segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O meu inter-rail; 11º capítulo: "O sacana do convés, a mim não me convém, la la la la"



 



A despedida não foi fácil. Roma impressionou-me tanto que durante uns dias via tudo em tom ocre, como se a cor predominante da cidade me tivesse contaminado a retina. Apesar de lá ter chegado com uma brutal expectativa acumulada, fiquei mais perto de padecer do Síndrome de Stendhal (alterações psicossomáticas provocadas por uma overdose de beleza) do que do Síndrome de Jerusalém (alterações psicossomáticas provocadas por uma overdose de desilusão e decepção*).
Uma maneira interessante de fazer o desmame teria sido utilizar a Via Appia, a estrada que liga Roma a Brindisi desde o III século antes de Cristo. Desconfio até, que ao caminhar durante vários dias entre ciprestes, pinheiros e restos das cruzes dos homens de Spartacus, teria usufruído de uma real possibilidade de me transformar num homem santo. Curiosamente, ou nem por isso, nunca liguei pevas aos pinheiros em Portugal mas fico sempre fascinado com os pinheiros em Itália. Pode ser aquela coisa dos santos da porta que não fazem milagres, ou aquela outra da galinha da vizinha, historietas que não são mais do que uma abordagem popular à miopia psicológica que condiciona a relação dos seres humanos com as coisas que conhecem melhor. Ou, pior ainda, com as coisas que não conhecem de todo apesar de serem de visualização diária. Como quando reparamos num turista a olhar muito atento para uma casa na nossa cidade, casa essa que já tínhamos visto inúmeras vezes sem ter visto verdadeiramente vez nenhuma. Mas nisto dos pinheiros estou mais inclinado a justificar a discrepância com a técnica italiana da poda (não confundir com as actividades que decorrem nas festas organizadas pelo Berlusconi, pois nesse caso escreve-se com ph).   





A Via Nomentana desagua em Roma na antiga Strada Pia
    Também já vos falei da Via Flamínia, ide lá ver os apontamentos  




Apesar do chamamento da Via Appia, optei por percorrer esses 500 km no habitual comboio nocturno, poupando tempo** e custos de hotelaria. Recordo que o dia passado na capital italiana foi apenas um inevitável compasso de espera no percurso para Istambul, percurso esse que passava por Brundisium, a principal janela romana para o oriente.
Descobri nessa noite que as imediações das stazione ferroviarie di Roma não são os locais ideais para passear depois do ocaso (palavra poética, muito mais bonita que pôr-do-sol). Bastante frequentadas por sem-abrigo e por marginais de pequeno calibre, constituem excelentes opções de visita para as pessoas que têm a mania que são verdadeiros viajantes e que desejam fugir dos pontos turísticos. Como não sou desses, preferi procurar rufadeira dentro da estação e não nas redondezas da mesma. Para ser rigoroso, “rufadeira”, uma palavra portuense para designar comida farta e que me parece ainda mais popularmente genuína do que “tacho”, talvez não seja bem aquilo com que pude contar na maioria dos dias desta viagem.

Tratemos então, mais aprofundadamente, da pergunta que se impõe: nos anos 90 o que comiam os, lá vem o asqueroso termo novamente, interrailers ? E a resposta é: depende. Partindo do princípio que a maioria viajava com o dinheiro contado, podemos dividir essa maioria em dois grupos: os gajos e as gajas. Os primeiros comiam no McDonald's e, quando desesperados da repetição, faziam um intervalo de desenjoo num italiano barato. Os segundos (neste caso, as segundas) procuravam supermercados onde adquiriam fruta, iogurtes e ingredientes para a confecção de sandes. Chegavam até a comprar alfaces e tomates, as saudáveis! Por vezes havia gajos que se comportavam como gajas e gajas que se comportavam como gajos, mas não conheci muitos casos desses. Em relação à minoria que viajava com orçamento folgado, não tenho dados empíricos que permitam uma análise nem capacidade intelectual para desencantar conhecimento apriorístico sobre o tema (em resumo, só conheci tesos). Quanto à minha experiência gastronómica, se retirar os dias que passei em Istambul, onde comi bem e barato em restaurantes modestos, resumiu-se ao já referido binómio: Big Mac e Massa à Bolonhesa em italianos foleiros. O segredo para maximizar a utilidade da segunda opção, ainda assim mais cara do que a primeira, consistia em pedir muito pão. Este podia ser ingerido durante a refeição desde que se salvaguardasse um bom bocado para o final, que seria engolido após cumprir a sua função de lava-loiça.  

