terça-feira, 29 de abril de 2014

O meu inter-rail; 7º capítulo: “veni, vidi, vidi”



Da última vez que vos dirigi a palavra estávamos na estação de Termini, no centro de Roma. Em bom rigor, estava eu e vocês não. Aliás, em excelente rigor, eu também já não estava. Embora estivesse estado. Avancemos. Eram apenas 7 da manhã mas o sol, deliciado pela revelação de uma cabeça higienicamente desbastada por um pente 2, já empreendia com vigor, qual Miguel Ângelo perante um bloco de mármore de Carrara, a sua labuta sobre a mesma. Troquei dinheiro, tomei um café para acompanhar o panino que sobrara da viagem e passei na bilheteira para ver os horários. Precisava de me deslocar até Brindisi, um importante porto natural do Adriático, situado, em utilizando os inefáveis mapas “tem-a-forma-de”*, no tacão da bota**. Aí trataria de apanhar um barco até à Grécia (de borla, pois estava incluído no passe do inter-rail) e depois seguiria novamente por terra até Istambul. De acordo com as informações que recolhi na bilheteira e respeitando as decisões que tomei após uma longa negociação comigo próprio, tinha 14 horas para fazer o que me apetecesse em Roma, uma cidade onde nunca havia estado. Podia ter optado por lá dormir uma noite, adiando por 24 horas a viagem para sul, mas mantive-me firme, durante a tal longa negociação comigo próprio, na intenção de chegar à Turquia o mais rapidamente possível. 14 horas é um período de tempo que suscita sentimentos divergentes consoante o ponto de vista: para um funcionário público pré-Passos Coelho corresponde a dois dias inteiros na repartição, um verdadeiro suplício de Tântalo; para um recém-chegado a uma cidade grande, famosa e nunca antes visitada, representa um dilema de grandes proporções que consiste em optar por uma postura de viajante ou de turista, diferença que não parece relevante aos olhos do comum dos mortais mas que assume um carácter de vida ou morte quando analisada por escritores, artistas, intelectuais e outros vaidosos em geral. A quantidade de tinta e de saliva que já se gastou nesta “magna” polémica dava para encher as catacumbas romanas depois de salutarmente lá enfiar todos aqueles que a alimentam, eu inclusive. Analisemos a argumentação mais corrente…

“O turista vê e o viajante vive” é um dos chavões mais utilizados por todos aqueles que se julgam viajantes a sério. No entanto, algumas pessoas levam a questão mais a peito e não poupam nas munições. Como por exemplo o realizador Werner Herzog, que afirma sem contemplações: “o turismo é um pecado mortal”. Ou então a famosa escritora de viagens irlandesa Dervla Murphy que, antes de partir, estuda atentamente os guias de viagem por forma a conseguir evitar totalmente todas as zonas frequentadas por turistas (em Roma tinha de se meter no sistema de esgotos! E no actual uma vez que no sistema antigo, a Cloaca Maxima construída pelos Reis Tarquínios***, andam certamente japoneses a tirar fotografias). No nosso país, e analisando a obra do Miguel Sousa Tavares, um gajo que viaja, podemos encontrar este texto ilustrativo da posição da intelectualidade sobre o assunto:

“Uma das pessoas que me ensinou a viajar foi a minha mãe. Ensinou-mo com uma simples frase. A única vez que viajámos juntos, fomos a Roma. Estávamos sentados uma tarde na Piazza Navona, o seu local preferido de Roma. Ela bebia um dos seus inúmeros chás diários e há mais de uma hora que ali estávamos, sentados a contemplar a beleza perfeita da praça (…)  Mas estávamos ali há demasiado tempo, era a primeira vez que vinha a Roma e tinha, logicamente, alguma pressa de seguir caminho e ir ver outras coisas. Sentindo a minha impaciência, a minha mãe disse-me: "Miguel, viajar é olhar." Até hoje, fiquei sempre cativo desta frase e do que ela implica e compromete o verdadeiro viajante.”

Ou seja, o filho Miguel, ainda turista desejoso de ver o que nunca tinha visto, é moldado in loco pela mãe Sophia, já viajante desejosa de viver os locais por onde passa. Entre andar 150 metros e visitar gratuitamente os Caravaggios da Igreja de São Luís dos Franceses, andar 200 metros e admirar sem custos o fresco do Profeta Isaías pintado por Rafael na Basílica de Santo Agostinho, andar 250 metros e ouvir de borla um concerto de órgão na Igreja de Santo António dos Portugueses, e permanecer imóvel numa esplanada da Navona a beber chás a 10 euros a chávena, Sophia opta pelos chás a 10 euros a chávena. E ensina o filho a fazer o mesmo. E quanto a mim, Aníbal Éter. O que é que a minha mãe me transmitiu sobre viagens, além de me ter ensinado a fugir a sete pés de todos os locais que vendam chá a mais do que, digamos, 3 euros a chávena? Regressemos a Termini: naquele momento em que o sol romano aplicava o maço e o cinzel na minha cabeça, fui forçado, pela segunda vez na vida, a escolher uma postura. Uns anos antes, na primeira vez que saí do país sem ser para ir a Vigo, vi-me em Paris no contexto de uma paragem técnica obrigatória para descanso do motorista a meio de uma viagem de autocarro Porto-Hamburgo. Ciente da vastidão da cidade, fui largado perto da Notre-Dame às nove da manhã com a indicação de estar na Place de la Concorde às seis da tarde para se retomar a viagem. Pensais vós que me sentei num café de Saint-Germain-des-Prés a ler o Le Monde com um cigarro sem filtro no canto da boca? É que nem trinta Sophias conseguiriam segurar-me perante a possibilidade de ver ao vivo, de uma forma rápida, atabalhoada e totalmente parola, tudo aquilo que os meus olhos tinham, durante anos, assimilado em fotografias. Comecei na Île de la Cité (onde o belo Filipe IV se aqueceu com uma fogueira alimentada com o último Grão-Mestre dos Templários; dizem que o Rei devia muito dinheiro aos Templários e que resolveu assim a questão, um pouco como se o Passos Coelho enfiasse a Christine Lagarde numa das lareiras de São Bento), passei pelo Hôtel de Ville e pelo Centro Pompidou (à semelhança de algumas pessoas, é muito mais bonito visto por trás do que pela frente), meti-me pela Rua de Rivoli até ao Louvre (onde naturalmente não entrei), fui ver a Ópera Garnier (por fora, claro, que ouvir líricos ocupa muito tempo), caminhei por uma das grandes boulevards até à Igreja de la Madeleine, sentei-me a descansar na Concorde (não resisti a tirar uma foto típica, parecida com esta, que confunde pela perspectiva as alturas do candeeiro, do Obelisco de Luxor e da Torre Eiffel; meu Deus, sou um turista tão ridiculamente previsível que quase fico envergonhado),




percorri os Campos Elísios de ponta a ponta, subi ao topo do Arco do Triunfo para aproveitar uma das melhores vistas de Paris (clichés atrás de clichés, a Sophia teria de fumar o dobro dos cigarros para me conseguir aturar), avancei até ao Trocadéro onde absorvi, à maneira de Hitler em 1940, a engenharia da Torre Eiffel, segui para os Invalides, atravessei a famosa Ponte Alexandre III, seguida do Petit e do Grand Palais e, finalmente, sentei-me no Jardim das Tulherias à espera do autocarro, com as pernas desfeitas e a alma cheia.



