramente saudável mercado internacional de arte. Levar a cabo essa tarefa demoraria menos tempo do que o que estou a gastar a descrever a maneira como se leva a cabo essa tarefa mas não teria metade da piada e deixava-vos sem nada para investigarem pelos vossos próprios meios.




Voltando ao valor sentimental da obra importa esclarecer a sua origem dado que não encontrarão essa informação no Google. Vi-a pela primeira vez na adolescência, acompanhado de outros adolescentes meus amigos, na primeira vez que saí de Portugal liberto da companhia dos meus pais. O que levou a que tivesse memorizado esse episódio, quando nem sequer envolveu a visualização de gajas, foi a belíssima e gigantesca troca de argumentos que se desenvolveu no sopé da estátua e que pode ser assim resumida: um dos mancebos, que se encontrava imbuído de um forte desejo de desenvolver a musculatura e que acumulava a prática de flexões, elevações, agachamentos e o caralho com a aquisição periódica de revistas de musculação, olhando para os 7 colossais marinheiros a puxar uma rede de pesca afirma convictamente que alguns dos gajos que apareciam nessas revistas, desde que devidamente pintados de preto, poderiam ser infiltrados sorrateiramente no monumento sem que tal levantasse a mínima desconfiança por parte da população da cidade, análise a que os restantes excursionistas responderam com um sonoro “o caralho é que poderiam, deixa de gastar dinheiro nessas paneleirices e compra mas é a Gina”. Esta primeira contra-argumentação, de carácter mais geral, foi depois completada com pormenorizadas considerações sobre as dimensões sobre-humanas daqueles glúteos, bíceps, trapézios, deltóides, dorsais, adutores, tríceps e gémeos, contra-argumentação que foi rebatida com um “verdade, pá, aqueles gajos que aparecem na Muscle & Fitness não são bem humanos”, que deu por sua vez origem a uma contra-contra-contra-argumentação e assim sucessivamente até à hora de regressar à camioneta. Para aqueles que não acreditam que é por causa deste debate de ideias que nutro pelo monumento um grande carinho deixo a opção de se agarrarem a uma qualquer teoria relacionada com a importância da conquista pelos adolescentes de espaço físico em relação aos seus progenitores.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Cai neve em Nova Iorque, chovem críticos de arte no meu país



A maioria das pessoas que partilharam esta foto nas redes sociais também partilham com Cavaco Silva a ignorância total sobre o enquadramento e significado deste tipo de obras de arte. Não deviam por isso gozar com a expressão sincera do homem. Façam como eu, tentem desfrutar da piada da imagem sem tiques de superioridade. Vão ver que se vão sentir mais bonitos por dentro.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O meu inter-rail; 1º capítulo: "60 contos"


Levado pela mistura de estupidez e curiosidade característica dos 20 anos também eu fiz um inter-rail. Foi já no século passado mas, tal como escritores, ensaístas e intelectuais diversos já tiveram oportunidade de explicar recorrendo à utilização de palavras bonitas, deverá existir um intervalo de tempo entre os acontecimentos e a reflexão sobre os mesmos que, a não ser respeitado, poderá acarretar graves prejuízos à qualidade do produto final do exercício reflexivo. Decidi em consciência, e após cuidada análise, que esse intervalo de tempo termina agora. Dou assim por iniciada a tarefa de reflectir sobre o meu inter-rail, expondo ao mesmo tempo, num malabarismo arriscado, os frutos dessa reflexão.

O muro de Berlim tinha sido derrubado há praticamente 10 anos quando dei início aos 13 497 km (número inventado agora mesmo mas que não deve andar muito longe da verdade) que iria percorrer sentado, deitado ou em pé, a bordo de três dezenas de diferentes comboios europeus (outro número inventado agora mesmo e que, uma vez mais, não deve andar muito longe da verdade). Se falo do muro de Berlim e da sua queda espalhafatosa, tal não se deve a mais do que ao habitual desejo do ser humano de contextualizar os episódios marcantes da sua vida em relação aos episódios marcantes da história da humanidade. Poderia ter referido o assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo (muito afastado no tempo, não seria credível), os primeiros passos de Neil Armstrong na Lua (muito afastado no espaço, não seria credível), o início da destruição total e irreversível das finanças portuguesas pelo governo de António Guterres (totalmente credível mas muito afastado do conceito de episódio marcante da história da humanidade) ou a libertação de Nelson Mandela da prisão Victor Verster, um típico acontecimento do género pretendido e que se encontrava no raio de acção espácio-temporal adequado mas que não teve a sorte de ser escolhido por mim. Fica para a próxima.

