segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Bernardino, avança, com toda a confiança!



Camarada Bernardino, ouvi dizer que estás com dificuldades em pagar as dívidas da tua Câmara e que por isso vais levar a cabo uma auditoria. Peço-te encarecidamente que não o faças. Se achas demasiado complicado respeitar os compromissos assumidos, segue os conselhos que nos últimos anos tantas vezes deste ao Governo: não pagues! Se os conselhos só são válidos para os outros e não para ti, paga, mas não faças a auditoria. As auditorias verificam contas, despesas e receitas. São uma actividade fascista, incompatível com o lema “as pessoas não são números!” de que tu tanto gostas. Além disso, a palavra “Auditores” faz lembrar um conjunto de endinheirados doutores sentados ao volante de potentes Audis. Não vás por aí. Se precisas de ajuda nas tuas análises pede a colaboração a Daciaperários, Tataperários ou, na pior das hipóteses, Fiatperários. Nunca te esqueças, camarada: apesar de seres Presidente, a luta continua!

Um abraço fraterno do Aníbal.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A reforma do Estado – 2ª parte


“Pescada de rabo na boca” de Pedro Vieira


Mantendo o rigor que estas reflexões exigem, considero adequado referir que todo este duríssimo empreendimento de reformar o Estado tem seguido o método científico característico da III República: a pescadinha. Munidos do talher de peixe, dissequemos a dita cuja. Cuidado que tem espinhas!

O PCP e o BE acusam o Bloco Central de utilizar o Estado para empregar boys e para promover a promiscuidade entre dinheiros públicos e privados. Todos sabemos que estes partidos da verdadeira esquerda se colocaram historicamente na vanguarda do proletariado e que contam nas suas fileiras com uma grande parte dos intelectuais portugueses. Além disso, passam a vida a tentar morder os calcanhares dos governos e para morder são precisos dentes. Representam por isso a cabeça do animal escamoso, o ponto onde a força das mandíbulas se alia à força da massa cinzenta. E qual é a solução dos inteligentes cabeçudos para resolver este saque descarado ao Orçamento da lusa pátria? O desenvolvimento de um Estado maior, mais poderoso, mais interventivo e mais fiscalizador.

O PS e o PSD aproveitam essa sugestão, criam uns organismos adicionais para intervir e fiscalizar e, naturalmente, arranjam umas pessoas para lá trabalharem. No início pensam em recrutar opositores para esses cargos mas entretanto o despertador toca, acordam, e resolvem recrutar apoiantes que conheçam. É uma característica deveras estranha esta de gostarmos de nos rodear de pessoas de confiança e não de inimigos de estimação. É mesmo surpreendente, vá-se lá perceber a cabeça do ser humano! Agora essas pessoas entretanto recrutadas já podem aproveitar para fazer uns negócios com os amigos e misturar o dinheiro público com o privado. Estes dois partidos do nosso centro político constituem o rabo do nosso peixe e, como é natural num rabo, estão sempre desejosos de se sentarem. Se é num conselho de administração de uma grande empresa pública ou numa mesa de reuniões de um grande banco privado, pouca diferença faz.

Com a criação destes novos organismos, o PCP e o BE já têm novas críticas para fazer aos mais recentes boys e aos negócios por eles desenvolvidos. Estão reunidas as condições para exigirem mais Estado para resolver o problema.
E o CDS, pergunta o atento leitor. O CDS varia, meu caro amigo. Se está na oposição, coloca-se à cabeça do peixe e morde os tachistas com vigor. Se está no Governo, coloca-se à cauda e senta-se nas confortáveis cadeiras do anafado Estado.

“Quem guardará os guardas?”, questionava com angústia Juvenal. “Mais guardas”, responde a nossa III República. “E assim sucessivamente”, completaria o saudoso João César Monteiro, antes de mandar meio mundo para o caralho.
Fica uma sugestão para matar a pescadinha: que a Troika se transforme em partido político e que em disputa com os nossos concorra às próximas eleições legislativas. Resolve-se o problema democrático e quando se contarem as cruzinhas talvez se descubra que não são essas três organizações estrangeiras que o povo português anseia desesperadamente enxotar daqui para fora.   