Trocadéro, 1940


Vi muito e “vivi” pouco. Fui superficial e absorvi apenas alguns dos pormenores de tamanha beleza. Não entrei sequer em nenhum meio de transporte, uma boa maneira de conhecer as características da população de uma cidade mas não a cidade em si. Poderia ter sido de outra forma? Não. Entretanto já fui mais vezes a Paris e a postura foi diferente, dando lugar a visitas demoradas a museus, lojas e livrarias, passeios a pé em registo de flâneur e alívio do prurido da micose em esplanadas variadas. Mas não é natural que uma pessoa, principalmente se for curiosa, consiga ser viajante antes de ter sido turista e que se sinta feliz a “viver” descontraidamente um local sem ter visto apressadamente todos os outros que se encontram nas redondezas.
Toda esta conversa, como já devem ter percebido, serve apenas para introduzir  a descrição do meu primeiro (e durante alguns anos, único) dia em Roma, em que vi tanta coisa que vocês vão pensar que eu sou um mentiroso do caralho, quando, na verdade, sou do caralho mas sem ser mentiroso. Foi um autêntico veni, vidi, vidi. E, para concluir, vidi! Mas o relato fica para a próxima…

(continua)

  

* existem mapas políticos, mapas físicos e mapas “tem-a-forma-de”

** se a Itália é uma bota, a Suécia é uma pila, a Finlândia é o escroto da Suécia e a Dinamarca é a gotinha de xixi que cai invariavelmente no fim da micção.



Não me perguntem o que é a Noruega uma vez que não sei;
espero sinceramente que não seja nenhuma doença



*** uma dinastia de Reis etruscos


quarta-feira, 23 de abril de 2014

δημοκρατία


Sólon Júnior, Clístenes Júnior e Péricles Júnior comemorando o 2520º aniversário da Democracia Grega



Francisco Assis dedicou a sua crónica no Público à análise das capacidades intelectuais de Pedro Lomba, “um pequeno apparatchik ligeiramente alfabetizado” e de Bruno Maçães, “um robot tecnocrático que escreve tweets patetas num inglês próprio de quem nunca leu Shakespeare”.

Compreendo bem as críticas de Assis a estes dois secretários de Estado e tomo como minhas as suas considerações. Não é à toa que o deputado socialista, à semelhança dos restantes militantes do PS, alerta sistematicamente para a falta de qualidade das escolas estatais e para a necessidade de reformar e liberalizar o sistema de ensino do país. Pedro Lomba é licenciado, mestre e doutorando pela Faculdade de Direito de Lisboa, escola pública onde também foi professor assistente. Não é pois motivo de espanto que deixe muito a desejar em termos de alfabetização. Já quanto ao qualificativo de apparatchik, é evidente que um homem como Francisco Assis não pode pactuar com boys que não conhecem a vida exterior às paredes das concelhias partidárias. Recorde-se que entre a conclusão do seu curso de Filosofia e o início, aos 24 anos de idade, do seu mandato como Presidente da Câmara Municipal de Amarante, decorreram dezenas de semanas, talvez até centenas de dias, em que Francisco Assis laboriosamente construiu uma carreira profissional de sucesso longe dos meandros do aparelhismo. E todos os cargos posteriores que desempenhou, de Deputado à Assembleia da República pelo Distrito do Porto a Deputado à Assembleia da República pelo Distrito da Guarda, passando pelos mandatos de deputado ao Parlamento Europeu e de Vereador da Câmara Municipal do Porto, foram conquistados com base nos saberes que adquiriu nesse longo período de não submissão às dependências ideológico-partidárias. Com um curriculum destes é normal que tenha pouca paciência para os profissionais da política.  

Em relação a Bruno Maçães, que ainda por cima “foi a Atenas dar lições a um povo que já conhece a democracia há mais de 2000 anos”, compreendo ainda melhor a justiça das críticas. Em primeiro lugar não nos podemos esquecer do papel de Francisco Assis como líder parlamentar do Partido Socialista entre 2009 e 2011. Como poderia um homem habituado a conviver de perto com o poliglota José Sócrates não ficar horrorizado com o inglês que o secretário de Estado Maçães trouxe do seu doutoramento em Harvard? Anos e anos a ouvir discursos num inglês e num espanhol próprios de quem leu várias vezes todos os textos de Shakespeare e de Cervantes só poderiam ter como resultado esta tremenda sensibilidade à precisão linguística. Além disso, para um licenciado em Filosofia como é o deputado Assis, é de todo incompreensível que se dirijam quaisquer tipo de considerações ao povo helénico. Como é possível que Bruno Maçães se atreva a tal? Julgará ele que os gregos andaram a inventar a Democracia para se sujeitarem a ouvir coisas com as quais não concordam? Por este caminho chegará o dia em que, discursando no Reino Unido, alertará os compatriotas de Newton para a necessidade de se conformarem com as leis da gravidade!
Péricles, o grande estadista da Grécia Clássica, célebre pela sua serenidade e controlo das emoções, e verdadeiro símbolo do período áureo ateniense, descreveu em poucas palavras o carácter ético e democrático do seu regime: “um Estado administrado no interesse do povo e não no interesse de uma minoria”. Qualquer pessoa que não seja um robot tecnocrático percebe, pela simples visualização dos noticiários, que o povo grego sente que é assim governado, de modo contínuo e constante, há mais de 2000 anos. Aliás, bastaria a Bruno Maçães observar a serenidade que se vive na Praça Sintagma ou o controlo das emoções presente nos derbys entre o Olympiacos e o Panathinaikos, para perceber que vive um Péricles na cabeça de cada grego. E por vezes, quando o grego se encontra com a cabeça rachada a meio, podem até viver dois.   


quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Salário Mínimo



Num inesperado movimento contraditório, um ano depois de ter caracterizado a medida como demagógica, Pedro Passos Coelho mostra agora abertura para aumentar o salário mínimo nacional. A satisfação que sinto com esta notícia prende-se essencialmente com dois motivos. Em primeiro lugar contribui para a humanização da Política e de todos os seus agentes. Habituados ao firme rigor e coerência da classe dirigente, os portugueses habituaram-se a ver os políticos como um grupo isolado, afastado e de diferentes características. Um grupo que é formado por “eles” e que se opõe ao grupo que é formado por “nós”. Ao mostrar que também é vulnerável ao erro, à contradição e à duplicidade da palavra dada, o Primeiro-Ministro mostra que os governantes são humanos e igualmente susceptíveis aos defeitos da portugalidade. São boas notícias para a democracia representativa.

Por outro lado, o aumento do salário mínimo na conjuntura actual parece-me uma excelente medida que só peca por tardia. Estando Portugal com uma taxa de desemprego de 16%, um número bastante difícil de decorar, não se compreendia que o Governo não estivesse a fazer todos os possíveis para tentar aumentá-la para 20%, um número redondo e de fácil memorização.
Ainda por cima, como muito bem diz Nicolau Santos no Expresso, patrões que não conseguem pagar um salário mínimo de 500 euros deviam ter vergonha. E, acrescento eu, melhor seria que fechassem de vez as portas das suas empresas, uma vez que Portugal não precisa delas para nada. A D. Alice, costureira com a 4ª classe nas Confecções Arnaldo Bracarense Lda., dispensa bem o empreendedorismo de vão de escada do Sr. Arnaldo. Se ele tiver de fechar a porta por causa do aumento do salário mínimo, ela pode ir trabalhar como investigadora no Laboratório Ibérico de Nanotecnologia. Que por acaso também fica em Braga. Não há qualquer razão para o país se sujeitar aos caprichos e à ignorância saloia deste tipo de empresários.
E quem é que pensa que é o Sr. Bernardino, de Sernancelhe, para se atrever a dizer que preferia trabalhar por 400 euros na única fábrica do Concelho, a estar em casa sem ganhar nenhum? Cuidará ele que lá por estar desempregado e ter já perdido todos os apoios sociais tem direito à liberdade de escolha?
Pobre Sr. Bernardino, não fossem as sábias cabeças das nossas elites, e arriscava-se a uma vida inteira de miséria e de exploração.  