Não me recordo já do que comi nessa noite antes do embarque. Recordo-me sim, de uma forma quase dolorosamente perfeita, do estado lastimoso em que tinha os músculos das pernas e a região do cóccix, vítimas principais da minha ganância de turista. Também tenho bem presente a vontade que sentia de tomar um banho e de ter tido de me contentar com a lavagem da tromba nos lavatórios da estação. E de me ter visto grego para abrir o cacifo onde a minha mochila tinha passado o dia (sortuda, esteve à sombra, eu apanhei um escaldão que me lixei), o que me levou a pensar que a União Europeia, no meio de tantos milhares de directivas estúpidas que emite, se podia dedicar a emitir uma (igualmente estúpida, naturalmente) em que uniformizasse os mecanismos de abertura e fecho de todos os cacifos existentes em aeroportos, estações de comboio e centrais de camionagem***. Estourado, adormeci mal entrei no comboio e quando acordei, já com o sol a entrar pela janela do meu compartimento, estava tão próximo de Brindisi que nem arrisquei uma visita ao WC da carruagem. O dia que passei na cidade, a fazer horas para o ferry do fim da tarde, foi vivido sob o signo do desperdício de tempo. Não pesquisei, não procurei, não me informei. As poucas coisas que vi foram aquelas que se atiraram para a frente dos meus olhos no percurso entre a estação de comboios e o porto, onde aguentei várias horas em estado semi-letárgico. Soube depois que Brindisi tem alguns pontos de interesse e que Plínio o Velho**** a colocou entre as mais importantes localidades da península italiana. Paciência, não estava com paciência. Algumas viagens são tão cansativas que as pessoas só falam bem delas depois do regresso, quando já se encontram sossegadas no conforto do lar. E nesses momentos proclamam as saudades que sentem dos locais por onde passaram e o quanto se divertiram no espectacular passeio. Se as apanhassem a meio da viagem, no ambiente doentio de um aeroporto, afectadas por um daqueles achaques de cansaço provocados pela conjugação das longas caminhadas com as diferenças climáticas e com a troca dos sonos, era possível que aceitassem ser cobaias de uma qualquer perigosíssima experiência de teletransporte que lhes prometesse o sofá de casa em 5 minutos.

O ferry que me levaria até à Grécia (especificando especificamente, até à cidade de Patras) abriu as portas ao embarque muito antes da hora da partida, por forma a conseguir engolir os milhares de passageiros e as centenas de carros que transportaria no ventre (achava eu) durante as mais de 20 horas de navegação pelos mares Adriático e Jónico. Mas poucos minutos depois da abertura já a realidade das coisas chocava violentamente contra o meu focinho. Penso já vos ter dito que esta travessia me ficaria de borla, uma vez que o passe do inter-rail contemplava aventuras aquáticas nesta região (suponho que por causa das muitas centenas de ilhas gregas). O que não vos disse foi que a borla concedida implicava a renúncia a qualquer tipo de leito, assento, ou mesmo tecto. Os interrailers que esquecessem o ventre do navio, o nosso lugar era no dorso. Quando me apercebi que ia passar um dia inteiro no chão de um convés, primeiro sob o relento da noite que se aproximava e depois sob a inclemência do sol grego, pensei em atirar-me ao mar. Com a chegada dos outros desgraçados e a visão da respectiva “tenda” que se foi montando, animei ligeiramente. Os comes e bebes que instantaneamente forraram os sacos-cama (sacos-cama que, por sua vez, tinham previamente forrado o deck da embarcação) fizeram-me redescobrir o amor à vida. Aos meus leitores que estão neste momento a questionar a minha imprevidência e falta de planeamento, baseando essa postura crítica na suposição de que teria sido fácil obter informações sobre as condições em que realizaria a travessia antes do início da mesma, tenho apenas um comentário: bardamerda. Cuidais vós que é bonito e avisado planear as putinhas das viagens ao pormenor e que dessa forma vos livrais de todas as surpresas desagradáveis e consequente mal-estar? Livrais-vos mas é o caralhinho. O mal-estar é parte integrante da existência e tentar fugir-lhe é como tentar escapar por entre as gotas da chuva. Nas viagens, como na vida, há apenas que optar pelo tipo de mal-estar que julgamos preferível. Podemos não nos preocupar com nada e acabar trucidados pelos acontecimentos ou, em alternativa, podemos preocupar-nos com tudo, controlar os acontecimentos, e acabar trucidados pela ansiedade. Pensai nisto e até à próxima.  




* não conheço Jerusalém e por isso não sei se é justo que a patologia em causa - uma desilusão doentia provocada por uma realidade que não corresponde às elevadas expectativas previamente acumuladas - leve o seu nome. No entanto, sabe-se que os serviços de saúde mental da cidade recebem uma média de 10 pessoas por mês gravemente atormentadas com a diferença entre a cidade que está à frente dos seus olhos e a cidade “celeste” que idealizaram antes da visita.


** o tempo, sempre o tempo. Qual é, afinal, a verdadeira duração de uma hora, visto que algumas passam a correr e outras se prolongam ad nauseam (em certos dias, as que passo no trabalho são desesperadamente eternas). Gostava de recorrer à Recherche de Proust ou à obra de Bergson para dissertar sobre a ilusão, subjectividade e relatividade do tempo, ou seja, sobre o carácter metafísico da duração. E não é por nunca ter lido nem um parágrafo de um ou de outro que não o conseguiria fazer. Mas fiquemo-nos por exemplos simples: quando a mulher diz ao marido “depois hás-de ver aquela torneira que está a pingar”, está a associar a palavra “depois” a um intervalo de tempo compreendido entre os 5 e os 50 segundos, enquanto o destinatário da mensagem está a idealizar um intervalo de tempo situado entre os 5 e os 50 dias. O facto de Proust ter conseguido escrever os seus livros sem ter vivido estas interessantíssimas experiências conjugais (era homossexual), ilustra bem as suas superiores capacidades intelectuais.


