sexta-feira, 25 de julho de 2014

O meu inter-rail; 10º capítulo: Popolo, Popolo, Popolo




Tentei explicar, nos capítulos 7, 8 e 9 (clique no “7” para ser reencaminhado para a Estação de Termini; no “8” para visitar uma rua onde moram três beldades; no “9” para se chocar com o péssimo trabalho da APRe! - Associação de Aposentados Pensionistas e Reformados da Dra. Maria do Rosário Gama), de que forma utilizei as primeiras horas do período de 14 que tinha disponíveis para fazer o que me apetecesse em Roma. Deixei-vos na Via Vittorio Veneto, perto da Villa Borghese, cujos jardins atravessei em seguida até à íngreme encosta do Pincio. Desse ponto alto pude observar aquela que é para mim a mais bela praça da cidade, a Piazza del Popolo. Neste momento sinto já o indisfarçável ódio de alguns de vós, prontos para me atirarem à cara nomes de outras praças romanas que são na vossa opinião incomparavelmente mais bonitas, ou mais elegantes, ou mais românticas, ou mais típicas, ou mais outra merda qualquer do que a minha Piazza del Popolo. No entanto, apesar de respeitar imensamente as vossas opiniões e sentimentos, é com pesar que vos informo que a mais bela praça de Roma é (pausa para dar ênfase) a Piazza del Popolo. E consigo sustentar esta minha absoluta convicção apenas naquilo que podemos ver sob a sujeição dos elementos, não levando em consideração nada que se encontre debaixo de qualquer tecto, como por exemplo as pinturas e esculturas de Caravaggio, Carracci e Bernini que se encontram nas Capelas da Igreja de Santa Maria del Popolo ou os interiores do Café Rosati* e do seu rival Café Canova**.
Esta praça, uma grande elipse*** centrada por um obelisco egípicio (devem existir mais obeliscos egípcios em Roma do que em qualquer outra parte do mundo, Egipto incluído****), era um verdadeiro hall de entrada para os muitos viajantes que chegavam à cidade percorrendo a Via Flamínia. E cumpria com eficácias as funções de um hall, distribuindo as pessoas pela urbe através de um tridente encabeçado pelas “igrejas gémeas”.




Via del Babuino (à esquerda), que conduz ao Quirinal através da Praça de Espanha 
Via del Corso (ao meio), que conduz à Praça Veneza e ao Capitólio
Via di Ripetta (à direita), que conduz à zona da Praça Navona através do antigo porto fluvial, do Mausoléu de Augusto e do Ara Pacis




Como apressado turista ranhoso que era não resisti a ser distribuído pela rua da esquerda, atraído pela fama da escadaria da Praça de Espanha e pelo quarteirão das lojas de luxo. Se fosse agora, que sou um descontraído viajante com estilo, deixar-me-ia distribuir pela rua da direita e caminharia em direcção ao antigo Porto di Ripetta e às marcas deixadas pelo divino Augusto: o seu mausoléu e o seu altar de consagração à pax romana, sabiamente instituída através da distribuição de maciças doses de bordoada. Também a mim me apeteceu utilizar os métodos de Augusto, para instituir a paz nos tumultuosos locais que visitei de seguida, nomeadamente a Praça de Espanha, o Panteão e a Praça Navona.
Salvou-se a Igreja de Santo Inácio de Loiola, onde pude admirar em relativo sossego o ilusório tecto “sem fim” e a “cúpula”, quase tão falsa como os funcionários do Estado que justificam as greves com a defesa dos serviços públicos e dos seus respectivos utentes. Também não fui muito esmagado por pessoas de olhos em bico na Basílica de Santo Agostinho e consegui, olhando para a Madonna dos Peregrinos, perceber mais ou menos as ideias de Caravaggio: representar tudo, até motivos religiosas, através de seres humanos normais, não idealizados, utilizando como modelo a populaça da rua, putas incluídas. Unhas com lixo, dentes podres, pés sujos e calejados e rugas vincadas são acolhidos na tela de braços abertos e sem hesitar muito para não atrasar a obra. Caravaggio gostava de trabalhar rápido, precisava de tempo livre para se embebedar, armar confusão, andar à porrada, frequentar rameiras, ser preso com regularidade. “Putridum et foetidum”, pútrido e fétido, baptizaram-no os Cavaleiros da Ordem de Malta depois de o enfiarem, uma vez mais, num calabouço. Claro que conseguiu, uma vez mais também, fugir, mas apenas para morrer novo, como era de esperar. Avancemos… 
 


Madonna dos Peregrinos - pormenor



Sem tempo para experimentar o melhor cappuccino da cidade (Caffè Sant´Eustachio, perto do Panteão), nem o célebre tartufo do Tre Scalini (na Navona), nem a melhor pizza do mundo (Pizzeria da Baffetto*****, perto da Navona), nem a segunda melhor pizza do mundo (La Montecarlo, perto da Navona, propriedade dos filhos dos Baffettos), nem a terceira melhor pizza do mundo (propriedade dos netos dos Baffe… foda-se, estou a brincar, os netos dos Baffettos não têm nenhuma pizzeria; vocês acreditam em cada merda que não lembra nem ao diabo!), avancei para o Corso Vittorio Emanuele II, que percorri em quatro actos: o acto de ir ver os gatos que habitam as ruínas milenares do Largo di Torre Argentina, acrescido dos três Actos da Tosca de Puccini. Muito resumidamente, dá-se início à “obra” na Igreja de Sant'Andrea della Valle, faz-se um ligeiríssimo desvio à esquerda até ao Palácio Farnese e, para terminar, retorna-se ao corso e caminha-se até ao seu final. Aí, já com a visão do Tibre e do Castelo de Sant'Angelo, imagina-se um céu nocturno com estrelas a brilhar e um gajo com boa voz a cantar isto:




(Di Stefano naquela que é, na opinião dos entendidos e também na minha, a melhor gravação da Tosca de todos os tempos)




(aqui é Pavarotti que interpreta Mário Cavaradossi, o pintor que aguarda pelo fuzilamento no Castelo de Sant'Angelo; um grande artista, o tenor dos plebeus)