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ben Sira


“Toda a gente subestima a inteligência política de António José Seguro. Nunca percebi porquê. O homem vê mais longe com os olhos fechados do que os seus críticos com eles abertos. Bastou ouvi-lo na entrevista à TVI: o PS não vai exigir eleições antecipadas se o governo pedir um “programa cautelar”? Claro que não. Para começar, e até chegarmos a ele, há cortes para fazer – 3900 milhões – e um défice de 4% para respeitar em 2014. Depois, quando a “troika” partir e a Europa arranjar essa muleta para irmos aos mercados, serão mais 1700 milhões de cortes para um défice de 2,5% em 2015.

Por outras palavras: a legislatura presente será feita sob o signo da tosquia. Neste horripilante cenário, pedir eleições antecipadas é pedir para ser antecipadamente enfiado no espeto.
Seguro não tem vocação de mártir. Até 2015, a estratégia de Seguro é simples: deixar que o trabalho sujo seja feito por este governo. Depois, e só depois, o PS estará pronto para “assumir as suas responsabilidades.” Se isto revela falta de inteligência, eu gostaria de conhecer os inteligentes.”

João Pereira Coutinho – Correio da Manhã


João Pereira Coutinho defende que António José Seguro, ao adiar os seus desejos governativos para 2015, revela mais inteligência do que os seus críticos. Por questões religiosas, quando ouço a palavra “inteligência” sinto um dever moral de participar no debate. O Antigo Testamento transmite-nos que “quando um homem inteligente ouve uma palavra sábia, aprecia-a e acrescenta-lhe algo de seu”. Apesar de estar com pouco tempo não devo fugir a esta obrigação. Aqui vai:

Seguro não só tem mais inteligência do que os seus críticos, como tem também mais inteligência do que aquela que João Pereira Coutinho lhe atribui. As promessas actuais do líder socialista implicam o fim da tosquia e a reposição de algum do pêlo entretanto cortado ao rebanho. A primeira premissa não acontecerá em 2015 e a segunda não acontecerá antes de Seguro estar tão gagá como Mário Soares. Por saber disso, o homem do “qual é a pressa?” arranjará maneira de não ter de assumir nunca o lugar de pastor.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A reforma do Estado – 1ª parte



O Governo mais liberal de sempre vai dar à luz um novo organismo público para regular o mercado dos combustíveis. Nada a obstar. É evidente que nenhum dos 13 740* organismos já existentes na órbita do Orçamento de Estado poderia levar a cabo essa tarefa, dada a sua transcendente especificidade. Comparar o preço da gasolina da Galp com o preço da gasolina da Repsol não é igual a comparar o preço do atum do Pingo Doce com o preço do atum do Continente. Toda a gente que já observou os painéis dos preços dos combustíveis nas auto-estradas sabe que apenas profissionais altamente qualificados e dotados de olhos de águia conseguem discernir as diferenças que, evidentemente, devem existir.         

Além do mais, em prol do equilíbrio do mundo, são necessários decisores políticos originais na Europa que sirvam de contraponto aos outros decisores políticos igualmente originais que existem nos outros continentes. Se um dos Governos mais socialistas do mundo, o Cubano, tem vindo a despedir milhares de funcionários públicos nos últimos anos, é de todo necessário, para o yin-yang do Planeta, que um dos Governos mais liberais do mundo, o Português, se dedique a criar novos organismos públicos para acrescentar aos já existentes.