PS - não posso deixar de referir a desilusão que senti quando ouvi as palavras do Bloco de Esquerda, exigindo um aumento do SMN para os 545 euros. Caro João Semedo, isto é valor que se apresente?! Gostava de saber se o senhor deputado conseguia viver dignamente com 545 euros mensais. Tenho quase a certeza que não. É por esta desvalorização permanente do valor do trabalho que Portugal não consegue alcançar a prosperidade que merece. Shame on you!


quarta-feira, 9 de abril de 2014

O meu inter-rail; 6º capítulo: "O gastrocnémio"



De regresso a Nice, desejava utilizar no meu enriquecimento cultural as poucas horas que ainda tinha disponíveis até ao embarque no comboio nocturno para Roma. Mas o que fazer numa cidade em que a principal praça se chama Masséna, em homenagem ao famoso Marechal que andou a fazer turismo militar no nosso país desde o momento em que o invadiu pela 3ª vez até ao momento em que começou a passar fome na zona de Torres Vedras*? Mesmo sendo verdade que devo a esse franciú o “fui guerrilheiro, fui guerrilheiro, fui guerrilheiro no Buçaco / levei um tiro no cu, ainda tenho lá o buraco”, a primeira música que aprendi no recreio da escola primária e que ainda hoje se mantém no meu coração, não me pareceu adequado, por respeito a Suas Altezas Reais D. Maria I e D. João VI, desfrutar das variadas infraestruturas da Place. Num momento de crueldade, ainda me passou pela cabeça sentar-me numa esplanada e pedir um Bife Wellington mas o risco de o garçon**, por manifesta ignorância da sua História, não se sentir ofendido, era demasiado grande para os preços médios da zona.



Este senhor, de seu nome Arthur Wellesley e de seu título Duque de Wellington, atestou na marmita de André Masséna em território português antes de cilindrar o seu superior hierárquico, Napoleão, na Batalha de Waterloo. Curiosamente, repousa num túmulo londrino bastante mais modesto do que o gigante mausoléu parisiense do corso Bonaparte. Sempre “à grande e à francesa” estes baguettes do caralho


Decidi então avançar para o mar, pensando em meter-me na água mais uma vez, dar uma volta na Promenade des Anglais e avaliar no terreno as condições objectivas para o desenvolvimento do projecto “Depurar o intestino no Hôtel Negresco”***. Infelizmente, uns minutos depois, fui atingido pela mão pesada da decepção! A praia é assim tipo uma bela merda e a baía está permanentemente a ser sobrevoada por aviões despejados pelo movimentado aeroporto situado numa das pontas da Promenade. O mar tem o aspecto típico daquela zona, ou seja, maravilhoso, mas para lá chegar é necessário atravessar um areal que em vez de areia tem um godo (será um godeal?) que escavaca os pés de todos aqueles que não andam calçados com aquelas sandálias horrorosas de plástico ou de borracha ou o caralho e que eliminam todo e qualquer resquício de fantasia à humanidade em geral e aos fetichistas tarados em particular. Tentem só imaginar uma praia e um calçadão repletos de gajos e gajas nestes preparos:




Conseguiram? Agora fechem o saco de enjoo com cuidado, deitem-no fora num caixote do lixo e regressem aqui para acabarem de ler esta treta. Como podem adivinhar, fugi daquele inferno à toute vitesse. Passei numa rua comercial do centro para ver umas gajas de tacão alto que me tirassem o mau gosto da boca, recolhi a mochila que tinha deixado pela manhã nos cacifos da gare e sentei-me a descansar enquanto esperava pelo comboio que me deixaria em Roma na madrugada seguinte. Perante as dezenas de pessoas que se encontravam no recinto, lamentei-me da impossibilidade de conseguir desenvolver com um local uma conversa que tivesse início com uma pergunta minha (“as vossas praias não são de areia! o que é aquilo?”), à qual se seguiria a resposta do francês (“pois não, são de godo”), à qual eu replicaria com um sonoro “anda cá que já te fodo”, mas acabei por ultrapassar esse desgosto e entrei na carruagem em paz.

O calor dentro da mesma era totalmente insuportável, fruto de um dia inteiro a armazenar, através da chapa, o sol da canícula mediterrânica. Pedi a todos os santos que fizessem com que a locomotiva arrancasse depressa, permitindo-me aproveitar alguma da aragem que entrasse pelas janelas para começar a respirar normalmente mas, ainda antes desse momento, vi o meu compartimento invadido por duas pessoas. Primeiro entrou um italiano com pinta de italiano, patilhas aparadas em forma de lança pretoriana, pêra e bigode à valete de espadas, e moreno como a pele dos tomates (a pele dos meus tomates pois a pele dos tomates do gajo ainda devia ser mais escura). Devia ter a minha idade e estava a terminar uma viagem de duas semanas, regressando à sua casa em Pisa. Uns minutos depois, encontrando-me já eu a entabular negociações latinas relativas à divisão e organização do espaço a bordo, ouve-se a porta a correr e avança uma loira não muito loira, precedida por um par de mamas que entrou no compartimento um segundo antes do nariz. Uma proeza assinalável visto que deu entrada apressadamente e que o nariz nem era pequeno. Bastou-me olhar para a cara do italiano, que nesse momento se encontrava a olhar para a minha, para perceber que estava a pensar o mesmo que eu: “este calçãozinho e este decote recheados com uma gaja tão boa não se vão atrever a passar uma noite numa cabine fechada (por uma porta e cortinas) com dois malcheirosos totalmente desconhecidos”. Estranhamente, pelo menos sob o ponto de vista de homens que tinham acumulado 20 anos de experiência de vida a sul do paralelo 45, a loira não muito loira não só não fugiu como, sem um pingo de vergonha, se intrometeu rapidamente nas negociações em curso, atrevendo-se mesmo a opinar sobre o assunto com uma postura que poderíamos classificar de inter pares! “Ai a filha da puta!” - pensei eu enquanto lhe tentava analisar o rego das mamas, ciente de que o italiano lhe estava a tentar analisar o rego do cu -, “ninguém ensinou a esta gaja, lá na merda da terra dela, as tímidas maneiras que se pretendem?!”. Pelos vistos vinha da Holanda, um país que fica a norte do paralelo 50, perigosamente próximo do Segundo Círculo do Inferno e do respectivo vale onde é castigada a luxúria.


À esquerda podemos ver o Capitão Thomas Bartholomew “Red” a preparar-se para dirigir um poderoso “seu filho de uma puta vesga das sarjetas de Amesterdão” ao comerciante holandês que se encontra a tomar banho; a fama de libertinagem dos Países Baixos já é antiga.
Fotograma de Pirates (1986) de Roman Polanski


Concluídos os trabalhos preparatórios, já com o comboio em andamento e com uma suave aragem a dissipar o cheiro a perfume da fêmea e o cheiro a testosterona dos machos, ficou decidido que, na hora de dormir e reclinados todos os assentos, o italiano ficaria deitado junto à porta, para poder sair mais ou menos a meio da viagem, em Pisa, sem incomodar ninguém; eu esticar-me-ia paralelamente à janela, para poder fumar uns cigarros em caso de ansiedade tabágica; e a holandesa, com o seu calçãozinho e decote, ficaria no meio. Também me pareceu na altura que assumida a necessidade de deixar o leito da porta para o italiano, seriam por ele utilizadas todas as técnicas argumentativas da Cosa Nostra e da Camorra com vista a impedir que ficasse a moça à janela e eu no meio dos dois a fazer de Rubicão. Talvez pairasse na cabeça do cretino pisano alguma sombra de desejo de mostrar à formosa viajante a inclinada torre. Demasiados jogos e fantasias e fodas mentais para machos que à boa maneira latina estavam muito mais envergonhados do que a sacaninha loira não muito loira. Felizmente, a simpatia e o à-vontade que mostrou foram suficientes para quebrar o gelo todo, dando origem a uma viagem quase tão boa como a curva que apresentava entre o bíceps femoral**** e o gastrocnémio*****. Onze horas após a saída de Nice, preenchidas a conversar, a dormir, a fumar, a dizer adeus ao italiano em Pisa e a comer panini que nos venderam nas estações através da janela do compartimento, cheguei a Termini, no centro de Roma.