Terminados os três Actos e limpas as lágrimas, caminhei do Castelo até São Pedro pela Via della Conciliazione, mandada rasgar por Mussolini pelo meio do antigo casario. O choque que os peregrinos aparentemente sentiam quando se libertavam das ruelas e viam o gigantismo da Basílica, da Praça e da Colunata desapareceu com a abertura da nova via “fássista”, uma vez que tudo isso passou a ser perfeitamente visível a mais de meio quilómetro de distância. Dando como quase certo que a surpresa, a admiração e a sensação de esmagamento eram os objectivos que o teatral Bernini pretendia alcançar com os arranjos exteriores de São Pedro, podemos concluir que o Benito fodeu tudo. Literalmente…


Antes de o Benito foder tudo


Enquanto o Benito fodia tudo


Enquanto o Benito fodia tudo


Depois de o Benito foder tudo


Felizmente, todas essas emoções aparecem um pouco mais tarde quando se ultrapassa a porta da basílica, pelo que também eu terei ficado com cara de parvo e de pasmadinho diante dos mais de 200 metros de comprimento do templo. Lembro-me de ter ficado a pensar se um camião TIR conseguiria fazer inversão de marcha na nave principal, se as pias de água benta teriam tamanho suficiente para dar um mergulho, e se seria possível alojar a Torre dos Clérigos debaixo da cúpula e a Igreja da minha freguesia debaixo do baldaquino. A resposta foi sim a tudo, com excepção do mergulho nas pias (mas apenas por uma questão de poucos centímetros). A vontade de humilhar pelo tamanho é de tal ordem que o chão da basílica está preenchido com marcas que indicam onde se situariam as portas de várias outras catedrais do mundo se os seus altares-mor coincidissem com o altar-mor de São Pedro. Por exemplo, só quando vamos mais ou menos a meio da nave principal é que nos aparece a marca da Notre-Dame de Paris, o que significa que poderíamos lá enfiar duas. Embrulha, corcunda…
Foi o Papa Júlio II que lançou este empreendimento descomunal mas o que lá vemos hoje tem pouco a ver com os planos iniciais de Bramante, o primeiro arquitecto que lá trabalhou. Se olharmos para os seus projectos da basílica e principalmente para o Tempietto, o pequeno templo da sua autoria que se encontra na colina do Janículo, a poucas centenas de metros do Vaticano, percebemos rapidamente duas coisas acerca de Donato Bramante: leu exaustivamente os livros de arquitectura de Vitrúvio e era daquelas pessoas que medem e acertam as pontas dos atacadores antes de os apertarem. Não querendo com isto dizer que a sua mente clássica não poderia por si só justificar a perfeição extrema da obra, a correcção das proporções, a precisão matemática, o equilíbrio dos componentes e a harmonia geométrica, parece-me claro que a monumental tara pela simetria só pode ser explicada por uma neurose obsessivo-compulsiva.  




Tempietto - a obra de Bramante 

 


Projecto da Basílica de São São Pedro em cruz grega – o sonho de Bramante




Simetria - o pesadelo de Bramante


Antes de abandonar o território papal, ainda tive a oportunidade de me rir como um perdido perante a dimensão da fila de entrada nos Museus do Vaticano e de chorar como um desalmado quando soube o preço da garrafa de água que tinha acabado de comprar para tentar sobreviver à canícula. De São Pedro segui para a “Roma antiga” - Capitólio, Palatino, Célio e Aventino - mas não vos vou maçar com conversa de ruínas uma vez que pretendo causar-vos esse transtorno quando chegarmos à Grécia. Do meu dia romano guardo acima de tudo, nunca é demais repetir, a beleza da Piazza del Popolo. Gosto de pensar que o próprio Fellini percorreu a Via Flamínia e entrou em Roma pela primeira vez através desta praça. É que o excêntrico realizador nasceu em Rimini, a cidade situada no outro extremo dessa antiga estrada romana. Infelizmente, pela lei das compensações, a terra que viu nascer o monstro italiano da arte de filmar foi também a terra que viu morrer o monstro italiano da arte de pedalar. Sim, falo de Marco Pantani, um gajo que andava de bicicleta, mas que não era nada cínico, ao contrário do Edgar Novo, a quem dedico este texto.

(continua)



* tendo ouvido dizer que era no Café Rosati que se reuniam os intelectuais de esquerda consegui confirmar que este era frequentado por Italo Calvino, Pasolini e Alberto Moravia.

** tendo ouvido dizer que era no Café Canova que se reuniam os intelectuais de direita consegui confirmar que este era frequentado pelo Federico Fellini. Não consegui foi confirmar se podemos considerar o Fellini como um homem de direita! Embora também duvide que alguém consiga confirmar se podemos considerar o Fellini como um homem de esquerda.

*** na gravura de Piranesi (1720-1778) que vemos no início do texto a piazza ainda não tinha a sua aparência actual, apresentando-se com um austero formato trapezoidal. Foi muito provavelmente o desenho elíptico que Bernini atribuiu à Praça de São Pedro que inspirou a sua posterior renovação.    

**** sem querer ser exaustivo, ficam aqui alguns dos obeliscos roubad… digo, emprestados pelos egípcios aos seus amigos romanos: Obelisco di Dogali (Termas de Diocleciano), Obelisco Macuteo  (Panteão), Obelisco Flaminio (Piazza del Popolo), Obelisco Lateranense (Basílica de São João de Latrão), Obelisco della Minerva (o que está em cima do elefante, nas traseiras do Panteão), Obelisco Vaticano (Praça de São Pedro). Note-se que alguns dos obeliscos antigos que podemos ver em Roma, como por exemplo os que se encontram na Praça Navona, no Quirinal ou na scalinata da Praça de Espanha, não vieram do Egipto, sendo apenas cópias mandadas erigir por romanos com segmentos de ADN provenientes de macaquinhos de imitação.