Os fenómenos aparentemente paradoxais devem existir em todas as áreas do conhecimento. Dado que as ciências mais exactas, como a matemática, e as menos exactas, como a linguística, têm direito a tal prerrogativa, seria altamente discriminatório que as totalmente inexactas, como a política, ficassem de fora. Se “tudo junto” se escreve separado e “separado” se escreve tudo junto, por que razão a reforma liberal do Estado não pode significar um aumento do mesmo? Também reformei o meu T2 no ano passado e, com a ajuda de placas de pladur, agora tenho um T3. E a reforma foi levada a cabo num contexto de total liberalismo uma vez que utilizei essa divisão adicional para guardar livros do Adam Smith. Qual é então o problema de usar um pouco de pladur no Estado, obtendo desta forma mais umas quantas divisões? Se forem posteriormente ocupadas por discípulos de Milton Friedman, não existe qualquer contradição. Más línguas, é o que é…

(to be continued)

* parece um número inventado, não? Amigos, o Aníbal não inventa, este número é real.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Querido diário


Quando alguma obra pública nasce.
Nasce selvagem.
Não é
de ninguém



Querido diário,

Resolvi construir uma casa para a minha família. Sabia que era um investimento grande mas a vida é feita destas decisões ambiciosas e devemos deixar património aos nossos herdeiros. Vem na Bíblia, ou, se não vem, devia vir. Entreguei os projectos a um empreiteiro e ele deu-me um orçamento de 200 mil euros. Não percebia muito de construção mas fiquei sossegado com o que ouvi: “é chave na mão, Sr. Aníbal, não precisa de se preocupar com nada.” Acatei o conselho; não me preocupei com nada. A vida é curta e tenho outras coisas em que pensar. Algum tempo depois apareceu-me à porta a pedir 150 mil euros adicionais para concluir a obra. Pelo que me disse tinha aparecido água no subsolo e isso não estava previsto nos projectos. Aceitei, claro! Coitado do homem, não podia ficar com o prejuízo. Não devemos prejudicar os outros para salvaguardar o nosso dinheiro. Vem na Bíblia, ou, se não vem, devia vir.

Passaram uns meses, a casa ficou pronta, e mudei-me. Achei estranho que uma parte do soalho estivesse levantado e uma das paredes completamente torta mas o construtor disse-me que era como estava no projecto: “agora usa-se assim, Sr. Aníbal, é uma nova tendência. Nunca foi à Casa da Música?” Não disse mais nada. Apesar dos meses que durou a obra, continuava a não perceber nada de construção e, na verdade, nunca tinha olhado com atenção para os projectos nem sequer acompanhado a obra. É preciso confiar nos profissionais e deixá-los fazer o seu trabalho. Vem na Bíblia, ou, se não vem, devia vir. O problema foram as semanas seguintes! Chão totalmente levantado, infiltrações no tecto, paredes rachadas, portas mais descaídas do que as mamas da Ti Micas da mercearia, soleiras partidas. Achei suspeito e lembrei-me que tinha contratado um fiscal no início da obra. Era obrigatório por lei, tinha-lhe pago, mas nunca mais o tinha visto. Resolvi procurá-lo para saber o que pensava do assunto. E foi aí que apanhei um choque! “Oh Sr. Aníbal”, disse-me o homem, “estava a ver que nunca mais me dizia nada. Ando há meses a tentar falar consigo, já lhe enviei cartas, mails, e nada! O senhor foi burlado indecentemente, a obra não foi feita de acordo com os projectos. Os materiais que colocaram são de 4ª categoria e foi tudo feito à pressa e sem engenho. Digo-lhe do coração, nas favelas do Rio de Janeiro há construções melhores, até no ferro e no cimento o roubaram.” Fiquei sem palavras durante uns minutos. Quando regressei a mim, perguntei-lhe acerca da água no subsolo e do custo adicional. “Mas qual água?!”, respondeu-me ele, “aquele terreno é seco como um pão de 3 dias, já lhe disse que foi enganado. Eu avisei-o disso tudo nos relatórios que lhe enviei. Nunca me respondeu, nunca atendeu os meus telefonemas. Porquê, Sr. Aníbal? Porquê?! A casa era para si, não estava interessado numa coisa bem feita? O senhor é rico? Não tem respeito pelo seu dinheiro? Não lhe custa a ganhar?”  