   
(continua)


* corre o mito de que todos os estrangeiros saem de Portugal a elogiar a nossa gastronomia mas, na realidade, estes foderam-se.

** em França nunca chamem garçon a um garçon; ficam ofendidos, tem de se chamar monsieur.

*** era mais ou menos inevitável que num destes dias teríamos de ter esta conversa de merda. Afinal, como se satisfazem, num inter-rail, as necessidades fisiológicas masculinas? Ou seja todas excepto a micção uma vez que um homem não perde tempo a identificar e analisar as condicionantes desta actividade. Até porque, a bem dizer, não existem condicionantes nenhumas, mija-se em qualquer lado e ponto final. Mas dar uma cagada… bem, dar uma cagada nem sempre é fácil para um viajante deste tipo, principalmente quando o viajante decide dormir nos comboios e não em edifícios. As casas de banho das estações são uma opção péssima: umas não estão limpas, outras estão limpas mas utilizam o sistema “à caçador”, outras até, estando limpas e possuindo retretes normais, encontram-se a tal temperatura durante o Verão que uma pessoa fica totalmente encharcada ou chega mesmo a desfalecer mal tenha de efectuar um esforço mais acentuado ao nível dos esfíncteres. As dos comboios propriamente ditos não são melhores, conjugando o calor (talvez seja boa ideia recordar que este é um relato dos anos 90 e nessa altura o ar-condicionado não era omnipresente) com a exiguidade de espaço e a falta de higiene. Já para não falar dos bruscos e acentuados movimentos das carruagens e da magna e clássica questão das paragens (é de bom tom, aquando da inexistência de mecanismos de retenção das retretes, não evacuar durante as paragens dos comboios nas estações. No entanto, o desconhecimento sobre as linhas e horários pode levar a que, iniciando inadvertidamente o acto poucos minutos antes de uma escala, não se consiga interromper o mesmo no momento da total imobilização da locomotiva! Estes infelizes acasos originam desagradáveis visões (visões de merda, literalmente) aos passageiros que se encontram nas plataformas das estações no momento em que o comboio retoma a marcha).
Restam as casas de banhos dos sítios onde se vai parando para comer (sítios rafeiros, logo, casas de banho rafeiras) e as incursões clandestinas em hotéis de 5 estrelas mundialmente famosos, onde podemos purgar o nosso interior em sanitários caracterizados por elevadíssimos padrões de higiene, conforto e bom gosto. E desfrutando ainda da mais-valia adicional de conhecer por dentro edifícios de grande valor estético.       

**** músculo da parte posterior da coxa

***** músculo da barriga da perna; uma maravilha para os escanções de gajas

 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Carta aberta a José Rodrigues dos Santos



IL.mo e Ex.mo Senhor José Rodrigues dos Santos,

É com indisfarçável dor que sou obrigado a dirigir-lhe publicamente esta missiva pois, tendo já desfrutado de prazenteiras emoções despertadas pela leitura dos seus livros, nenhuma delas consegue compensar a revolta que senti no passado Dia do Senhor. Orgulhei-me patrioticamente perante a possibilidade de Cristóvão Colombo ser português, fui tocado por prazeres espirituais ao vislumbrar a existência de Deus numa fórmula de Einstein, senti até um ligeiro intumescimento quando tentei imaginar o sabor de uma sopa de peixe cozinhada com o leite das mamas da estudante Lena! Por tudo isso lhe agradeço. Não posso no entanto deixar de o confrontar com as inadmissíveis perguntas que dirigiu ao Eng. José Sócrates durante o comentário semanal do nosso ex-primeiro-ministro. Quem julga o senhor que é para se arrogar do direito de fazer perguntas? Algum jornalista? Caro Rodrigues dos Santos, coloque-se no seu lugar. Você está ali para ouvir e aprender, não para questionar. Você é a Judite que aumenta o brilho do Professor, o Drulovic que faz cruzamentos para os golos do Jardel, o foco de museu que realça a grandiosidade da obra de arte. A sua função é abrir as nuvens para deixar que a estrela nos ilumine o presente, não é perguntar à estrela por que razão não nos iluminou no passado.

Sei que por vezes é difícil conter a curiosidade e que o meu caro amigo pode ter sido contagiado pelo espírito de investigação do seu alter-ego Tomás Noronha. Mas se é esse o caso, deve pelo menos ter o cuidado de se informar e de fazer um questionário adequado. Não sabe que no tempo do Eng. Sócrates nunca foi aplicada austeridade? Pois devia saber. É imperdoável que confunda a austeridade deste governo, traduzida no corte de despesas devido à falta de graveto, com o rigor orçamental do governo anterior, baseado no corte de despesas devido à falta de pilim. Foi para fazer estas confusões grosseiras que andou a estagiar na BBC? E o que dizer da sua perfídia, ao insinuar que o ex-primeiro-ministro deixou as contas públicas desorçamentadas. Primeiro acusam-no vilmente de aldrabar o percurso académico e de nunca ter alcançado o grau de engenheiro, agora vem o senhor e lança-lhe a acusação de ter promovido grandiosas engenharias financeiras! Se me explicar como é que uma pessoa que não é engenheiro consegue fazer engenharias, talvez eu passe a acreditar que não é a pura má-fé que guia os seus passos em todo este caso. Desconfio que o motivo que o levou a falar da herança contabilística do anterior governo está relacionado com as gigantescas dívidas escondidas em Parcerias Público-Privadas e nas contas das Empresas Estatais. Que vergonha, Rodrigues dos Santos. Não saberá o meu caro amigo que essas operações foram realizadas em período pré-Manifesto dos 70, quando a dívida promovia o crescimento económico, e não no período pós-Manifesto dos 70, quando a dívida é um travão ao crescimento económico? Se não fosse um pivot parcial, ignorante e mal informado, saberia que essa herança em forma de passivo é, na verdade, puro crescimento camuflado à espera de despontar. No fundo, um gigantesco bónus deixado a este governo, que só a proverbial maledicência do povo português consegue transformar numa canga sobre o futuro do país.

A carta vai longa e tenho de me despedir. Mas não sem antes lhe recomendar com veemência: nunca deixe que um arquivo estrague uma boa história!


Tenho a honra de ser
De V. Ex.ª com muita consideração e um puxão de orelhas

Aníbal Éter

quarta-feira, 26 de março de 2014

A comovente sinceridade de um ancião


August Macke, Vegetable Fields (1911); Kunstmuseum, Bona


"Lembro-me de que sendo Schmidt chanceler e eu primeiro-ministro, e estando Portugal numa situação financeira difícil, fui a Bona, então capital da Alemanha, com o ministro das Finanças Vítor Constâncio. Uns minutos depois, estando já Vítor Constâncio a expor a situação financeira, de que eu percebia tão pouco, pedi licença a Schmidt para ir dar uma volta e ver um museu. Assim aconteceu."