***** nesta fotografia tirada numa muito posterior viagem a Roma podem ver o sacana do Baffetto agarrado à minha mulher! Em troca de uma boa pizza um gajo até faz de corno manso.




sexta-feira, 6 de junho de 2014

O meu inter-rail; 9º capítulo: vida doce mas não é para todos




Uma arena engalanada de leões sob o olhar vidrado de um Imperador mais ou menos louco (mas sempre sádico) é provavelmente a primeira imagem em que pensam quando vos perguntam acerca de filmes passados em Roma. Se vos disserem que não se podem valer do género cinematográfico peplum, talvez comecem por enviar o vosso interlocutor para o caralho a mais a sua snobeira intelectual, mas, depois de vos ser explicado que um peplum é apenas um filme “espada e sandália” que retrata temas bíblicos ou da Antiguidade, é possível que se acalmem e se lembrem de algumas cenas mais contemporâneas que utilizaram igualmente Roma como pano de fundo. Sem me querer meter na vossa vida, suponho que a memória vos transmitirá, pelo menos, as imagens de uma inocente Audrey Hepburn a passear de scooter nas suas “Férias em Roma” e de uma libidinosa Anita Ekberg a viver “La Dolce Vita” numa majestosa fonte da cidade.
Visitadas as três beldades da rua (Capela Cornaro, San Carlino e Sant´Andrea, caso se tenham esquecido) e não me conseguindo livrar das vulgares tentações do turista, puxei o lastro da curiosidade através do Quirinal*, tomando a direcção dessa famosíssima fonte feita chuveiro pela audácia da voluptuosa loira.



Acqua di Trevi


Anita Ekberg em 2010 ao lado de um fotograma do filme de 1960. É a puta da vidinha…


Roma é uma cidade permanentemente cheia de visitantes espalhados por todos os cantos. No entanto, a concentração de pessoas por metro quadrado junto da Fontana di Trevi é certamente a maior com que nos podemos deparar. É possível que a Capela Sistina sofra de uma enchente semelhante durante as nove ou dez horas em que está aberta ao público mas a obra de Nicola Salvi**, situada num local aberto e não sujeito a horários, consegue ser mais ou menos insuportável durante as vinte e quatro horas do dia. Toda a gente quer visitar a fonte. Paradoxalmente, devido à tradição da treta de atirar a moedinha por cima do ombro, o principal intuito da visita é virar-lhe o rabo.



Na famosa cena do filme de Fellini, o jornalista cor-de-rosa Marcello está tão embasbacado com a actriz Sylvia que fica quase paralisado, não lhe conseguindo tocar. Pelo contrário, o namorado da actriz, pensando que já era corno quando na realidade era apenas meio-corno, consegue posteriormente tocar bem nos dois, presenteando a loira com uma lostra bem assente e o galã com um pêro no focinho. Essa cena de violência, assim como uma grande parte do filme, tem lugar na Via Vittorio Veneto (a poucas centenas de metros da fontana), a agitada rua onde os aristocratas e os famosos se reuniam em descarada esbórnia. Estamos nos finais da década de 50, a miséria do pós-guerra já vai longe e Roma encontra-se invadida por estrelas de Hollywood que gravam os seus filmes nos estúdios da Cinecittà.



Judah Ben-Hur e Messala a caminho da Cinecittà (1958)


A Via Veneto que vemos em “La Dolce Vita” é um caótico corrupio festivo de burgueses, gajas meio-sérias / meio-putas (dependendo do ponto de vista sobre a questão copo meio-cheio / meio-vazio), cronistas sociais e paparazzi em alegre disputa pelo óscar da decadência. A Via Veneto que percorri no meu dia romano mostrou-se, com grande pena minha, uma rua trivial escassamente povoada por alguns turistas endinheirados. Até a vontade que levava de estourar uns milhares de liras*** numa das esplanadas, tentando simular com uma cerveja a pervertida elegância que Fellini conseguiu transmitir, se dissipou na aridez do local. Felizmente, venturosamente, ditosamente e afortunadamente, quando caminhava entre a fonte de Trevi e a Via Veneto tive a sorte de passar (não sei se já tinha referido que foi por sorte) pelo local onde o infeliz colador de cartazes do filme “Ladrões de Bicicletas” corre atrás do ladrão que lhe acaba de roubar a, adivinharam, bicicleta.



Antonio Ricci a tentar apanhar o ladrão; acabará por entrar no túnel Umberto I sob a colina do Quirinal


Encontrar um dos locais cruciais de filmagem da obra-prima neo-realista de Vittorio De Sica a meio caminho entre dois dos locais cruciais de filmagem da obra-prima inclassificável de Federico Fellini foi como descobrir um osso de frango no meio de um esturjão beluga. Ambos os filmes retratam a desgraça mas, a não ser que encaremos a questão sob o ponto de vista do “Sermão da Montanha” e da bem-aventurança da pobreza, a desgraça opulenta em que mergulha a personagem interpretada por Marcello Mastroianni parece mais agradável do que a desgraça desgraçada em que vive a família Ricci. “Ladrões de Bicicletas”, apesar do notório esforço do realizador, nunca provocou grande enternecimento no meu coração de pedra com cobertura de gelo e limalha de ferro. No âmbito da problemática da crise económica e miséria social que o neo-realismo de De Sica pretendeu denunciar (este “de” seguido de “De” é magnífico; e o novo “de” que ainda consegui incluir na explicação?!), nada me consegue comover tanto como a história de Umberto D., o velhinho acompanhado de um cãozinho (tudo neste filme deve acabar em “inho”, sem dúvida), que recebe uma pensão tão baixa que nem sequer dá para pagar o quarto (a senhoria é uma cabrazinha, naturalmente), e que deambula pela cidade de Roma (Panteão, Piazza del Popolo, praça do “Elefante e Obelisco” do Bernini, etc.) em contido desespero.



Umberto D., envergonhado, ensina o cãozinho a pedir por ele em frente ao Panteão


Onde está a APRe! - Associação de Aposentados Pensionistas e Reformados da Dra. Maria do Rosário Gama quando é preciso, caralho?! Choro baba e ranho sempre que vejo este filme, é preciso fazer alguma coisa pelo senhor antes que se me amoleçam as entranhas.

(continua)
(quando voltar espero que já tenham visto o Umberto D., é só ir ao youtube)



* onde se encontra o Palácio de Belém lá da terra

** Nicola Salvi foi um dos arquitectos italianos contratados pelo despesista D. João V para a construção da Capela de São João Baptista. Depois de ter sido montada e exposta em Roma foi novamente desmontada e enviada por navio para Lisboa com vista à sua instalação definitiva na Igreja de São Roque. Consta que o orçamento inicial foi largamente ultrapassado, tendo atingido o valor que normalmente atribuímos aos olhos da cara.      