*** estimo ter gasto 3% da duração do meu inter-rail a ler instruções de cacifos, outros 3% a enfiar-lhes murros e à volta de 5% a explicar aos seguranças das estações que estava tudo bem comigo e que tinha sido uma fúria passageira que não se repetiria (com excepção da Grécia, em que os seguranças me ofereceram a sua solidariedade e também quiseram atestar no irritante cubículo).


**** um gajo que respeito, apesar de ter sido nabo o suficiente para ir a correr ver de perto a erupção do Vesúvio e acabar morto pela mesma. Plínio o Velho era daquele tipo de pessoas tão curiosas que, vivendo nos dias de hoje, pararia o carro na estrada para ver um acidente e trataria de se colocar na posição perfeita para ser atropelado. Plínio o Novo, mais fino, ficou a ver ao longe enquanto tirava notas, deixando às gerações futuras um registo valioso sobre vulcões e um testemunho interessante sobre as virtudes da prudência (apesar deste episódio singular entre Plínios, continuo a acreditar na relação directa entre vetustez e sabedoria, e no insubstituível papel de um ancião na corrente de transmissão geracional. É uma crença baseada na experiência pessoal. Passei uma grande parte da infância na companhia da geração sénior da minha família. As avós (materna e paterna) deram-me o mimo que é de lei, os avôs ensinaram-me umas coisas. O avô paterno, habitante de uma casa de lavoura de um meio rural, ensinou-me a vindimar, a cavar, a regar, a dar de comer a bichos, a armar ratoeiras, a rachar lenha, a serrar e a pregar, além de me deixar andar no carro de bois e de me dar boleia no quadro da bicicleta; o avô materno, habitante de um apartamento de um meio urbano, ensinou-me a ler o jornal, a jogar damas e xadrez, a escrever à máquina, a engraxar sapatos até estarem a brilhar, a ouvir música com mais de 100 anos e a estar longas horas sentado num sofá sem ficar irrequieto. Curiosamente, o avô rural e o avô urbano viviam a uma dúzia de quilómetros um do outro, uma vez que nos anos 80 bastava andar uma dúzia de quilómetros para chegar de uma qualquer livraria da baixa do Porto a uma qualquer eira de pedra na Maia ou em Vila do Conde. Nos dias de hoje tudo mudou e já é preciso andar para aí uns 15).     



sexta-feira, 25 de julho de 2014

O meu inter-rail; 10º capítulo: Popolo, Popolo, Popolo




Tentei explicar, nos capítulos 7, 8 e 9 (clique no “7” para ser reencaminhado para a Estação de Termini; no “8” para visitar uma rua onde moram três beldades; no “9” para se chocar com o péssimo trabalho da APRe! - Associação de Aposentados Pensionistas e Reformados da Dra. Maria do Rosário Gama), de que forma utilizei as primeiras horas do período de 14 que tinha disponíveis para fazer o que me apetecesse em Roma. Deixei-vos na Via Vittorio Veneto, perto da Villa Borghese, cujos jardins atravessei em seguida até à íngreme encosta do Pincio. Desse ponto alto pude observar aquela que é para mim a mais bela praça da cidade, a Piazza del Popolo. Neste momento sinto já o indisfarçável ódio de alguns de vós, prontos para me atirarem à cara nomes de outras praças romanas que são na vossa opinião incomparavelmente mais bonitas, ou mais elegantes, ou mais românticas, ou mais típicas, ou mais outra merda qualquer do que a minha Piazza del Popolo. No entanto, apesar de respeitar imensamente as vossas opiniões e sentimentos, é com pesar que vos informo que a mais bela praça de Roma é (pausa para dar ênfase) a Piazza del Popolo. E consigo sustentar esta minha absoluta convicção apenas naquilo que podemos ver sob a sujeição dos elementos, não levando em consideração nada que se encontre debaixo de qualquer tecto, como por exemplo as pinturas e esculturas de Caravaggio, Carracci e Bernini que se encontram nas Capelas da Igreja de Santa Maria del Popolo ou os interiores do Café Rosati* e do seu rival Café Canova**.
Esta praça, uma grande elipse*** centrada por um obelisco egípicio (devem existir mais obeliscos egípcios em Roma do que em qualquer outra parte do mundo, Egipto incluído****), era um verdadeiro hall de entrada para os muitos viajantes que chegavam à cidade percorrendo a Via Flamínia. E cumpria com eficácias as funções de um hall, distribuindo as pessoas pela urbe através de um tridente encabeçado pelas “igrejas gémeas”.