Querido diário, é altura de fazer uma confissão. Isto que acabo de contar não aconteceu comigo, aconteceu no Hospital Pediátrico de Coimbra. E os valores em causa foram bastante maiores, na ordem das dezenas de milhões de euros. Com a saúde não se brinca e não se olha a gastos. Vem na Bíblia, ou, se não vem, devia vir. Sabes, na verdade eu também construí uma casa. Para mim e com o meu dinheiro. Mas andei sempre em cima do empreiteiro e do fiscal e ficou tudo mais ou menos direito. Claro, gastei 4 ou 5% a mais em extras e fiquei com 2 ou 3 rachadelas nas paredes, uma situação normal  que já foi resolvida. E se me perguntares quem são os culpados em Coimbra, querido diário, acho que não te sei responder. O fiscal foi honesto mas ninguém lhe ligou; o empreiteiro foi aldrabão e conseguiu aumentar os lucros, uma atitude bastante comum na espécie humana; e o dono da obra, o Estado, não tem rosto. É verdade que é representado por homens mas estes não se sentem donos do que representam. Por isso não se aplicam a 100% e desleixam-se um bocado no controlo. E no meio dos Despachos, das Portarias e dos Decretos, às vezes perde-se o fio à meada. Achas que são culpados? Porquê? Eu não acho, são humanos e os humanos são assim. Movem-se por incentivos e caem facilmente na preguiça, esse maravilhoso pecado mortal. E cuidam sempre melhor dos seus filhos do que dos filhos dos outros. No fundo, a culpa é da natureza humana e nesse caso podemos encontrar a explicação no Mendel, ou no Freud, ou no Darwin, ou em Deus, ou em todos eles em conjunto. Achas que a natureza humana vai mudar, querido diário? Pois, eu acho que não. Talvez seja mais fácil e mais proveitoso tentar mudar o sistema. Vem na Bíblia, ou, se não vem, devia vir.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Hegel e os Negócios Estrangeiros






Tese – a subserviência de Machete perante Angola
Antítese – a altivez de Portas em território chinês
Síntese desejada – um futuro comportamento normal de um ministro perante, digamos, o Yemen


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

"A crise" em diálogo platónico


- Ângela, estamos com um problema, isto assim não vai lá.

- O que significa “estamos”, Pedro? Eu e você?

- Não, Ângela, estava a referir-me a Portugal. Mas já que fala nisso, a verdade é que me parece que pode ser um problema para toda a zona euro. É como a história do barco que vai ao fundo e se lixam todos.

- Todos, todos? Até o Capitão Schettino? Estou a brincar, caro amigo, conte lá o que o atormenta.

- O ajustamento económico é impossível! Estávamos com enormes défices públicos e com enormes défices das contas correntes, por isso fui obrigado pela troika a atacar tudo ao mesmo tempo. Carreguei nos impostos e cortei na despesa. Como era esperado o consumo interno retraiu-se, diminuindo as importações, e quem conseguiu começou a vender para fora, aumentando as exportações…

- Mas isso são excelentes notícias! Os vossos maiores problemas estavam relacionados com os desequilíbrios externos e o objectivo da austeridade era exactamente resolver essa hemorragia. Portugal produzia 100 e consumia 110, por isso é que se desenhou um programa de ajustamento. Pelo que ouço está a resultar em cheio.      

- Sim, até aqui tudo bem, a balança comercial melhorou e as necessidades de financiamento do estrangeiro diminuíram. O problema é que o sector exportador é pequeno, estas transformações estruturais da economia levam tempo e, enquanto se vai dando a metamorfose, o desemprego explode, dando cabo da harmonia interna e das contas da Segurança Social.