*** uma lira italiana valia dez vezes menos do que um escudo português e nos anos 90 podíamos ver a cara de Bernini nas notas de 50 000, a de Caravaggio nas de 100 000 e a de Rafael nas de 500 000 liras. Quereriam com isto os italianos fazer juízos de valor e estabelecer termos comparativos? Penso que não, mas vou aproveitar a deixa para entrar nessa pantanosa tarefa de comparar qualitativamente artistas, uma actividade que consegue ser ainda mais ridícula do que andar a fazer comparações métricas (é mais centimétricas) no balneário do ginásio.

Seguindo a proporção monetária das notas de lira, não me é difícil escolher a dedo uma obra de Caravaggio que me mereça o dobro da admiração de uma obra de Bernini seleccionada da mesma forma:



“Relicário da Cátedra de São Pedro” (1653); Bernini; Basílica de São Pedro
Não sei porquê mas não gosto muito disto, merece-me x admiração


“A Vocação de São Mateus” (1600); Caravaggio; Igreja de São Luís dos Franceses
Foda-se, espectacular, merece sem dúvida 2 x da minha admiração 


O problema é que também consigo fazer o inverso:


“A cigana que prevê o futuro” (1594); Caravaggio; Museus Capitolinos
Obra muito importante que revolucionou blá blá blá. Não gosto, leva uma admiração de x


Pormenor de “O Rapto de Proserpina” (1622); Bernini; Galleria Borghese
Vejam bem este apalpão no mármore! Melhor escultura de sempre! 284 x da minha admiração


Acho que já perceberam o meu ponto de vista, ide medir pilinhas que é menos embaraçoso.

 

terça-feira, 20 de maio de 2014

“Prometo que só faço promessas em que prometendo, não prometo”




- Plebe, o teu marido não te merece, trata-te abaixo de cão e faz-te viver na miséria. Deixa-o e foge comigo.

- Tens razão, Tó-Zé, o Pedro tem sido um escroque e já estou cansada dele. Tu pareces diferente, podes prometer-me que serás bom para mim? 

- Sabes que não gosto de fazer promessas que não tenha a certeza de poder cumprir.

- Mas, não entendo! Quando o acusas de me insultar (com reduções de salários), de me bater (com aumentos de impostos) e de me fazer viver na miséria (com cortes no Estado Social), não estás implicitamente a prometer que não me vais insultar, não me vais bater e não me vais fazer viver na miséria?

- Não, nem por sombras, estou apenas a acusá-lo de te insultar, de te bater e de te fazer viver na miséria.  

- Mas não és contra isso, Tó-Zé?

- Claro que sou, acho inadmissível e desnecessário. Uma autêntica vergonha.

- Então, quando eu o abandonar e casar contigo, tudo isso fará parte do passado.

- Sim, Plebe, fará parte do teu passado com o Pedro.

- Sendo assim, posso ter a certeza que no futuro vou deixar de ouvir insultos, de levar na cara e de viver na miséria, certo?

- Isso não te posso prometer. 

- Como assim?! Podes garantir que és contra essas coisas mas não podes garantir que acabas com elas?!

- Repara, eu não sei em que estado te vou receber como minha mulher. Não sei se o Pedro te vai deixar em condições objectivas de não ouvires insultos, de não levares na cara e de não viveres na miséria. Fazer promessas neste contexto seria de uma enorme irresponsabilidade e contribuiria para desacreditar ainda mais a instituição do casamento.  

- Mas se não conheces as tais condições objectivas, em que te baseias para considerares inadmissível e desnecessário que o Pedro me insulte, me bata e me faça viver na miséria?

- Baseio-me no carácter completamente imoral desses três actos.

- Actos que não podes prometer não vir a praticar.

- Exacto.

- Apesar de os considerares indecentes e imperdoáveis.

- Ora nem mais.

- Posso então concluir que no nosso casamento vais dizer: “eu, Tó-Zé, recebo-te por minha mulher a ti, Plebe, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida, caso existam condições objectivas para ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida. Caso não existam condições objectivas para ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida, terei de me comportar de outra maneira, embora considere essa outra maneira inadmissível, desnecessária, imoral, indecente e imperdoável.”

- Sem tirar nem pôr. Diz lá se conheces alguém tão honesto como eu...

- Oh meu amor, bem dizia o Nelson Rodrigues, é preciso muito cinismo para se chegar às bodas de ouro.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

O meu inter-rail; 8º capítulo: Claudia Cardinale, Sophia Loren e Valeria Golino na mesma rua



Strada Pia = Via del Quirinale + Via XX Settembre



Um bom local para um viajante sem pressas iniciar uma visita a Roma seria o Palatino, pois foi aí que a loba encontrou os dois irmãos que tinham sido atirados ao Tibre dentro de um cesto de ahhhhhhhh..., vime (não resisti à graçola estúpida, peço perdão). Como eu era apenas um turista apressado, fiz por esquecer os relatos de Tito Lívio e de Virgílio, e lancei-me com unhas e dentes sobre os alvos mais próximo de Termini que havia marcado no meu guia de viagem: a Igreja de Santa Maria della Vittoria com a sua famosa Capela Cornaro, a Igreja de San Carlo alle Quattro Fontane (San Carlino para os amigos) e a Igreja de Sant´Andrea al Quirinale. O facto destas três pérolas se encontrarem em fila, na mesma rua e a meia dúzia de passos umas das outras, é uma daquelas coisas muito habituais nesta cidade, como se a Claudia Cardinale, a Sophia Loren e a Valeria Golino* vivessem no mesmo piso do mesmo prédio. Com as vantagens adicionais de terem entrada gratuita, abrirem cedo e fecharem tarde. Falo das Igrejas, claro**. Outra curiosidade prende-se com a ordem em que estão dispostas ao longo da antiga Strada Pia: a obra de Borromini, San Carlino, encontra-se no meio, como que encravada entre as duas preciosidades de Bernini, Sant´Andrea e a Capela Cornaro. Também na vida real, e durante cerca de uma década, Borromini foi totalmente encravado pela fama e voracidade de Bernini, tendo-se sujeitado a ser um mero ajudante da estrela principal do universo artístico romano, um conhecido eucalipto que tudo secava à sua volta. Uma injustiça enorme de que nos apercebemos mal pousamos o olhar naquela fachada ondulada e sinuosa, desenhada por linhas que parecem mover-se e construída com pedras que delicadamente se ajustam em sucessivas curvas e contracurvas.