Via del Babuino (à esquerda), que conduz ao Quirinal através da Praça de Espanha 
Via del Corso (ao meio), que conduz à Praça Veneza e ao Capitólio
Via di Ripetta (à direita), que conduz à zona da Praça Navona através do antigo porto fluvial, do Mausoléu de Augusto e do Ara Pacis




Como apressado turista ranhoso que era não resisti a ser distribuído pela rua da esquerda, atraído pela fama da escadaria da Praça de Espanha e pelo quarteirão das lojas de luxo. Se fosse agora, que sou um descontraído viajante com estilo, deixar-me-ia distribuir pela rua da direita e caminharia em direcção ao antigo Porto di Ripetta e às marcas deixadas pelo divino Augusto: o seu mausoléu e o seu altar de consagração à pax romana, sabiamente instituída através da distribuição de maciças doses de bordoada. Também a mim me apeteceu utilizar os métodos de Augusto, para instituir a paz nos tumultuosos locais que visitei de seguida, nomeadamente a Praça de Espanha, o Panteão e a Praça Navona.
Salvou-se a Igreja de Santo Inácio de Loiola, onde pude admirar em relativo sossego o ilusório tecto “sem fim” e a “cúpula”, quase tão falsa como os funcionários do Estado que justificam as greves com a defesa dos serviços públicos e dos seus respectivos utentes. Também não fui muito esmagado por pessoas de olhos em bico na Basílica de Santo Agostinho e consegui, olhando para a Madonna dos Peregrinos, perceber mais ou menos as ideias de Caravaggio: representar tudo, até motivos religiosas, através de seres humanos normais, não idealizados, utilizando como modelo a populaça da rua, putas incluídas. Unhas com lixo, dentes podres, pés sujos e calejados e rugas vincadas são acolhidos na tela de braços abertos e sem hesitar muito para não atrasar a obra. Caravaggio gostava de trabalhar rápido, precisava de tempo livre para se embebedar, armar confusão, andar à porrada, frequentar rameiras, ser preso com regularidade. “Putridum et foetidum”, pútrido e fétido, baptizaram-no os Cavaleiros da Ordem de Malta depois de o enfiarem, uma vez mais, num calabouço. Claro que conseguiu, uma vez mais também, fugir, mas apenas para morrer novo, como era de esperar. Avancemos… 
 


Madonna dos Peregrinos - pormenor



Sem tempo para experimentar o melhor cappuccino da cidade (Caffè Sant´Eustachio, perto do Panteão), nem o célebre tartufo do Tre Scalini (na Navona), nem a melhor pizza do mundo (Pizzeria da Baffetto*****, perto da Navona), nem a segunda melhor pizza do mundo (La Montecarlo, perto da Navona, propriedade dos filhos dos Baffettos), nem a terceira melhor pizza do mundo (propriedade dos netos dos Baffe… foda-se, estou a brincar, os netos dos Baffettos não têm nenhuma pizzeria; vocês acreditam em cada merda que não lembra nem ao diabo!), avancei para o Corso Vittorio Emanuele II, que percorri em quatro actos: o acto de ir ver os gatos que habitam as ruínas milenares do Largo di Torre Argentina, acrescido dos três Actos da Tosca de Puccini. Muito resumidamente, dá-se início à “obra” na Igreja de Sant'Andrea della Valle, faz-se um ligeiríssimo desvio à esquerda até ao Palácio Farnese e, para terminar, retorna-se ao corso e caminha-se até ao seu final. Aí, já com a visão do Tibre e do Castelo de Sant'Angelo, imagina-se um céu nocturno com estrelas a brilhar e um gajo com boa voz a cantar isto:




(Di Stefano naquela que é, na opinião dos entendidos e também na minha, a melhor gravação da Tosca de todos os tempos)




(aqui é Pavarotti que interpreta Mário Cavaradossi, o pintor que aguarda pelo fuzilamento no Castelo de Sant'Angelo; um grande artista, o tenor dos plebeus)



Terminados os três Actos e limpas as lágrimas, caminhei do Castelo até São Pedro pela Via della Conciliazione, mandada rasgar por Mussolini pelo meio do antigo casario. O choque que os peregrinos aparentemente sentiam quando se libertavam das ruelas e viam o gigantismo da Basílica, da Praça e da Colunata desapareceu com a abertura da nova via “fássista”, uma vez que tudo isso passou a ser perfeitamente visível a mais de meio quilómetro de distância. Dando como quase certo que a surpresa, a admiração e a sensação de esmagamento eram os objectivos que o teatral Bernini pretendia alcançar com os arranjos exteriores de São Pedro, podemos concluir que o Benito fodeu tudo. Literalmente…