- Pois, isso não é novidade para mim, toda a gente sabe que atacar o défice público e o défice da conta corrente ao mesmo tempo, ainda por cima sem poder desvalorizar a moeda, é extremamente doloroso. É como a história da manta curta, para se poder cobrir a cabeça tem de se descobrir os pés. Mas, como sabe, não há alternativa para corrigir as muitas asneiras que foram sendo feitas. O ideal era vocês conseguirem baixar os salários para ganharem competitividade. Assim já vendiam mais para fora, diminuíam o desemprego e a economia ajustava mais rápido. E também era importante reformarem o Estado para libertarem recursos para o sector privado, aquele sector que produz coisas que se podem vender.

- Isso não dá para fazer, por isso é que digo que o ajustamento é impossível. O Ricardo Araújo Pereira até lhe chama “injustamento” pois ajusta pouco e injustiça muito.

- Ehehe, engraçado esse jovem, já vi uns vídeos dele no youtube. Não percebo nada de português mas as caretas que ele faz chegam para me provocar umas gargalhadas. Repare, Pedro, se o ajustamento se transformou num injustamente a culpa não é minha. A responsabilidade de dividir o mal pelas aldeias é vossa.  

- É difícil, cada um puxa a brasa à sua sardinha e não dá para discutir racionalmente. O ambiente está tão tenso que já andam todos a distribuir insultos. O ex-Presidente quer levar o Presidente a Tribunal, o Catroga quer fazer o mesmo ao ex-Primeiro-Ministro e este anda prestes a bater em alguém.

- Já ouvi dizer, o Schäuble contou-me. Divertida, aquela entrevista…

- Falo a sério! A Constituição não deixa mexer nos direitos adquiridos e toda a gente quer cortes na despesa pública desde que sejam feitos no vizinho do lado. Resumindo, precisamos de outra solução. Estava a pensar nas eurobonds, aproveitando os vossos juros mais baixos, ou num perdão de dívida, ou num “Plano Marshall” que dirigisse investimentos dos países do norte para os países do sul. Sei lá, qualquer coisa que nos desse ar para respirar.

- Repare, Pedro, tudo isso é muito bonito mas implica transferências de dinheiro da Alemanha. E mesmo que eu estivesse a favor, o meu povo está contra e o dinheiro da Alemanha é dos alemães, não é meu. E mesmo que os alemães estivessem a favor, outros povos da Europa estariam contra. E não sei se sabe mas nós também temos um Tribunal Constitucional com mau feitio. E também temos problemas sociais. E também temos pobres. E também…

- Mas Ângela, isto não se aguenta, vocês podiam pelo menos permitir que tivéssemos um défice maior. Isso dava-nos uma certa margem para não esmagarmos a economia.

- Pedro, um défice maior significa uma dívida maior, e uma dívida maior obriga a mais empréstimos. Os mercados não vos querem emprestar mais dinheiro e, como eu acabo de lhe dizer, os contribuintes alemães também não. Sabe, vocês acusam-nos de querermos liderar a Europa mas a verdade é outra. Os países do sul é que queriam que nós liderássemos, e pagássemos, a Europa! E nós não estamos para aí virados.

- Mas o ambiente está terrível e muitas figuras públicas apelam à revolta. As pessoas não aguentam mais e qualquer dia começam a partir coisas e a aderir a partidos extremistas.

- Como fizeram os gregos? Parece-me uma boa ideia. Pelo menos no caso dos gregos deu bom resultado como toda a gente sabe.   

- Que cinismo! Está a colocar-me entre a espada e a parede. Assim vou ser obrigado a tomar medidas drásticas, talvez até dar um grande calote e não pagar dívidas nenhumas. E isso seria a desgraça de toda a zona euro.

- Não era bom para ninguém mas vocês eram os primeiros a sofrer e aqueles que sofreriam mais. Ficavam sem financiamento externo e tinham de abandonar o euro. Se o Pedro acha que isto está muito austero, experimente sair do euro para ver o que é um “injustamento” a sério.

- Não é verdade. Quando pedimos o resgate até podia ser como diz, mas agora, se não pagarmos os empréstimos e os juros, as nossas receitas já dão para todas as outras despesas. Podemos dar um calote e arriscar perder o crédito, pois o que cobramos em impostos dá para pagar os salários e pensões. Tudo isto sem sair do euro e tudo isto provocando uma grande confusão nos países ricos do norte.