San Carlino, as tuas curvas deixam-me louco



O barroco de Borromini é sensual, vive da tensão entre linhas rectas, côncavas e convexas. Não fora o pequeno detalhe da letra “n” na palavra “tensão” e seria pura sexualidade bem resolvida. E quando me apercebi do espaço minúsculo onde o arquitecto foi obrigado a encaixar San Carlino, não consegui deixar de soltar um elogioso comentário técnico: “puta que o pariu!” Na verdade, o dia que passei em Roma foi preenchido com duas frases alternadas e repetidas à exaustão: “puta que o pariu”, quando olhava para determinada obra e pensava no seu autor, e “puta que os pariu”, quando tentava atravessar a rua. Mas regressemos à antiga Strada Pia e entremos em Santa Maria della Vittoria, a mais extravagante Igreja da cidade, para uma reflexão sobre a capela edificada por Gian Lorenzo Bernini.
A obra do mais importante escultor do barroco é omnipresente na cidade. Atropelando quem lhe aparecia pelo caminho o homem ia a todas, pelo que não há nenhum canto de Roma em que não tropecemos numa escultura, fonte, túmulo, altar, capela, igreja, praça ou palácio da autoria do grande mestre e eucalipto seiscentista. Desde o pontificado de Paulo V trabalhou para meia dúzia de Papas, tendo sido o menino bonito de dois deles: Urbano VIII, da família Barberini e Alexandre VII, da família Chigi. Não por acaso tratou de fazer os seus grandiosos túmulos em locais privilegiados da Basílica de São Pedro. É verdade que pelo meio apanhou com o Papa Inocêncio X mas este, mesmo não gostando da sua cara nem do seu muito dispendioso perfeccionismo, não lhe cortou totalmente as encomendas, muito embora o tenha colocado sob um forte programa de austeridade.
 


Papa Inocêncio X
Diego Velázquez, 1650





Inocêncio X depois de ter recebido a conta de uma obra de Bernini 
Francis Bacon, 1953



Foi precisamente durante o período em que o Papa da família Pamphilj o sujeitou a uma dieta de obras que os Cornaro abriram os cordões à bolsa e lhe entregaram o projecto da Capela familiar. Com tiques de governantes portugueses pré-troika, não incomodaram o artista com restrições financeiras, deixando-o dar largas à imaginação. Bernini, que adorava trabalhar dessa forma e que teria desenhado com todo o gosto uma EB 2 3 para a Parque Escolar do Eng. Sócrates, consolou-se.
A peça central da Capela Cornaro é a muito conhecida representação do êxtase de Santa Teresa. A estátua apresenta-nos Teresa de Ávila a deleitar-se em espasmos no momento em que um Anjo a trespassa com uma lança. Segundo o relato da própria foi tão grande a dor que até gritou mas, ao mesmo tempo, sentiu tanta doçura que desejou que a dor continuasse para sempre. “Deus satisfazia-me a alma e deixava-me toda em fogo”, escreveu a Carmelita Descalça no seu diário, dando azo a que Bernini se esticasse até ao atrevido resultado final.




É mais ou menos consensual que o artista esculpiu a Santa a (Deus nosso Senhor me perdoe) vir-se. E intensamente, que até os dedos dos pés se mostram contraídos diante das caras de parvo dos visitantes, num daqueles reflexos involuntários cuja ausência denuncia as simuladoras de orgasmos. O irónico Stendhal, nas suas Promenades, caracteriza a escultura como “divina arte”, mas coloca na boca de um monge que o acompanhava as seguintes palavras: “é grande pecado que estas representações possam dar a ideia de um amor profano”. Este “possam dar a ideia”, escrito pela pena de Stendhal, consegue ser ainda mais perversamente explícito que o meu “cesto de ahhhhhhhh..., vime”. Até os membros da família Cornaro, que Bernini colocou numa espécie de camarotes de teatro esculpidos nas laterais da Capela, parecem interrogar-se se estão mesmo a ver aquilo que parece que estão a ver.




"Oh primo Cornaro, o êxtase da tua mulher também é assim?!"



Bernini voltou ao tema na Igreja de San Francesco a Ripa, no bairro romano do Trastevere, extraindo do mármore uma Beata Ludovica Albertoni em preparos semelhantes. Eduardo Pitta, nos seus Cadernos Italianos (colecção de literatura de viagens da, vénia, Tinta da China, coordenada por, vénia mais pequena uma vez que é benfiquista, Carlos Vaz Marques), chama-lhe “uma escultura da época pré-porno”. Como os pés da Beata estão tapados, prefiro não me pronunciar definitivamente sobre o carácter desta obra.



Atenção: esta escultura não é o "Êxtase de Santa Teresa" nem se encontra na Igreja de Santa Maria della Vittoria




Antes de dar por encerrado este capítulo chamo a vossa atenção para a manha artística de Gian Lorenzo Bernini e recordo-vos que no século XVII não existia electricidade.



Capela Cornaro e o vitral superior: de onde vem a luz amarelada
 que ilumina o divino orgasmo de Teresa de Ávila?




Corte transversal: é por ali que a luz entra




O exterior da Igreja com a janela "falsa" construída por Bernini por baixo do vitral



Observai e aprendei. Até à próxima.


* hesitei entre a Valeria Golino e a Ornella Muti para esta terceira posição mas a visualização em sala do filme Hot Shots com a idade de 14 anos fez pender a balança para a napolitana. Admito, no entanto, que a Ornella Mutti tenha sido prejudicada pelas reduzidas dimensões da minha televisão caseira no período crítico em que, esgaramanteando laustríbias (expressão felicíssima de Alexandre O’Neill), me eduquei sentimentalmente.  

** atenção caro leitor: abrem cedo e fecham tarde mas, em derivado das tradições latinas, poderá dar com o nariz na porta em muitas delas entre o meio-dia e as quatro da tarde.