Mário Soares, DN, 25/03/2014


quinta-feira, 20 de março de 2014

O meu inter-rail; 5º capítulo: "Les riches”



A viagem para Nice correu bem, obrigado. Depois de umas horas sentado no chão da Gare de Cerbère (eu e mais umas dúzias de outros interrailers piolhosos) apareceu o comboio que me iria levar até à cidade mais importante da Côte d'Azur, a zona indicada para gajos com uma apresentação cuidada como era a minha. Foi nesse momento que teve lugar o primeiro contacto com o tipo de carruagem em que iria fazer 90% das viagens e que me permitiram executar o plano de austeridade assente em dormidas nos comboios sem excessivo sofrimento. Não sendo pessoa de me entregar facilmente ao costume português de sentir muitos sentimentos admito, envergonhado, que foi amor à primeira vista. Amor pela carruagem em si e não por nenhuma pessoa que estivesse lá dentro . Amor, aliás, que apenas nasceu por não estarem muitas pessoas lá dentro. Vou explicar melhor partindo do princípio de que se vocês fossem muito inteligentes estavam a ler bons textos de bons escritores e não esta coisa que vos ponho à frente. As carruagens-tipo do meu inter-rail não foram aquelas a que eu estava habituado em Portugal, conhecidas na gíria técnica como “open” (ou seja, sem divisórias) e caracterizadas por um corredor central ladeado por assentos, mas sim aquelas a que chamam “compartment car” e que são constituídas por um corredor lateral, ligado por portas de correr a vários compartimentos de 6 lugares (3 passageiros num dos lados, sentados cara-a-cara com outros 3 passageiros no outro).



Corredor lateral, o local indicado para fumar uns cigarros com os restantes interrailers ; em caso de partilha do compartimento fechado com terceiros, é de bom tom visitar este espaço aquando da libertação de flatulências



Em alguns casos os assentos eram fixos, permitindo que duas pessoas se deitassem, e noutros eram reclináveis, conseguindo-se encostar cada um deles ao que lhe ficava em frente e permitindo que não duas mas sim três pessoas se deitassem. Uma vez que o comboio não tinha muitos passageiros consegui ficar sozinho numa das divisões, o que permitiu que dormisse o sono da beleza com total conforto (por me conseguir esticar ao comprido) e com total despreocupação (por saber que a porta fechada e as sapatilhas malcheirosas colocadas em posição de cão de guarda me protegeriam dos ladrõezecos e das ninfomaníacas suecas). Este surpreendente oásis de espaço acabou por se revelar a regra nas minhas viagens, o que muito contribuiu para a felicidade do cartão de crédito do meu pai e para a infelicidade de albergueiros, hospedeiros, estalajadeiros, e outros espelunqueiros em geral.



Compartimento com lugares reclináveis; se baixarmos totalmente os 6 assentos conseguimos transformar a divisão numa cama única onde podem dormir 3 pessoas paralelamente à janela; se não os baixarmos pode dormir 1 pessoa de cada lado, perpendicularmente à janela; se viajarem 6 pessoas no compartimento, ninguém dorme e é uma grande merda



Tendo chegado a Nice de manhã cedo e verificado que a melhor opção para prosseguir para leste seria apanhar o comboio das 8 da noite com destino a Roma, decidi ocupar umas horas desse dia na cidade-estado do Mónaco*. As possibilidade de diversão que se encontravam ao alcance da minha carteira no caríssimo Principado eram, à primeira vista, mais reduzidas que as saias das putas dos bordéis de Matosinhos em dias de atracagem de cargueiros no Porto de Leixões. No entanto, com alguma imaginação, foi possível preencher o tempo de uma forma agradável e sem necessidade de estuporar quantidades homéricas de francos franceses (se a memória não me falha um franco francês valia aproximadamente 30 escudos). Decidi desde logo que iria levar a cabo uma das “turistices” mais parolas do infindável universo de “turistices” parolas que existem no mundo: percorrer a pé todo o Circuito de Fórmula 1, túnel incluído. Podem gozar à vontade mas para um ex-viciado em F1Grand Prix (um jogo de computador dos anos 90) era irresistível a tentação de fazer aqueles 3,34 kilómetros (com k, já sabem como é; quem não souber, que vá ler o 1º capítulo) pelas ruas dos quartiers de Monte-Carlo e La Condamine. Comecei na recta da meta, virei à direita na Sainte Devote, a primeira curva da prova (onde numerosos gajos se espetam logo na primeira volta, 4 segundos depois da partida, numa notável ejaculação precoce automobilística), subi a Avenue d'Ostende até ao Casino, parei uns minutos a descansar no jardim que aí se encontra, virado para o luxuosíssimo Hôtel de Paris e assistindo a numerosos facholas a abandonarem as suas inacreditáveis viaturas no meio da rua para que os impecáveis porteiros as estacionassem devidamente, retomei o percurso até à famosa curva-cotovelo (a mais lenta de todo o campeonato de Fórmula 1, abordada a menos de 50 Km/h),  


A curva mais lenta de toda a época de F1, uma homenagem dos monegascos à Alheira de Mirandela


continuei até ao túnel onde os suicid… pilotos, depois de serem atingidos por um primeiro choque visual provocado pela súbita mudança da luminosidade mediterrânica para a escuridão do buraco e antes de serem atingidos por um segundo choque visual provocado pela súbita mudança da escuridão do buraco para a luminosidade mediterrânica, atingem uma velocidade superior a 250 km/h, atravessei-o, dei um delicioso mergulho a partir de um dos paredões do porto, que se encontra logo à saída do túnel (informo não ter sido uma cena “à puto da Ribeira”, uma vez que o paredão em causa estava dotado de uma escada de ferro de acesso ao mar e de um chuveiro de água doce), sequei-me ao sol enquanto observava a entrada e saída de iates GCC (Grandes Comó Caralho), prossegui para a chicane** que obriga os pilotos a travar a fundo logo a seguir a levarem com o segundo choque visual no focinho, entrei no cais onde atracam os já referidos GCC´s e onde é possível espreitar para dentro dos mesmos (e ficar, rápida e inevitavelmente, com uma pasmada cara de lorpa), e terminei a parola “turistice” na zona da piscina, dando descanso às pernas e observando as monegascas em bikini (por forma a manter a cara de lorpa, não fosse dar-se o caso de ocorrer um desvanecimento da mesma, o que seria uma afronta às gentes da terra).



O X a vermelho marca o sítio onde dei um mergulho; espero que consigam ver bem onde está o X


Cumprido o plano inicial, avancei para um almoço de iguarias locais (um BigMac menu, se bem me lembro), marimbei-me para o Musée Océanographique, que até tinha sido dirigido pelo Jacques Cousteau (“e como lhe custou essa direcção!”, diria o Fernando Mendes no “Preço Certo”, lançando um olhar às pernas da Lenka) e optei por visitar o túmulo da Grace Kelly, localizado na mesma Igreja onde, pelo casamento, se tinha transformado em Princesa do Mónaco no ano de 1956. Ainda cheirei a laje para tentar captar as feromonas de fêmea que tinham desorientado os córtex cerebrais de um Príncipe, de vários actores bem-parecidos (Clark Gable, James Stewart, Cary Grant, Frank Sinatra, …) e, segundo alguns estudiosos da 7ª arte, do próprio realizador Alfred Hitchcock, mas, infelizmente, cheirava apenas ao produto de limpeza utilizado para manter a mármore sempre a brilhar. Desiludido, dei por encerrada a visita e abandonei aquele éden de riches, regressando à cidade de Nice. Resumindo a jornada monegasca, posso afirmar sem medo que foi uma excelente não-aventura de condução de Ferraris, Bentleys e Lamborghinis pelas curvas do Principado, uma inesquecível não-diversão numa festa privada regada a champagne a bordo de um iate de 30 metros, uma requintada não-experiência de baccarat chemin-de-fer no pano verde do Casino de Monte-Carlo e uma soberba não-degustação de um jantar no Le Louis XV, um três estrelas Michelin liderado pelo chef Alain Ducasse onde, rezam as lendas, repousam mais de meio milhão de garrafas dos melhores vinhos do mundo. Como podem ver, tudo correu pelo melhor. O Mónaco foi também o local onde percebi a sanha persecutória do fisco português em relação à classe média: não é nada pessoal, é mesmo por falta de alternativas que se enquadrem no que normalmente chamamos de “realidade concreta”. Queriam que o Ministério das Finanças perseguisse quem? Os pobres que não têm onde cair mortos? Ou os ricos que se podem facilmente pirar para estes paraísos fiscais à beira-mar*** onde nem sequer existe IRS? Tenham juízo e paguem mas é o caralho dos impostos caladinhos. E já que falo nas muitas coisas que por lá aprendi nas poucas horas em que por lá andei, fica aqui, em jeito de despedida, mais uma bonita história: lembram-se do filme “Os diamantes são eternos”, com o Sean Connery a fazer aquelas piadinhas de merda maravilhosas no papel de James Bond? Quando vi o filme não consegui entender uma delas. Sendo eu um grande fã e não existindo nessa altura internet para investigar essas coisas, fiquei muito, muito triste! Recordo-vos a cena, entre o agente secreto 007 e a contrabandista de diamantes Tiffany Case:  