Antes de o Benito foder tudo


Enquanto o Benito fodia tudo


Enquanto o Benito fodia tudo


Depois de o Benito foder tudo


Felizmente, todas essas emoções aparecem um pouco mais tarde quando se ultrapassa a porta da basílica, pelo que também eu terei ficado com cara de parvo e de pasmadinho diante dos mais de 200 metros de comprimento do templo. Lembro-me de ter ficado a pensar se um camião TIR conseguiria fazer inversão de marcha na nave principal, se as pias de água benta teriam tamanho suficiente para dar um mergulho, e se seria possível alojar a Torre dos Clérigos debaixo da cúpula e a Igreja da minha freguesia debaixo do baldaquino. A resposta foi sim a tudo, com excepção do mergulho nas pias (mas apenas por uma questão de poucos centímetros). A vontade de humilhar pelo tamanho é de tal ordem que o chão da basílica está preenchido com marcas que indicam onde se situariam as portas de várias outras catedrais do mundo se os seus altares-mor coincidissem com o altar-mor de São Pedro. Por exemplo, só quando vamos mais ou menos a meio da nave principal é que nos aparece a marca da Notre-Dame de Paris, o que significa que poderíamos lá enfiar duas. Embrulha, corcunda…
Foi o Papa Júlio II que lançou este empreendimento descomunal mas o que lá vemos hoje tem pouco a ver com os planos iniciais de Bramante, o primeiro arquitecto que lá trabalhou. Se olharmos para os seus projectos da basílica e principalmente para o Tempietto, o pequeno templo da sua autoria que se encontra na colina do Janículo, a poucas centenas de metros do Vaticano, percebemos rapidamente duas coisas acerca de Donato Bramante: leu exaustivamente os livros de arquitectura de Vitrúvio e era daquelas pessoas que medem e acertam as pontas dos atacadores antes de os apertarem. Não querendo com isto dizer que a sua mente clássica não poderia por si só justificar a perfeição extrema da obra, a correcção das proporções, a precisão matemática, o equilíbrio dos componentes e a harmonia geométrica, parece-me claro que a monumental tara pela simetria só pode ser explicada por uma neurose obsessivo-compulsiva.  




Tempietto - a obra de Bramante 

 


Projecto da Basílica de São São Pedro em cruz grega – o sonho de Bramante




Simetria - o pesadelo de Bramante


Antes de abandonar o território papal, ainda tive a oportunidade de me rir como um perdido perante a dimensão da fila de entrada nos Museus do Vaticano e de chorar como um desalmado quando soube o preço da garrafa de água que tinha acabado de comprar para tentar sobreviver à canícula. De São Pedro segui para a “Roma antiga” - Capitólio, Palatino, Célio e Aventino - mas não vos vou maçar com conversa de ruínas uma vez que pretendo causar-vos esse transtorno quando chegarmos à Grécia. Do meu dia romano guardo acima de tudo, nunca é demais repetir, a beleza da Piazza del Popolo. Gosto de pensar que o próprio Fellini percorreu a Via Flamínia e entrou em Roma pela primeira vez através desta praça. É que o excêntrico realizador nasceu em Rimini, a cidade situada no outro extremo dessa antiga estrada romana. Infelizmente, pela lei das compensações, a terra que viu nascer o monstro italiano da arte de filmar foi também a terra que viu morrer o monstro italiano da arte de pedalar. Sim, falo de Marco Pantani, um gajo que andava de bicicleta, mas que não era nada cínico, ao contrário do Edgar Novo, a quem dedico este texto.

(continua)



* tendo ouvido dizer que era no Café Rosati que se reuniam os intelectuais de esquerda consegui confirmar que este era frequentado por Italo Calvino, Pasolini e Alberto Moravia.

** tendo ouvido dizer que era no Café Canova que se reuniam os intelectuais de direita consegui confirmar que este era frequentado pelo Federico Fellini. Não consegui foi confirmar se podemos considerar o Fellini como um homem de direita! Embora também duvide que alguém consiga confirmar se podemos considerar o Fellini como um homem de esquerda.

*** na gravura de Piranesi (1720-1778) que vemos no início do texto a piazza ainda não tinha a sua aparência actual, apresentando-se com um austero formato trapezoidal. Foi muito provavelmente o desenho elíptico que Bernini atribuiu à Praça de São Pedro que inspirou a sua posterior renovação.    

**** sem querer ser exaustivo, ficam aqui alguns dos obeliscos roubad… digo, emprestados pelos egípcios aos seus amigos romanos: Obelisco di Dogali (Termas de Diocleciano), Obelisco Macuteo  (Panteão), Obelisco Flaminio (Piazza del Popolo), Obelisco Lateranense (Basílica de São João de Latrão), Obelisco della Minerva (o que está em cima do elefante, nas traseiras do Panteão), Obelisco Vaticano (Praça de São Pedro). Note-se que alguns dos obeliscos antigos que podemos ver em Roma, como por exemplo os que se encontram na Praça Navona, no Quirinal ou na scalinata da Praça de Espanha, não vieram do Egipto, sendo apenas cópias mandadas erigir por romanos com segmentos de ADN provenientes de macaquinhos de imitação.

***** nesta fotografia tirada numa muito posterior viagem a Roma podem ver o sacana do Baffetto agarrado à minha mulher! Em troca de uma boa pizza um gajo até faz de corno manso.




sexta-feira, 6 de junho de 2014

O meu inter-rail; 9º capítulo: vida doce mas não é para todos




Uma arena engalanada de leões sob o olhar vidrado de um Imperador mais ou menos louco (mas sempre sádico) é provavelmente a primeira imagem em que pensam quando vos perguntam acerca de filmes passados em Roma. Se vos disserem que não se podem valer do género cinematográfico peplum, talvez comecem por enviar o vosso interlocutor para o caralho a mais a sua snobeira intelectual, mas, depois de vos ser explicado que um peplum é apenas um filme “espada e sandália” que retrata temas bíblicos ou da Antiguidade, é possível que se acalmem e se lembrem de algumas cenas mais contemporâneas que utilizaram igualmente Roma como pano de fundo. Sem me querer meter na vossa vida, suponho que a memória vos transmitirá, pelo menos, as imagens de uma inocente Audrey Hepburn a passear de scooter nas suas “Férias em Roma” e de uma libidinosa Anita Ekberg a viver “La Dolce Vita” numa majestosa fonte da cidade.
Visitadas as três beldades da rua (Capela Cornaro, San Carlino e Sant´Andrea, caso se tenham esquecido) e não me conseguindo livrar das vulgares tentações do turista, puxei o lastro da curiosidade através do Quirinal*, tomando a direcção dessa famosíssima fonte feita chuveiro pela audácia da voluptuosa loira.