 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Não, Senna, tu não eras nada de especial



Acho bastante exagerados os elogios a Ayrton Senna que tenho ouvido nos últimos dias a respeito do 20º aniversário da sua morte. É verdade que o piloto brasileiro tinha apenas 4 anos quando guiou pela primeira vez um kart, e que não tinha sequer 10 quando começou a conduzir automóveis a sério, e que iniciou a participação em competições oficiais ainda com 13, e que deu tanto nas vistas na sua primeira temporada na F1 que nem parecia estar a conduzir um carro de terceira categoria, e que eu já estou a utilizar demasiadas vezes o “e que”. Tudo isso podem ser factos mas, com excepção da repetida utilização do “e que”, não vejo nenhum que seja assim tão excepcional. Eu também guiei triciclos aos 4 e bicicletas antes dos 10. E ainda não era maior de idade quando me retiraram as rodinhas. Mas, já se sabe, aos portugueses nunca ninguém atribui os méritos devidos.
Amigos meus, emocionados e melancólicos, realçam a sua perícia extraordinária e a sua personalidade extremamente competitiva, como se nunca me tivessem visto a tirar um fino perfeito e a tentar bebê-lo de golada mais rápido do que toda a gente. Ou então comentam a sua forma física, fruto de milhares de horas de exigentes treinos, subvalorizando notoriamente o peso de uma caneca de cerveja. Dizem-me, com os olhos molhados e a voz embargada, que era um homem com um coração de ouro, emotivo e emocionante, tão humano que não se importou de abdicar de uma primeira posição na grelha de partida para poder prestar assistência a um colega acidentado. “E eu?!”, respondo-lhes um pouco zangado, “que fui buscar uma água com gás ao Tóne, filho da Dona Lurdes, depois de ele se ter vomitado todo à saída da discoteca!” Mas não adianta, parece que isso não conta. O herói é sempre o outro, o herói é sempre o estrangeiro.



GP da Bélgica 1992: correndo para o carro de
Érik Comas para o salvar (tss, que grande coisa)


E continuam a elogiar, sem prestarem atenção aos meus argumentos, dando a entender que o homem, além de acreditar em Deus, era ele próprio um semideus. Afirmam que era amado pelo povo e que retribuía esse amor com obras sociais e com atitudes heroicas, como daquela vez em que pilotou no GP do Brasil com a caixa de velocidades avariada só para conseguir dar aos seus compatriotas a alegria de uma vitória caseira. Mas esquecem-se da deliciosa recompensa que obteve com esse feito: um estado de exaustão física e psicológica tão intenso que não teve forças para sair sozinho do carro no fim da corrida e precisou de ser arrastado para o pódio. Pois é, só se lembram do que ele deu à F1, ninguém quer saber do que a F1 lhe deu.


GP do Brasil 1991: esforçou-se até à exaustão mas
depois teve ajuda para sair do carro (assim até eu)


Como hiperbólicos que são, defendem que a sua coragem era sobre-humana, e entram praticamente em êxtase quando relatam a sua vitória no Estoril em 1985 e a “volta perfeita” que fez no circuito inglês de Donington Park. Ou então suspiram ao relembrar o seu perfeccionismo e permanente insatisfação com o já realizado, forçando os limites mesmo quando a corrida estava completamente controlada e era apenas necessário gerir o 1º lugar. E dizem tudo isto dando a entender que pilotar um carro de fórmula 1 debaixo de chuva com o acelerador a fundo é uma coisa muito difícil! Ou que é necessária alguma virtude rara e especial para não ceder à prudência e ao calculismo.

Não, Senna, tu não eras nada de especial. Os meus amigos é que são uns exagerados.


terça-feira, 29 de abril de 2014

O meu inter-rail; 7º capítulo: “veni, vidi, vidi”



Da última vez que vos dirigi a palavra estávamos na estação de Termini, no centro de Roma. Em bom rigor, estava eu e vocês não. Aliás, em excelente rigor, eu também já não estava. Embora estivesse estado. Avancemos. Eram apenas 7 da manhã mas o sol, deliciado pela revelação de uma cabeça higienicamente desbastada por um pente 2, já empreendia com vigor, qual Miguel Ângelo perante um bloco de mármore de Carrara, a sua labuta sobre a mesma. Troquei dinheiro, tomei um café para acompanhar o panino que sobrara da viagem e passei na bilheteira para ver os horários. Precisava de me deslocar até Brindisi, um importante porto natural do Adriático, situado, em utilizando os inefáveis mapas “tem-a-forma-de”*, no tacão da bota**. Aí trataria de apanhar um barco até à Grécia (de borla, pois estava incluído no passe do inter-rail) e depois seguiria novamente por terra até Istambul. De acordo com as informações que recolhi na bilheteira e respeitando as decisões que tomei após uma longa negociação comigo próprio, tinha 14 horas para fazer o que me apetecesse em Roma, uma cidade onde nunca havia estado. Podia ter optado por lá dormir uma noite, adiando por 24 horas a viagem para sul, mas mantive-me firme, durante a tal longa negociação comigo próprio, na intenção de chegar à Turquia o mais rapidamente possível. 14 horas é um período de tempo que suscita sentimentos divergentes consoante o ponto de vista: para um funcionário público pré-Passos Coelho corresponde a dois dias inteiros na repartição, um verdadeiro suplício de Tântalo; para um recém-chegado a uma cidade grande, famosa e nunca antes visitada, representa um dilema de grandes proporções que consiste em optar por uma postura de viajante ou de turista, diferença que não parece relevante aos olhos do comum dos mortais mas que assume um carácter de vida ou morte quando analisada por escritores, artistas, intelectuais e outros vaidosos em geral. A quantidade de tinta e de saliva que já se gastou nesta “magna” polémica dava para encher as catacumbas romanas depois de salutarmente lá enfiar todos aqueles que a alimentam, eu inclusive. Analisemos a argumentação mais corrente…

“O turista vê e o viajante vive” é um dos chavões mais utilizados por todos aqueles que se julgam viajantes a sério. No entanto, algumas pessoas levam a questão mais a peito e não poupam nas munições. Como por exemplo o realizador Werner Herzog, que afirma sem contemplações: “o turismo é um pecado mortal”. Ou então a famosa escritora de viagens irlandesa Dervla Murphy que, antes de partir, estuda atentamente os guias de viagem por forma a conseguir evitar totalmente todas as zonas frequentadas por turistas (em Roma tinha de se meter no sistema de esgotos! E no actual uma vez que no sistema antigo, a Cloaca Maxima construída pelos Reis Tarquínios***, andam certamente japoneses a tirar fotografias). No nosso país, e analisando a obra do Miguel Sousa Tavares, um gajo que viaja, podemos encontrar este texto ilustrativo da posição da intelectualidade sobre o assunto:

“Uma das pessoas que me ensinou a viajar foi a minha mãe. Ensinou-mo com uma simples frase. A única vez que viajámos juntos, fomos a Roma. Estávamos sentados uma tarde na Piazza Navona, o seu local preferido de Roma. Ela bebia um dos seus inúmeros chás diários e há mais de uma hora que ali estávamos, sentados a contemplar a beleza perfeita da praça (…)  Mas estávamos ali há demasiado tempo, era a primeira vez que vinha a Roma e tinha, logicamente, alguma pressa de seguir caminho e ir ver outras coisas. Sentindo a minha impaciência, a minha mãe disse-me: "Miguel, viajar é olhar." Até hoje, fiquei sempre cativo desta frase e do que ela implica e compromete o verdadeiro viajante.”