Tiffany Case: “Não existe um Mr. Case. O “T” é de Tiffany.”
James Bond: “Tiffany Case?! Que nome elegante!”
Tiffany Case: “Eu nasci lá! [referindo-se à famosa joalharia Tiffany´s] No 3º andar, enquanto a minha mãe comprava um anel de casamento.”
James Bond: “Sorte a sua não ter sido na Van Cleef & Arpels...”

Só no Mónaco, vários anos depois, especado em frente à montra da luxuosa joalharia Van Cleef & Arpels, consegui perceber a puta da piada! E como bónus, em jeito de revelação, apercebi-me definitivamente do carácter de fim-de-mundo do simpático país em que tinha nascido. Digam lá se não foi uma bonita epifania…


(continua) 


* fica a menos de 20 km de Nice e há comboios e autocarros que nos levam lá; ainda pensei em roubar um carro para me deslocar por uma das 3 corniches (não confundir com cornices, estou a falar de estradas) mas depois lembrei-me da Grace Kelly (do acidente fatal, não do bonito picnic com o Cary Grant no filme “To Catch a Thief”) e desisti da ideia (uns anos depois voltei a visitar a Riviera e acabei por conduzir pelas famosas corniches, mas foi num carro alugado meio foleiro e em termos de glamour foi assim um bocado uma merda).



Eu e a Grace Kelly sentados num Alpine Sports Roadster ; ao fundo, o Mónaco





Nesta foto ela trocou-me pelo Cary Grant derivado ao facto de eu lhe ter dito que as costelinhas estavam mal passadas! Gajas…



** sequência de curvas que tem o objectivo de forçar os pilotos a diminuírem a velocidade; não confundir com chicana, aquela coisa em que os deputados se enredam desavergonhadamente, uns por serem uns peçonhentos e outros por estarem verdadeiramente convencidos que é assim que se desenvolve a actividade de “fazer política”.

*** embora um apartamento no Mónaco custe vários milhões (há quem fale de um preço por m2 de 50.000 dólares), dá sempre para rentabilizar a varanda no fim-de-semana do Grande Prémio de F1 (dependendo da vista e da área pode render uma pequena fortuna). 

 

quinta-feira, 13 de março de 2014

estruturadores reestruturando a estrutura



A única maneira segura de limpar um campo de minas, é conseguir convencer os militares que participaram no trabalho de colocação dos engenhos a participarem posteriormente no trabalho de remoção dos mesmos. Esta grande verdade militar, que só não foi desenvolvida por Sun Tzu por manifesto esquecimento, nem sempre pode ser aplicada devido à ausência de espírito de colaboração de alguns soldados ou, em certos casos, à circunstância de eles já não se encontrarem vivos. Felizmente para nós, alguns dos valentes compatriotas que minaram as nossas finanças e economia com dívidas explosivas ainda se encontram de boa saúde e com vontade de participar no difícil e arriscado trabalho de desminagem que está em curso. É assim de louvar o recente “Manifesto pela Reestruturação da Dívida”, onde algumas das personalidades que nos foram dizendo nos últimos anos que precisávamos de pedir empréstimos para fomentar o crescimento, nos dizem agora que só podemos crescer se não pagarmos esses empréstimos que pedimos.

Sabendo que a característica má-língua dos portugueses se prepara para acusar estas figuras de altíssimo nível de terem o secreto desejo de dar um baixíssimo calote, consultei o dicionário com o intuito de iluminar de sabedoria as mentes de tão ignorante povo. Ficam pois desde já a saber que “reestruturar” não é mais do que estruturar novamente e que “estruturar” é apenas o acto de dotar algo com uma estrutura. Para melhor entenderem o que está em causa tentem lembrar-se da vossa casa: quando tomaram a decisão de a construir tiveram de chamar um projectista que a dotasse de uma estrutura. Imaginem agora que a vossa família cresce e que por isso se torna necessário acrescentar-lhe um novo piso com mais quartos. Quem é a pessoa indicada para tratar desse processo? Um novo profissional ou o mesmo técnico que a desenhou de raiz e que por isso sabe com exactidão onde se encontram e como estão construídas as fundações, sapatas, vigas, pilares, paredes mestras e muros de suporte? Naturalmente que, estando ele vivo e mostrando disponibilidade para o trabalho, a vossa escolha recairá no projectista inicial. Assim, o homem que no passado estruturou a coisa tratará agora de a reestruturar. O que acontece com este Manifesto, para grande sorte do país, é bastante parecido. As assinaturas de João Cravinho, pai das SCUT e grande promotor de PPP e de mega-projectos, e de João Galamba, ferrenho defensor do investimento público e um dos principais conselheiros do ex-Primeiro-Ministro José “aumentamos o défice porque quisemos” Sócrates, são a prova de que os portugueses podem estar descansados. Quem estruturou a dívida não se esquiva à difícil tarefa de a reestruturar, os nossos projectistas estão vivos e com vontade de trabalhar.            