- Já percebi, vocês vão dar um tiro na cabeça e rezar para que o ricochete da bala provoque ferimentos em terceiros. Deixe-me fazer-lhe umas perguntas: ainda não percebeu que uma grande parte da dívida está nos vossos bancos e na vossa Segurança Social? Independentemente disso, acha mesmo que pode dar um calote a estrangeiros, gerir o orçamento de estado com base nas receitas próprias e manter-se no euro como se nada fosse? Acha que o financiamento externo se destina apenas ao Estado? Ainda não percebeu que as empresas portuguesas, e famílias, e bancos, também vivem de crédito estrangeiro? Não entende que se não pagar as dívidas ninguém vos empresta nem mais um tostão e a economia do país estoura toda ao mesmo tempo?

- Mas toda a gente diz que a nossa dívida é impagável e que vamos precisar de um perdão.

- E é verdade, a vossa dívida é impagável e vão precisar de um perdão. Mas vai ser um processo organizado e conduzido por nós e só vai acontecer quando vocês puserem a casa em ordem, reformando o Estado e consumindo menos. No fundo, depois de levarem uma lição.

- Mas isso é inaceitável, Portugal é um país soberano e não pode aceitar essa humilhação das lições. Olhe que nós podemos preferir a máxima do Che e arriscar morrer de pé em vez de passarmos uma dúzia de anos de joelhos.

- Isso é mais do que Che! Eu diria que é o dobro de Che, mais concretamente, ché-ché! Mas tem razão, claro que podem fazer isso. Aguardo com expectativa o dia em que o Pedro ou o TóZé obtenham a coragem necessária para o hara-kiri 

- Isso é bluff seu, pode não ser um suicídio. Se eu assumir uma posição de força até é provável que a Europa flexibilize as exigências. Ninguém tem a certeza se é pior para nós dar um murro na mesa a sério ou continuar nesta morte lenta.

- Pois não, tem razão. Olhe, Pedro, não sei mais que lhe diga. Arrisque, homem! Arrisque…


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Breves notas sobre a crise e sobre o orçamento de estado (5)



“As pessoas são mais importantes do que os números”, diz o idealista de esquerda enquanto tenta calçar um sapato 37 no seu pé 43.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Breves notas sobre a crise e sobre o orçamento de estado (4)



Alguns dos críticos deste governo dizem que não se podem gerir as contas do Estado da mesma forma que se gerem as contas de uma família. Estimados críticos, vocês estão enganados. A única diferença entre uma família e um Estado sem moeda própria é que numa família sem dinheiro ainda pode subsistir o amor.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Breves notas sobre a crise e sobre o orçamento de estado (3)


O Pedro tem 2 casas mas o patrão reduziu-lhe bastante o salário nos últimos tempos. Por isso, com vista a diminuir as suas despesas, resolveu cortar a internet na casa de praia e o telefone na casa da cidade. O Ângelo, amigo do Pedro, já lhe disse que aquele caminho não tem jeito nenhum, que assim vai acabar por ficar com 2 casas inabitáveis e que era muito melhor vender uma delas e concentrar os recursos na outra. O Pedro, confrontado com a sugestão, justificou-se. Pelos vistos o Paulo, um outro amigo do Pedro, especialista do mercado imobiliário, ficou de avaliar a situação para lhe dizer se seria melhor vender a casa de praia ou a da cidade. O problema é que nunca mais lhe disse nada e por isso ele teve de ir poupando algum sem mais demora! Além disso, parece que existem uns problemas legais relacionados com as casas e o Joaquim, um vizinho da cidade que percebe bastante de leis, já o avisou que não é certo que os tribunais o deixem vender o que quer que seja. A situação está confusa e o Pedro já está a pensar em novas soluções. A casa de praia é perto do mar, talvez mande cortar a água. E a da cidade é virada a sul e soalheira, talvez mande cortar o gás.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Breves notas sobre a crise e sobre o orçamento de estado (2)