Ou seja, o filho Miguel, ainda turista desejoso de ver o que nunca tinha visto, é moldado in loco pela mãe Sophia, já viajante desejosa de viver os locais por onde passa. Entre andar 150 metros e visitar gratuitamente os Caravaggios da Igreja de São Luís dos Franceses, andar 200 metros e admirar sem custos o fresco do Profeta Isaías pintado por Rafael na Basílica de Santo Agostinho, andar 250 metros e ouvir de borla um concerto de órgão na Igreja de Santo António dos Portugueses, e permanecer imóvel numa esplanada da Navona a beber chás a 10 euros a chávena, Sophia opta pelos chás a 10 euros a chávena. E ensina o filho a fazer o mesmo. E quanto a mim, Aníbal Éter. O que é que a minha mãe me transmitiu sobre viagens, além de me ter ensinado a fugir a sete pés de todos os locais que vendam chá a mais do que, digamos, 3 euros a chávena? Regressemos a Termini: naquele momento em que o sol romano aplicava o maço e o cinzel na minha cabeça, fui forçado, pela segunda vez na vida, a escolher uma postura. Uns anos antes, na primeira vez que saí do país sem ser para ir a Vigo, vi-me em Paris no contexto de uma paragem técnica obrigatória para descanso do motorista a meio de uma viagem de autocarro Porto-Hamburgo. Ciente da vastidão da cidade, fui largado perto da Notre-Dame às nove da manhã com a indicação de estar na Place de la Concorde às seis da tarde para se retomar a viagem. Pensais vós que me sentei num café de Saint-Germain-des-Prés a ler o Le Monde com um cigarro sem filtro no canto da boca? É que nem trinta Sophias conseguiriam segurar-me perante a possibilidade de ver ao vivo, de uma forma rápida, atabalhoada e totalmente parola, tudo aquilo que os meus olhos tinham, durante anos, assimilado em fotografias. Comecei na Île de la Cité (onde o belo Filipe IV se aqueceu com uma fogueira alimentada com o último Grão-Mestre dos Templários; dizem que o Rei devia muito dinheiro aos Templários e que resolveu assim a questão, um pouco como se o Passos Coelho enfiasse a Christine Lagarde numa das lareiras de São Bento), passei pelo Hôtel de Ville e pelo Centro Pompidou (à semelhança de algumas pessoas, é muito mais bonito visto por trás do que pela frente), meti-me pela Rua de Rivoli até ao Louvre (onde naturalmente não entrei), fui ver a Ópera Garnier (por fora, claro, que ouvir líricos ocupa muito tempo), caminhei por uma das grandes boulevards até à Igreja de la Madeleine, sentei-me a descansar na Concorde (não resisti a tirar uma foto típica, parecida com esta, que confunde pela perspectiva as alturas do candeeiro, do Obelisco de Luxor e da Torre Eiffel; meu Deus, sou um turista tão ridiculamente previsível que quase fico envergonhado),




percorri os Campos Elísios de ponta a ponta, subi ao topo do Arco do Triunfo para aproveitar uma das melhores vistas de Paris (clichés atrás de clichés, a Sophia teria de fumar o dobro dos cigarros para me conseguir aturar), avancei até ao Trocadéro onde absorvi, à maneira de Hitler em 1940, a engenharia da Torre Eiffel, segui para os Invalides, atravessei a famosa Ponte Alexandre III, seguida do Petit e do Grand Palais e, finalmente, sentei-me no Jardim das Tulherias à espera do autocarro, com as pernas desfeitas e a alma cheia.



Trocadéro, 1940


Vi muito e “vivi” pouco. Fui superficial e absorvi apenas alguns dos pormenores de tamanha beleza. Não entrei sequer em nenhum meio de transporte, uma boa maneira de conhecer as características da população de uma cidade mas não a cidade em si. Poderia ter sido de outra forma? Não. Entretanto já fui mais vezes a Paris e a postura foi diferente, dando lugar a visitas demoradas a museus, lojas e livrarias, passeios a pé em registo de flâneur e alívio do prurido da micose em esplanadas variadas. Mas não é natural que uma pessoa, principalmente se for curiosa, consiga ser viajante antes de ter sido turista e que se sinta feliz a “viver” descontraidamente um local sem ter visto apressadamente todos os outros que se encontram nas redondezas.
Toda esta conversa, como já devem ter percebido, serve apenas para introduzir  a descrição do meu primeiro (e durante alguns anos, único) dia em Roma, em que vi tanta coisa que vocês vão pensar que eu sou um mentiroso do caralho, quando, na verdade, sou do caralho mas sem ser mentiroso. Foi um autêntico veni, vidi, vidi. E, para concluir, vidi! Mas o relato fica para a próxima…

(continua)

  

* existem mapas políticos, mapas físicos e mapas “tem-a-forma-de”

** se a Itália é uma bota, a Suécia é uma pila, a Finlândia é o escroto da Suécia e a Dinamarca é a gotinha de xixi que cai invariavelmente no fim da micção.



Não me perguntem o que é a Noruega uma vez que não sei;
espero sinceramente que não seja nenhuma doença



*** uma dinastia de Reis etruscos


quarta-feira, 23 de abril de 2014

δημοκρατία


Sólon Júnior, Clístenes Júnior e Péricles Júnior comemorando o 2520º aniversário da Democracia Grega



Francisco Assis dedicou a sua crónica no Público à análise das capacidades intelectuais de Pedro Lomba, “um pequeno apparatchik ligeiramente alfabetizado” e de Bruno Maçães, “um robot tecnocrático que escreve tweets patetas num inglês próprio de quem nunca leu Shakespeare”.