Acqua di Trevi


Anita Ekberg em 2010 ao lado de um fotograma do filme de 1960. É a puta da vidinha…


Roma é uma cidade permanentemente cheia de visitantes espalhados por todos os cantos. No entanto, a concentração de pessoas por metro quadrado junto da Fontana di Trevi é certamente a maior com que nos podemos deparar. É possível que a Capela Sistina sofra de uma enchente semelhante durante as nove ou dez horas em que está aberta ao público mas a obra de Nicola Salvi**, situada num local aberto e não sujeito a horários, consegue ser mais ou menos insuportável durante as vinte e quatro horas do dia. Toda a gente quer visitar a fonte. Paradoxalmente, devido à tradição da treta de atirar a moedinha por cima do ombro, o principal intuito da visita é virar-lhe o rabo.



Na famosa cena do filme de Fellini, o jornalista cor-de-rosa Marcello está tão embasbacado com a actriz Sylvia que fica quase paralisado, não lhe conseguindo tocar. Pelo contrário, o namorado da actriz, pensando que já era corno quando na realidade era apenas meio-corno, consegue posteriormente tocar bem nos dois, presenteando a loira com uma lostra bem assente e o galã com um pêro no focinho. Essa cena de violência, assim como uma grande parte do filme, tem lugar na Via Vittorio Veneto (a poucas centenas de metros da fontana), a agitada rua onde os aristocratas e os famosos se reuniam em descarada esbórnia. Estamos nos finais da década de 50, a miséria do pós-guerra já vai longe e Roma encontra-se invadida por estrelas de Hollywood que gravam os seus filmes nos estúdios da Cinecittà.



Judah Ben-Hur e Messala a caminho da Cinecittà (1958)


A Via Veneto que vemos em “La Dolce Vita” é um caótico corrupio festivo de burgueses, gajas meio-sérias / meio-putas (dependendo do ponto de vista sobre a questão copo meio-cheio / meio-vazio), cronistas sociais e paparazzi em alegre disputa pelo óscar da decadência. A Via Veneto que percorri no meu dia romano mostrou-se, com grande pena minha, uma rua trivial escassamente povoada por alguns turistas endinheirados. Até a vontade que levava de estourar uns milhares de liras*** numa das esplanadas, tentando simular com uma cerveja a pervertida elegância que Fellini conseguiu transmitir, se dissipou na aridez do local. Felizmente, venturosamente, ditosamente e afortunadamente, quando caminhava entre a fonte de Trevi e a Via Veneto tive a sorte de passar (não sei se já tinha referido que foi por sorte) pelo local onde o infeliz colador de cartazes do filme “Ladrões de Bicicletas” corre atrás do ladrão que lhe acaba de roubar a, adivinharam, bicicleta.



Antonio Ricci a tentar apanhar o ladrão; acabará por entrar no túnel Umberto I sob a colina do Quirinal


Encontrar um dos locais cruciais de filmagem da obra-prima neo-realista de Vittorio De Sica a meio caminho entre dois dos locais cruciais de filmagem da obra-prima inclassificável de Federico Fellini foi como descobrir um osso de frango no meio de um esturjão beluga. Ambos os filmes retratam a desgraça mas, a não ser que encaremos a questão sob o ponto de vista do “Sermão da Montanha” e da bem-aventurança da pobreza, a desgraça opulenta em que mergulha a personagem interpretada por Marcello Mastroianni parece mais agradável do que a desgraça desgraçada em que vive a família Ricci. “Ladrões de Bicicletas”, apesar do notório esforço do realizador, nunca provocou grande enternecimento no meu coração de pedra com cobertura de gelo e limalha de ferro. No âmbito da problemática da crise económica e miséria social que o neo-realismo de De Sica pretendeu denunciar (este “de” seguido de “De” é magnífico; e o novo “de” que ainda consegui incluir na explicação?!), nada me consegue comover tanto como a história de Umberto D., o velhinho acompanhado de um cãozinho (tudo neste filme deve acabar em “inho”, sem dúvida), que recebe uma pensão tão baixa que nem sequer dá para pagar o quarto (a senhoria é uma cabrazinha, naturalmente), e que deambula pela cidade de Roma (Panteão, Piazza del Popolo, praça do “Elefante e Obelisco” do Bernini, etc.) em contido desespero.



Umberto D., envergonhado, ensina o cãozinho a pedir por ele em frente ao Panteão


Onde está a APRe! - Associação de Aposentados Pensionistas e Reformados da Dra. Maria do Rosário Gama quando é preciso, caralho?! Choro baba e ranho sempre que vejo este filme, é preciso fazer alguma coisa pelo senhor antes que se me amoleçam as entranhas.