Ponto 1 – o Estado faliu
Ponto 2 – o Passos Coelho aldrabou na campanha eleitoral
Ponto 3 – o Ponto 2 não altera o Ponto 1

Breves notas sobre a crise e sobre o orçamento de estado (1)


Em primeiro lugar vou contar-vos um segredo: o Estado faliu. Mas é normal que ainda não se tenham apercebido uma vez que isso aconteceu há apenas 4 anos.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

E não sobrou um tostão furado



O Deputado João Galamba esboçou uma adaptação do célebre poema que muitos atribuem ao Brecht mas que afinal não é do Brecht.
Como este exercício tem sido repetido por muita gente nos últimos tempos resolvi contribuir para a discussão, deitando a minha acha na fogueira que muitos dizem ter sido acesa pelo Brecht mas que afinal não foi acesa pelo Brecht.



E não sobrou um tostão furado

Primeiro lançaram o novo sistema retributivo da função pública
e eu não disse nada porque conheço muitos funcionários públicos e acho que são boas pessoas

Depois construíram um Estado grande e omnipresente
e eu não disse nada porque tenho preocupações socias e não gosto de ver ninguém desamparado

Depois enfiaram o país numa moeda controlada por estrangeiros
e eu não disse nada porque dizem que os estrangeiros são mais inteligentes do que nós

Depois construíram SCUTS
e eu não disse nada porque aprecio coisas de borla

Depois fizeram estádios
e eu não disse nada porque gosto muito de futebol

Depois plantaram ventoinhas gigantes pelo país
e eu não disse nada porque sou amigo do ambiente

Então vieram-me ao bolso com violência
e nessa altura fiquei pior do que estragado, fiz um barulho do caralho e fui desenterrar textos que julgava do Brecht mas que afinal não são do Brecht

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

"Fazer amor com o pénis dos outros" - uma peça de Tom Stoppard




Pedro – Sabes, Paulo, esta viagem de finalistas podia ter corrido melhor. É verdade que ainda consegui sacar umas gajas mas o António sacou mais do que eu e isso deixa-me triste. Já no casting do La Féria fiquei em segundo e isso nunca nos leva a lado nenhum.

Paulo – Oh pá, eu cá estou contente. É aquela coisa da relatividade, o que me interessa não é olhar para números absolutos mas sim comparar com as viagens anteriores em que me via à rasca e só não regressava a seco porque à última da hora apanhava aquela minhota gordinha que dava forte no sarrabulho e no verde tinto.

António – Isso da relatividade ou é conversa de cientistas com aspecto lunático ou é conversa de gajos fraquinhos. E vocês os dois não me parecem cientistas…

Jerónimo – O Paulo tem razão, as tendências são importantes. Claro que, por muito que force o penteado, um gajo que tinha 1 cabelo e de repente fica com 5 continua a ser careca.

Paulo – Também não é preciso exagerar, o Pedro não é assim tão careca como isso.

João – “Carecas” é um eufemismo, esta viagem foi um autêntico fracasso para os dois amiguinhos do engate. As mulheres já não vos ligam, preferem outros, essa é que é a verdade. Mudem de estilo e alterem o paleio porque esse já não pega.

Pedro – Oh João, estás a rir-te? Mas afinal quantas gajas comeste tu? Pelo que ouvi dizer nem a beijinhos tiveste direito, estavas a 5 cm da boca da miúda e ela virou a cara. Sabes que mais, lá no norte é que dizem bem, foder com a pila dos outros é fácil e não dá doenças.

João - Não me fales de doenças, não tens direito a falar de doenças. Tu não sabes o que é curar uma doença. Eu sei o que é o sorriso de um doente curado.

(entram Rosencrantz e Guildenstern)



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

still waiting



O Twitter é um palco permanente de "Teatro do Absurdo". E mesmo sabendo disso continuo a esforçar-me para ser um dos actores!