quinta-feira, 6 de março de 2014

O João e o Adão



Dizia Oscar Wilde que a coerência é a virtude dos imbecis. Talvez por acreditarem nessa teoria e por não gostarem de insultar ninguém, alguns dos twitteiros que sigo têm dedicado algum do seu tempo a debater a suposta falta de coerência de outro twitteiro que também sigo. Uma vez que todos eles são importantes na difícil tarefa de aliviar os momentos de tédio do meu dia-a-dia, pretendo dar o meu contributo à discussão, batalhando pela harmonia universal and the pursuit of happiness. Pelos vistos o twitteiro A, conhecido pela empenhada defesa das ideias liberais, desenvolve actividade de investigação sob a alçada de recursos públicos (ou, nas certeiras palavras de Margaret Thatcher que Deus a tenha, sob a alçada de recursos do contribuinte). Logo os twitteiros B, C e etc., imbuídos do saudável espírito do anda cá que já te fodo, saltaram com galhardia em cima do twitteiro A, acusando-o de ser um Frei Tomás agasalhado por um manto de contradições e de ter um corte de cabelo démodé. Adiante que se faz tarde e não estou aqui para empatar: pode um convicto liberal ganhar a vida a soldo do orçamento de Estado sem peso na consciência? Caros amigos e inimigos, a minha resposta é rápida: pode. E se por acaso sentir um remorso nocturno a atrapalhar o necessário repouso deve procurar com urgência um psicólogo que lhe desenrodilhe a linha do pensamento. O debate intelectual de ideias não pode substituir nem condicionar a primitiva actividade de obter honestamente o pão nosso de cada dia e a manteiga para o barrar. Um liberal pode comprar livros do Milton Friedman e do Hayek com o dinheiro que ganhou a trabalhar para o Estado e um socialista pode comprar livros do Keynes e do Karl Marx com o dinheiro que ganhou a trabalhar nas empresas do grupo Mello ou no Banco Espírito Santo. Usando a conversa da treta do Prós & Contras e os finais de telejornal do Rodrigo Guedes de Carvalho, qualquer um deles pode lutar por mudar o “paradigma” do país e do mundo mas qualquer um deles continuará a precisar de comer enquanto o “paradigma” do país e do mundo se mantiver tão estático como a defesa do meu FCP que Deus o tenha também. Na minha maneira de ver as coisas com os olhos da cara e não com o olho cosmológico de Henry Miller, cada pessoa deve analisar as oportunidades que existem no contexto da totalmente legal legalidade e escolher as que considera melhores para a sua vida. Tudo isto sem levar em linha de conta as tais ideias liberais que pode considerar adequadas mas que deverão ser reservadas para o debate ideológico e prática política. Aliás, o maior problema destas discussões é que o próprio conceito de liberalismo anda mais distorcido que o espelho de uma anoréctica. Se usarem também os vossos olhos da cara, perceberão com facilidade que todas as análises do liberalismo que se desviem das clássicas características do “liberalismo político” e do “liberalismo económico” são uma bela merda de análises, construídas apenas para vos baralhar os entrefolhos do cérebro. Ide ler meia dúzia de coisas sobre o pensamento de John Locke e de Adam Smith, os supostos pais desses dois liberalismos, e passareis a mandar abaixo de Braga muitos dos gajos que andam para aí a evangelizar. O primeiro lutou contra o absolutismo de direito divino, defendendo que a origem do Poder Político se encontrava no Povo. Querem uma merda mais democrática do que esta em pleno séc. XVII? Afirmou que deveriam ser os cidadãos a delegar os seus poderes no Estado, para que este aplicasse a justiça pública, protegendo a vida, a liberdade e a propriedade de todos. E que essa delegação deveria ocorrer sempre de uma forma limitada para impedir abusos e tiranias. Que atire a primeira pedra o absolutista prepotente que estiver contra o liberalismo político. Quanto ao Adam Smith, o homem da “mão invisível” (a que está relacionada com a economia de mercado e não a que vocês usam para apalpar gajas em discotecas apinhadas), ficou famoso por defender o mercado livre e a liberdade económica. Mas não empreendeu (bonita palavra para utilizar com este senhor) essa defesa por ser um individualista feroz mas por considerar eticamente superior o princípio da cooperação voluntária entre os homens e porque, na sua análise, o liberalismo económico permitiria um maior crescimento económico de toda a sociedade, melhorando os rendimentos dos pobres sem ter que se confiscar o património dos ricos. Note-se que o conjunto dual de ambos os dois (João e Adão) considerava como insubstituível o papel do Estado nas áreas da Defesa, Justiça, elaboração de Leis e construção de Obras Públicas. Ou seja, pela lógica dos que não gostam de insultar ninguém, o twitteiro A, liberal, nunca poderia ser militar, magistrado, polícia, ministro das obras públicas ou deputado, e todas essas funções ficariam reservadas para os defensores do socialismo (que tratariam de perpetuar o mesmo para todo o sempre). Aliás, se o twitteiro A tivesse tido o azar de nascer num país totalmente estatizado (em que toda a actividade económica está nas mãos do Estado), não poderia exercer nenhuma profissão e teria de emigrar! Mas como normalmente nesses países as fronteiras se encontram fechadas, o nosso twitteiro estaria bem fodido. Caros amigos e inimigos, o que os liberais querem é que o Estado se retire progressivamente de algumas áreas, o que permitirá a diminuição dos seus gastos, o que permitirá a diminuição dos impostos que cobra às pessoas e às empresas, o que permitirá um aumento do investimento, o que permitirá um crescimento da riqueza nacional, o que permitirá que algumas empresas e instituições privadas aumentem os seus orçamentos de investigação, o que permitirá que o nosso twitteiro A tenha novas oportunidades para ganhar a vida. E por muito barulho que façam, não me parece possível alterar a ordem dos acontecimentos acima apresentada. “Ah, mas ó Aníbal, isso é impossível porque a cultura portuguesa é a da cunha e do amiguismo, o Estado está tomado de assalto por tachistas e os partidos políticos são um antro de filhos da puta que não vão decidir contra os seus próprios interesses”. Pois, é capaz, por isso é que eu, que até me considero liberal, olho com simpatia para a troika e para a Merkel e para o Tratado Orçamental e para a inscrição dos limites do défice e da dívida na Constituição e ainda gostaria que nos obrigassem a gravar numa pedra da Assembleia da República um tecto máximo para a carga fiscal e outro para o peso das despesas públicas no PIB. No fundo, já que o nosso Estado não imita Ulisses e não se aprisiona a si próprio, que venha alguém de fora e que amarre o sacana a um mastro com cabos de sisal entrançado e duplo lais de guia. Caso contrário as putas das sereias vão-nos continuar a lixar.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Adenda



Esqueci-me da fotografia dos candeeiros do Passeig, carago! Os gajos deram-lhes o nome de ”Bancs-Fanals”, qualquer coisa como “bancos-candeeiros” em português. Estavam com uma imaginação do caralho no dia do baptismo, os sacanas. Reparem que o local onde nos podemos sentar foi decorado com bocados partidos de cerâmica, uma técnica muito utilizada no Modernismo Catalão mas que dá cabo das bochechas do rabo das espanholas que usam aqueles calções muito curtos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O meu inter-rail; 4º capítulo: "Penetrar no Anillo"



“A oeste nada de novo”, dizia o escritor alemão de quem os nazis não gostavam. Ah, a literatura*, que sempre comandou os meus passos e os comanda uma vez mais neste pequeno percurso entre o comboio que acaba de chegar e a bilheteira que já lá se encontra! “Buenos dias, senhorita, faça-me aí uma reserva antecipada de lugar, a tal que é obrigatória apesar do meu “passe que permite andar gratuitamente durante um mês nos comboios de todos os países europeus excepto naquele em que nasceste”**. Pode ser para o primeiro coiso*** que me leve para leste, que eu já conheço a sua cidade e quero é chegar a Istambul”. O melhor que me arranjou foi um coiso ao fim da tarde destinado à fronteira com França, onde poderia mudar, sem grande espera, para um outro que me levaria até Nice. A ideia agradou-me bastante pois esta seria a segunda viagem a ter lugar durante a noite. Como também seria a segunda viagem a ter lugar durante o inter-rail, detectei, com brilhantismo, a possibilidade da existência de um padrão. Inspirado por motivos de natureza cultural, também conhecidos como “falta daquilo com que se compram melões”, comecei a idealizar um plano de austeridade assente em dormidas nos comboios. E o plano foi tão bem desenhado que a primeira vez que encostei o esqueleto a um colchão foi na Turquia, uma semana depois de ter saído de casa. Mas regressemos a Barcelona, onde teria de ocupar aproximadamente umas 8 horas. O que fazer? Numa visita anterior à Catalunha já tinha despachado o típico roteiro turístico (a distinção entre turista e viajante, essa questão melindrosa que tanto apoquenta os intelectuais, fica para depois, talvez para Roma) das Ramblas, Bairro Gótico, Camp Nou e obras do Gaudí, do Parque Güell à Casa Batlló, passando pela Santa Engrácia lá do sítio, de seu nome Templo Expiatório da Sagrada Família, uma enorme basílica flanqueada, se bem me recordo, por dois terrenos vazios com dimensão suficiente para a edificação de um shopping modernaço de grandes dimensões****. Alguns dos principais museus também já tinham sido vistos na última viagem e o único que me tinha deixado saudades, o Teatro-Museu Dalí, ficava a mais de 100 km da cidade (“Ah, mas ó Aníbal, não é suposto não se poder dizer nunca que um museu está visto uma vez que a soma de todos os pormenores e interpretações das obras expostas tende para o infinito obrigando por isso a impossíveis infinitas visitas para que tal fosse verdade?”; “Hum, interessante problemática! Antes de mais o meu muito obrigado pelo pertinente comentário. Quanto à questão em concreto, estimo bem que te fodas.”; “Ah, mas ó Aníbal, lembrei-me agora que estamos a falar de Barcelona, uma cidade onde os principais museus estão recheados de Cubismo, de Surrealismo, e de outras correntes da Arte Moderna, o que torna ainda mais relevante a multiplicidade interpretativa que evoquei!”; “Sim, sem dúvida. Felizmente, o “estimo bem que te fodas” está imune a divergências de interpretação.”).