O objectivo da viagem era visitar com algum detalhe a cidade de Istambul e o triângulo que, com o habitual bom gosto, os operadores turísticos baptizaram de “Circuito das Capitais Imperiais”, ou “Odisseia na Europa de Leste”, ou outras merdas parecidas de requinte semelhante. Refiro-me naturalmente a Praga-Viena-Budapeste sendo que, se considerarmos Viena como uma cidade da Europa de Leste, deveremos considerar Madrid como capital da Europa Central e a Costa da Caparica como estância de veraneio da América Latina. Mas isto é divagação e urge retomar o raciocínio. Passar 3 ou 4 dias em cada uma dessas quatro capitais (sim, já sei que a capital da Turquia é Ankara mas isso agora não interessa nada; sim, também sei que em português se escreve Ancara  mas isso ainda interessa menos) era aquilo que se pretendia com o investimento inicial de 60 contos (dizem que é o equivalente a 300 euros na moeda actual mas eu tenho sérias dúvidas desse facto), preço aproximado do bilhete que permitia viajar por toda a Europa durante um mês e que foi totalmente financiado pelos meus pais. Falo em investimento e não em gasto devido à existência de uma forte expectativa de retorno do valor em causa através da aquisição de vastos conhecimentos culturais por parte da minha pessoa, conhecimentos esses que enriqueceriam o meu curriculum para fins de mercado de trabalho num valor largamente superior ao despendido. Esta teoria, que se mostrou posteriormente como completamente falsa, foi por mim vendida ao meu pai (a minha mãe compra tudo o que lhe vendo à confiança) com toda a convicção e sem qualquer sombra de má-fé, pelo que não julgue o leitor que o andei (ao meu pai) a enganar. Voltando ao percurso, importa referir que decidi rentabilizar o período de um mês de viagem concedido pelo passe visitando algumas das terras que se interpunham entre a "Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal, Invicta e etc." e os quatro alvos primários, bem como alguns pontos de interesse situados nas imediações dos mesmos. A viagem propriamente dita teria início em Vigo, uma vez que o regulamento do inter-rail não permitia que os destemidos utilizadores do passe circulassem livremente nos comboios dos seus próprios países de nascimento. A lógica desta restrição sempre me intrigou mas nunca ao ponto de tentar perceber o motivo pelo qual havia sido criada. E não é agora, só porque estou a escrever esta treta, que vou investigar o assunto. Adiante, estava autorizado a fazer milhentos kilómetros (não gosto de escrever a palavra quilómetros, parece-me sempre que vai sair quilhões; por falar nisso, é quilhões ou colhões?) pela Europa fora mas não podia fazer na CP as 22 léguas que me separavam da fronteira natural entre Portugal e Espanha, conhecida como Rio Minho. Quem se lixou com esta curiosa regra “podes comer todas as gajas do teu prédio de 30 andares excepto a que vive no teu apartamento” foi um amigo, a quem cravei uma boleia até ao ponto de partida. O resumo da primeira etapa, entre Vigo e Barcelona, fica para quando me apetecer escrever o segundo capítulo.

(continua)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A Praxe – um conto moral foleiro e piegas sobre alguns Quadros de análise do tema


As férias desse quente Verão tinham sido maravilhosas mas a publicação dos resultados das candidaturas à Universidade acabara subitamente com o dolce fare niente. Sem qualquer tristeza no coração o caloiro Hugo Soares apresentou-se no campus da sua nova escola onde foi rapidamente abordado por indivíduos vestidos de negro. Eram (alguns) alunos mais velhos do seu curso que o queriam encaminhar para junto de (alguns) outros caloiros com o objectivo o praxarem.
Hugo Soares tinha 18 anos, já podia conduzir e votar, e já tinha sido várias vezes confrontado na sua vida com a arrogância e tiques autoritários de terceiros. No entanto, mesmo sabendo mais ou menos o que o esperava e consciente da liberdade que tinha para os mandar dar uma volta, resolveu alinhar na brincadeira. Juntamente com os seus novos colegas foi pintado, colocado de joelhos, chamado de besta quadrada e “baptizado” com um jarro de água do lago da Universidade. Em qualquer altura destes rituais de baixo nível e de estética desagradável poderia ter-se afastado, recusando sujeitar-se a mais idiotices. Ameaças, coacção, agressões físicas e ofensas são crimes previstos nas leis portuguesas e, uma vez que estamos todos sujeitos a ser um dia vítimas dos mesmos, devemos sempre cultivar uma prévia disposição mental para nos defendermos. No entanto, o caloiro Hugo Soares não encarou aquelas palermices como graves agressões mas como inofensivas brincadeiras, compensadas por algumas dicas úteis que recebeu de alguns dos colegas mais velhos e por uma bonita amizade que desenvolveu com alguns dos colegas mais novos.