Compreendo bem as críticas de Assis a estes dois secretários de Estado e tomo como minhas as suas considerações. Não é à toa que o deputado socialista, à semelhança dos restantes militantes do PS, alerta sistematicamente para a falta de qualidade das escolas estatais e para a necessidade de reformar e liberalizar o sistema de ensino do país. Pedro Lomba é licenciado, mestre e doutorando pela Faculdade de Direito de Lisboa, escola pública onde também foi professor assistente. Não é pois motivo de espanto que deixe muito a desejar em termos de alfabetização. Já quanto ao qualificativo de apparatchik, é evidente que um homem como Francisco Assis não pode pactuar com boys que não conhecem a vida exterior às paredes das concelhias partidárias. Recorde-se que entre a conclusão do seu curso de Filosofia e o início, aos 24 anos de idade, do seu mandato como Presidente da Câmara Municipal de Amarante, decorreram dezenas de semanas, talvez até centenas de dias, em que Francisco Assis laboriosamente construiu uma carreira profissional de sucesso longe dos meandros do aparelhismo. E todos os cargos posteriores que desempenhou, de Deputado à Assembleia da República pelo Distrito do Porto a Deputado à Assembleia da República pelo Distrito da Guarda, passando pelos mandatos de deputado ao Parlamento Europeu e de Vereador da Câmara Municipal do Porto, foram conquistados com base nos saberes que adquiriu nesse longo período de não submissão às dependências ideológico-partidárias. Com um curriculum destes é normal que tenha pouca paciência para os profissionais da política.  

Em relação a Bruno Maçães, que ainda por cima “foi a Atenas dar lições a um povo que já conhece a democracia há mais de 2000 anos”, compreendo ainda melhor a justiça das críticas. Em primeiro lugar não nos podemos esquecer do papel de Francisco Assis como líder parlamentar do Partido Socialista entre 2009 e 2011. Como poderia um homem habituado a conviver de perto com o poliglota José Sócrates não ficar horrorizado com o inglês que o secretário de Estado Maçães trouxe do seu doutoramento em Harvard? Anos e anos a ouvir discursos num inglês e num espanhol próprios de quem leu várias vezes todos os textos de Shakespeare e de Cervantes só poderiam ter como resultado esta tremenda sensibilidade à precisão linguística. Além disso, para um licenciado em Filosofia como é o deputado Assis, é de todo incompreensível que se dirijam quaisquer tipo de considerações ao povo helénico. Como é possível que Bruno Maçães se atreva a tal? Julgará ele que os gregos andaram a inventar a Democracia para se sujeitarem a ouvir coisas com as quais não concordam? Por este caminho chegará o dia em que, discursando no Reino Unido, alertará os compatriotas de Newton para a necessidade de se conformarem com as leis da gravidade!
Péricles, o grande estadista da Grécia Clássica, célebre pela sua serenidade e controlo das emoções, e verdadeiro símbolo do período áureo ateniense, descreveu em poucas palavras o carácter ético e democrático do seu regime: “um Estado administrado no interesse do povo e não no interesse de uma minoria”. Qualquer pessoa que não seja um robot tecnocrático percebe, pela simples visualização dos noticiários, que o povo grego sente que é assim governado, de modo contínuo e constante, há mais de 2000 anos. Aliás, bastaria a Bruno Maçães observar a serenidade que se vive na Praça Sintagma ou o controlo das emoções presente nos derbys entre o Olympiacos e o Panathinaikos, para perceber que vive um Péricles na cabeça de cada grego. E por vezes, quando o grego se encontra com a cabeça rachada a meio, podem até viver dois.   


quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Salário Mínimo



Num inesperado movimento contraditório, um ano depois de ter caracterizado a medida como demagógica, Pedro Passos Coelho mostra agora abertura para aumentar o salário mínimo nacional. A satisfação que sinto com esta notícia prende-se essencialmente com dois motivos. Em primeiro lugar contribui para a humanização da Política e de todos os seus agentes. Habituados ao firme rigor e coerência da classe dirigente, os portugueses habituaram-se a ver os políticos como um grupo isolado, afastado e de diferentes características. Um grupo que é formado por “eles” e que se opõe ao grupo que é formado por “nós”. Ao mostrar que também é vulnerável ao erro, à contradição e à duplicidade da palavra dada, o Primeiro-Ministro mostra que os governantes são humanos e igualmente susceptíveis aos defeitos da portugalidade. São boas notícias para a democracia representativa.

Por outro lado, o aumento do salário mínimo na conjuntura actual parece-me uma excelente medida que só peca por tardia. Estando Portugal com uma taxa de desemprego de 16%, um número bastante difícil de decorar, não se compreendia que o Governo não estivesse a fazer todos os possíveis para tentar aumentá-la para 20%, um número redondo e de fácil memorização.
Ainda por cima, como muito bem diz Nicolau Santos no Expresso, patrões que não conseguem pagar um salário mínimo de 500 euros deviam ter vergonha. E, acrescento eu, melhor seria que fechassem de vez as portas das suas empresas, uma vez que Portugal não precisa delas para nada. A D. Alice, costureira com a 4ª classe nas Confecções Arnaldo Bracarense Lda., dispensa bem o empreendedorismo de vão de escada do Sr. Arnaldo. Se ele tiver de fechar a porta por causa do aumento do salário mínimo, ela pode ir trabalhar como investigadora no Laboratório Ibérico de Nanotecnologia. Que por acaso também fica em Braga. Não há qualquer razão para o país se sujeitar aos caprichos e à ignorância saloia deste tipo de empresários.
E quem é que pensa que é o Sr. Bernardino, de Sernancelhe, para se atrever a dizer que preferia trabalhar por 400 euros na única fábrica do Concelho, a estar em casa sem ganhar nenhum? Cuidará ele que lá por estar desempregado e ter já perdido todos os apoios sociais tem direito à liberdade de escolha?
Pobre Sr. Bernardino, não fossem as sábias cabeças das nossas elites, e arriscava-se a uma vida inteira de miséria e de exploração.  



PS - não posso deixar de referir a desilusão que senti quando ouvi as palavras do Bloco de Esquerda, exigindo um aumento do SMN para os 545 euros. Caro João Semedo, isto é valor que se apresente?! Gostava de saber se o senhor deputado conseguia viver dignamente com 545 euros mensais. Tenho quase a certeza que não. É por esta desvalorização permanente do valor do trabalho que Portugal não consegue alcançar a prosperidade que merece. Shame on you!