“Museu Picasso” – se deseja conhecer as mais importantes obras deste artista,
este é um dos museus que não deve visitar



Nunca tinha assistido, para grande pena minha, a uma ópera no Gran Teatre del Liceu ou a um concerto no Palau de la Música Catalana, mas também não ia ser desta que o ia fazer em derivado a factos relacionados com o carácter diurno da estadia (se lá permanecesse para a noite não o faria na mesma em derivado a factos relacionados com o carácter andrajoso da vestimenta). Optei então, depois de largar a mochila num cacifo, por dedicar umas horas à zona olímpica de Montjuïc e aproveitar o resto do tempo para coçar os toma…, digo, observar o fluxo da humanidade e os magníficos candeeiros, sentado numa esplanada do Passeig de Gràcia.
A majestosa colina de Montjuïc, ponto nevrálgico dos Jogos Olímpicos de 1992, assume sem modéstia, do alto dos seus 170 metros de altitude, um olhar sobranceiro sobre a Cidade Condal. Agora sem merdas e com os exemplos que mereceis: lembrais-vos das imagens espectaculares proporcionadas pela modalidade de saltos para a água nos JO 92 e em posteriores Campeonatos do Mundo? Foi o olhar sobranceiro da Piscina Municipal de Montjuic que as permitiu. Mas por Deus, não façais confusão com as Piscinas Picornell onde decorreram as provas de natação e que também se situam em Montjuic apesar de não se conseguir ver, a partir das suas bancadas, a ponta de um corno da cidade.



Atenção: este gajo não está a saltar para as Piscinas Picornell




Além desses dois húmidos equipamentos, o “Anillo Olímpico” (este nome é tão pornográfico que até mete nojo mas, cariños, juro que não fui eu que o inventei) inclui ainda um conjunto de outras instalações desportivas das quais importa destacar o Estádio Olímpico, palco de variadíssimas actividades nos Jogos de 92, nomeadamente o espectacular momento em que um arqueiro acende a Pira Olímpica disparando uma flecha em chamas de um local tão distante que poderia ser incluído sem medo no conceito de “longe comó caralho”. Claro que as más línguas vieram logo dizer que o arqueiro tinha disparado para fora do Estádio e que a pira tinha sido acesa electronicamente, numa manobra de pura ilusão de massas combinada e ensaiada ao segundo. Apesar das más línguas estarem provavelmente correctas, desejo-lhes na mesma um destino à la João César Monteiro.


Antonio Rebollo prestes a “acender” a Pira Olímpica



De referir que o Estádio Olímpico de Montjuic foi construído há quase 100 anos e tinha pretensões a ser o palco principal dos Jogos Olímpicos de 1936. A candidatura foi perdida para Berlim mas, uma vez que a votação ocorreu antes da ascensão dos nazis ao poder, não me parece necessário que comeceis a apelidar de fascistas os ilustres membros do Comité Olímpico Internacional. Duvido, porém, que consigais resistir a chamar-me fascista quando vos disser que o brutalmente nazi Estádio Olímpico de Berlim mete num bolso das moedas o parente afastado de Barcelona. E que uns Jogos em Montjuic na década de 30 não teriam uma Riefenstahl atrás da câmara de filmar. Adiante, que a estética totalitária é um fantasma à solta no meu sistema nervoso central. Finalizo o relato da minha rápida penetração no “Anillo Olímpico” transmitindo o que senti quando vi a “Torre de Telecomunicaciones” plantada no local pelo Arquitecto Santiago Calatrava: puta que pariu o filho da puta do megalómano! Foi isto que senti e que até terei dito em voz alta perante o enorme piçalho circuncisado que o valenciano ergueu mesmo no meio do Anillo, quase de certeza apoiado em sapatas de fundação armadas com as pastas de arquivo das facturas relacionadas com as derrapagens orçamentais*****. 


 
“Enorme Piçalho Circuncisado”, também conhecido como
“Torre de Telecomunicaciones de Montjuïc”



Terminada a visita desci ao centro da cidade, comi um McQualquerCoisa, bebi uma cerveja ranhosa em frente a um dos candeeiros pretendidos, cocei os…, perdão, observei o fluxo da humanidade e, no final do dia, enfiei-me no comboio com destino à fronteira francesa. Passei por Figueres (terra do Salvador Dalí e do tal museu que me deixou saudades) e duas horas depois fui largado em Cerbère, já do lado francês, onde aguardei mais umas horas pelo outro coiso que me deixaria em Nice na manhã seguinte. A troca de comboios deveu-se à diferente bitola utilizada nos dois países (Ibérica em Espanha, Internacional em França), o que implica que entre Portbou (Catalunha) e Cerbère (Languedoque-Rossilhão) coexistam duas linhas diferentes. Poderia explicar esta treta com mais detalhe mas, uma vez que no recente debate sobre o TGV quase todos os portugueses se mostraram especialistas em bitolas, penso não ser necessário. Acrescento apenas que não me lembro de ter trocado de comboio na fronteira quando regressei. Tal pode ser explicado por ter sido efectuada numa das estações uma operação de ajustamento dos rodados das carruagens ou por eu me encontrar em tal estado de exaustão que tenha sido transportado ao colo de um comboio para outro depois de ter sido sodomizado por quatro revisores, dois maquinistas, um guarda-freio  e um chefe de estação. Esperemos que tenham ajustado o caralho dos rodados.     



* copyright ou o catano daqueles gajos do Canal Q

** a repetição desta frase provoca-me uma confusão de sentimentos, como se visse o Pedro Silva Pereira a engasgar-se com o meu James Martin's 30 anos. Por um lado parece-me que pode servir como um ponto de referência comum aos vários textos uma vez que eles são publicados em alturas diferentes. Por outro lado já estou farto dela e nunca mais a escrevo.     
[Obviamente também reflecte a influência (a sinceridade é muito bonita) que o ensaio do David Foster Wallace sobre o Federer exerce sobre a minha pena; a continuada repetição, no mesmo texto, da expressão "estilo moderno dos potentes jogadores de fundo do campo", não me tendo enjoado em relação ao autor, acabou por me enjoar em relação aos autores que nunca se tinham lembrado desse truque].

*** aqui devia escrever “comboio” mas ainda estou no início do texto e já escrevi “comboio” uma vez e “comboios” outra; podia escrever “locomotiva” mas estaria tecnicamente errado; podia escrever “meio de transporte sobre carris” mas ficaria ridículo; vou deixar o “coiso”. 

**** Belmiro, não sei o que esperas para reunir com o Alcaide.    

***** Estou em condições de afirmar, após ter visto ao vivo a sua obra na cidade de Valência, que a humanidade já não era sujeita a um gajo com tamanha mania das grandezas desde o tempo de Ramsés II. Dada a dimensão, as formas e os materiais usados nas suas construções, é até de estranhar que os desvios nos custos não sejam maiores. Mas devo acrescentar que existe uma surpreendente delicadeza nas suas pontes e no “Turning Torso” de Malmö que contrasta com o gigantismo da maioria das outras obras.