Alguns anos mais tarde Hugo Soares foi eleito pelos portugueses deputado da nação e no âmbito do seu mandato, como era de esperar, não conseguiu agradar a gregos e a troianos. Numa manhã de 2014, mais propriamente no dia 20 de Janeiro, enquanto se dirigia para o Parlamento no seu carro, começou a ouvir o programa humorístico “Tubo de Ensaio” que estava a passar na TSF. Surpreendido, constatou que era ele próprio o tema daquela emissão. Durante alguns minutos foi gozado perante todo o país sem dó nem piedade. Uma voz que lhe invadia o habitáculo baptizou-o de “criatura” pertencente a uma “ninhada rafeirosa” e, a propósito do referendo que tinha proposto durante o exercício do seu cargo, foi-lhe transmitido com requintes de malvadez que possuía “o olhar inteligente de um penedo do Gerês”. Pelos vistos não passava de “um urso a pedalar a bicicleta da democracia”, manietado por outros, uma vez que ele próprio não conseguiria desencantar aquelas ideias da sua cabeça sem ter um esgotamento, ainda para mais numa altura em que "frequenta aulas para aprender a comer com talheres”. Enquanto pensava que toda a sua família, amigos, colegas de profissão e conhecidos estavam naquele preciso momento a ouvir aquele texto que o humilhava e enxovalhava, Hugo Soares ainda escutou que tinha “a perspicácia de um esquentador” e que o seu nascimento tinha sido um momento lamentável.
Note-se que os pais de Hugo Soares o poderiam ter preparado para evitar totalmente a praxe na Universidade mas, por muito que se esforçassem, nunca o poderiam ter preparado para evitar a audição daquele programa de rádio. Agora parece que existe um forte movimento para erradicar, proibir e criminalizar todo e qualquer tipo de praxe e que o autor do “Tubo de Ensaio” é um dos mais empenhados membros desse movimento. Por mim tudo bem, não vou sentir a falta.   

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ajustem-se


“Todo o esforço se desvia”, afirmava Fernando Pessoa no Livro do Desassossego. Com esta frase o poeta mostrava o carácter caprichoso da vida que, muitas vezes, castiga o homem esforçado com resultados diferentes, ou até opostos, daqueles que se pretendiam com a aplicação do esforço. Inês Pedrosa, conhecida pessoana e directora da instituição lisboeta dedicada ao escritor, sabe melhor do que ninguém da existência de algum exagero no pensamento e obra de Pessoa. A verdade é que nem tudo vale a pena se a alma não é pequena e nem todo o esforço se desvia do seu objectivo último, sendo que quanto mais directo se mostrar o esforço maior a probabilidade de não ocorrer qualquer variação entre o resultado pretendido e o resultado obtido. Assim, os leitores do jornal Público que ficaram a saber nas últimas horas que a directora da Casa Fernando Pessoa adjudicou vários serviços a conhecidos seus, usando para tal o procedimento do “ajuste directo”, não devem de todo estranhar tal atitude. Conhecendo os avisos do escritor acerca das ironias do destino, para quê apostar em esforços que se mostrem susceptíveis à ocorrência de desvios? Se o objectivo é atribuir a realização dos trabalhos a determinadas pessoas o ajuste directo é a melhor arma de defesa contra o pessimismo do poeta. E, desassossegos à parte, resulta.

A grande lição que se deve retirar deste episódio é que largar os rodeios compensa e dá frutos. Não nos devemos esquecer que a directora da Casa Fernando Pessoa é uma das maiores críticas deste governo e do seu programa de ajustamento. O motivo para tal postura é agora claro. Inês Pedrosa é defensora de ajustes directos e o ajuste a que a nossa economia está a ser sujeita é completamente indirecto. Corta-se a despesa com o objectivo equilibrar o orçamento e aumentam-se os impostos com o objectivo de reduzir o consumo e equilibrar a balança comercial. É tudo demasiado sinuoso para a mente objectiva da nossa pessoana, que recomendaria naturalmente uma solução mais frontal. Se o Estado tem mais despesas do que receitas e se os portugueses consomem mais do que aquilo que produzem, adjudica-se ao BCE o serviço de fabricar mais notas e mais moedas. Por ajuste directo, naturalmente.     

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

(Eles não se movem.)


Acho que o Pedro Mexia tinha encerrado o seu estaminé - http://omalparado.blogspot.pt/ - mas descubro agora que o mesmo se encontra novamente activo. Ainda bem. Gosto de ler o que ele lá coloca embora às vezes não perceba o significado. Aliás, gosto de ler o que ele lá coloca principalmente quando não percebo o significado.
O diálogo que encerra a famosa peça de Beckett - Waiting for Godot - e que Pedro Mexia coloca como epígrafe do blogue, é bem representativo desta doce ignorância que cultivo. Embora não saiba o significado da cena, ou seja, daquela conversa e da inacção que se lhe segue (Beckett nunca explicou o que raio queria dizer com aquilo), repito-a diariamente com a minha mulher nos 45 minutos que se seguem ao toque do despertador pela manhã.  

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

"The Ethiopian Method" fez mais uma vítima


Matthew McConaughey em “Dallas Buyers Club” (2013)




Michael Fassbender em "Hunger" (2008)




Christian Bale em "The Machinist" (2004)