(continua)
(quando voltar espero que já tenham visto o Umberto D., é só ir ao youtube)



* onde se encontra o Palácio de Belém lá da terra

** Nicola Salvi foi um dos arquitectos italianos contratados pelo despesista D. João V para a construção da Capela de São João Baptista. Depois de ter sido montada e exposta em Roma foi novamente desmontada e enviada por navio para Lisboa com vista à sua instalação definitiva na Igreja de São Roque. Consta que o orçamento inicial foi largamente ultrapassado, tendo atingido o valor que normalmente atribuímos aos olhos da cara.      

*** uma lira italiana valia dez vezes menos do que um escudo português e nos anos 90 podíamos ver a cara de Bernini nas notas de 50 000, a de Caravaggio nas de 100 000 e a de Rafael nas de 500 000 liras. Quereriam com isto os italianos fazer juízos de valor e estabelecer termos comparativos? Penso que não, mas vou aproveitar a deixa para entrar nessa pantanosa tarefa de comparar qualitativamente artistas, uma actividade que consegue ser ainda mais ridícula do que andar a fazer comparações métricas (é mais centimétricas) no balneário do ginásio.

Seguindo a proporção monetária das notas de lira, não me é difícil escolher a dedo uma obra de Caravaggio que me mereça o dobro da admiração de uma obra de Bernini seleccionada da mesma forma:



“Relicário da Cátedra de São Pedro” (1653); Bernini; Basílica de São Pedro
Não sei porquê mas não gosto muito disto, merece-me x admiração


“A Vocação de São Mateus” (1600); Caravaggio; Igreja de São Luís dos Franceses
Foda-se, espectacular, merece sem dúvida 2 x da minha admiração 


O problema é que também consigo fazer o inverso:


“A cigana que prevê o futuro” (1594); Caravaggio; Museus Capitolinos
Obra muito importante que revolucionou blá blá blá. Não gosto, leva uma admiração de x


Pormenor de “O Rapto de Proserpina” (1622); Bernini; Galleria Borghese
Vejam bem este apalpão no mármore! Melhor escultura de sempre! 284 x da minha admiração


Acho que já perceberam o meu ponto de vista, ide medir pilinhas que é menos embaraçoso.

 

terça-feira, 20 de maio de 2014

“Prometo que só faço promessas em que prometendo, não prometo”




- Plebe, o teu marido não te merece, trata-te abaixo de cão e faz-te viver na miséria. Deixa-o e foge comigo.

- Tens razão, Tó-Zé, o Pedro tem sido um escroque e já estou cansada dele. Tu pareces diferente, podes prometer-me que serás bom para mim? 

- Sabes que não gosto de fazer promessas que não tenha a certeza de poder cumprir.

- Mas, não entendo! Quando o acusas de me insultar (com reduções de salários), de me bater (com aumentos de impostos) e de me fazer viver na miséria (com cortes no Estado Social), não estás implicitamente a prometer que não me vais insultar, não me vais bater e não me vais fazer viver na miséria?

- Não, nem por sombras, estou apenas a acusá-lo de te insultar, de te bater e de te fazer viver na miséria.  

- Mas não és contra isso, Tó-Zé?

- Claro que sou, acho inadmissível e desnecessário. Uma autêntica vergonha.

- Então, quando eu o abandonar e casar contigo, tudo isso fará parte do passado.

- Sim, Plebe, fará parte do teu passado com o Pedro.

- Sendo assim, posso ter a certeza que no futuro vou deixar de ouvir insultos, de levar na cara e de viver na miséria, certo?

- Isso não te posso prometer. 

- Como assim?! Podes garantir que és contra essas coisas mas não podes garantir que acabas com elas?!

- Repara, eu não sei em que estado te vou receber como minha mulher. Não sei se o Pedro te vai deixar em condições objectivas de não ouvires insultos, de não levares na cara e de não viveres na miséria. Fazer promessas neste contexto seria de uma enorme irresponsabilidade e contribuiria para desacreditar ainda mais a instituição do casamento.  

- Mas se não conheces as tais condições objectivas, em que te baseias para considerares inadmissível e desnecessário que o Pedro me insulte, me bata e me faça viver na miséria?

- Baseio-me no carácter completamente imoral desses três actos.

- Actos que não podes prometer não vir a praticar.

- Exacto.

- Apesar de os considerares indecentes e imperdoáveis.

- Ora nem mais.

- Posso então concluir que no nosso casamento vais dizer: “eu, Tó-Zé, recebo-te por minha mulher a ti, Plebe, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida, caso existam condições objectivas para ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida. Caso não existam condições objectivas para ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida, terei de me comportar de outra maneira, embora considere essa outra maneira inadmissível, desnecessária, imoral, indecente e imperdoável.”

- Sem tirar nem pôr. Diz lá se conheces alguém tão honesto como eu...

- Oh meu amor, bem dizia o Nelson Rodrigues, é preciso muito cinismo para se chegar às bodas de ouro.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

O meu inter-rail; 8º capítulo: Claudia Cardinale, Sophia Loren e Valeria Golino na mesma rua



Strada Pia = Via del Quirinale + Via XX Settembre



Um bom local para um viajante sem pressas iniciar uma visita a Roma seria o Palatino, pois foi aí que a loba encontrou os dois irmãos que tinham sido atirados ao Tibre dentro de um cesto de ahhhhhhhh..., vime (não resisti à graçola estúpida, peço perdão). Como eu era apenas um turista apressado, fiz por esquecer os relatos de Tito Lívio e de Virgílio, e lancei-me com unhas e dentes sobre os alvos mais próximo de Termini que havia marcado no meu guia de viagem: a Igreja de Santa Maria della Vittoria com a sua famosa Capela Cornaro, a Igreja de San Carlo alle Quattro Fontane (San Carlino para os amigos) e a Igreja de Sant´Andrea al Quirinale. O facto destas três pérolas se encontrarem em fila, na mesma rua e a meia dúzia de passos umas das outras, é uma daquelas coisas muito habituais nesta cidade, como se a Claudia Cardinale, a Sophia Loren e a Valeria Golino* vivessem no mesmo piso do mesmo prédio. Com as vantagens adicionais de terem entrada gratuita, abrirem cedo e fecharem tarde. Falo das Igrejas, claro**. Outra curiosidade prende-se com a ordem em que estão dispostas ao longo da antiga Strada Pia: a obra de Borromini, San Carlino, encontra-se no meio, como que encravada entre as duas preciosidades de Bernini, Sant´Andrea e a Capela Cornaro. Também na vida real, e durante cerca de uma década, Borromini foi totalmente encravado pela fama e voracidade de Bernini, tendo-se sujeitado a ser um mero ajudante da estrela principal do universo artístico romano, um conhecido eucalipto que tudo secava à sua volta. Uma injustiça enorme de que nos apercebemos mal pousamos o olhar naquela fachada ondulada e sinuosa, desenhada por linhas que parecem mover-se e construída com pedras que delicadamente se ajustam em sucessivas curvas e contracurvas.



San Carlino, as tuas curvas deixam-me louco



O barroco de Borromini é sensual, vive da tensão entre linhas rectas, côncavas e convexas. Não fora o pequeno detalhe da letra “n” na palavra “tensão” e seria pura sexualidade bem resolvida. E quando me apercebi do espaço minúsculo onde o arquitecto foi obrigado a encaixar San Carlino, não consegui deixar de soltar um elogioso comentário técnico: “puta que o pariu!” Na verdade, o dia que passei em Roma foi preenchido com duas frases alternadas e repetidas à exaustão: “puta que o pariu”, quando olhava para determinada obra e pensava no seu autor, e “puta que os pariu”, quando tentava atravessar a rua. Mas regressemos à antiga Strada Pia e entremos em Santa Maria della Vittoria, a mais extravagante Igreja da cidade, para uma reflexão sobre a capela edificada por Gian Lorenzo Bernini.
A obra do mais importante escultor do barroco é omnipresente na cidade. Atropelando quem lhe aparecia pelo caminho o homem ia a todas, pelo que não há nenhum canto de Roma em que não tropecemos numa escultura, fonte, túmulo, altar, capela, igreja, praça ou palácio da autoria do grande mestre e eucalipto seiscentista. Desde o pontificado de Paulo V trabalhou para meia dúzia de Papas, tendo sido o menino bonito de dois deles: Urbano VIII, da família Barberini e Alexandre VII, da família Chigi. Não por acaso tratou de fazer os seus grandiosos túmulos em locais privilegiados da Basílica de São Pedro. É verdade que pelo meio apanhou com o Papa Inocêncio X mas este, mesmo não gostando da sua cara nem do seu muito dispendioso perfeccionismo, não lhe cortou totalmente as encomendas, muito embora o tenha colocado sob um forte programa de austeridade.
 


Papa Inocêncio X
Diego Velázquez, 1650





Inocêncio X depois de ter recebido a conta de uma obra de Bernini 
Francis Bacon, 1953



Foi precisamente durante o período em que o Papa da família Pamphilj o sujeitou a uma dieta de obras que os Cornaro abriram os cordões à bolsa e lhe entregaram o projecto da Capela familiar. Com tiques de governantes portugueses pré-troika, não incomodaram o artista com restrições financeiras, deixando-o dar largas à imaginação. Bernini, que adorava trabalhar dessa forma e que teria desenhado com todo o gosto uma EB 2 3 para a Parque Escolar do Eng. Sócrates, consolou-se.
A peça central da Capela Cornaro é a muito conhecida representação do êxtase de Santa Teresa. A estátua apresenta-nos Teresa de Ávila a deleitar-se em espasmos no momento em que um Anjo a trespassa com uma lança. Segundo o relato da própria foi tão grande a dor que até gritou mas, ao mesmo tempo, sentiu tanta doçura que desejou que a dor continuasse para sempre. “Deus satisfazia-me a alma e deixava-me toda em fogo”, escreveu a Carmelita Descalça no seu diário, dando azo a que Bernini se esticasse até ao atrevido resultado final.




É mais ou menos consensual que o artista esculpiu a Santa a (Deus nosso Senhor me perdoe) vir-se. E intensamente, que até os dedos dos pés se mostram contraídos diante das caras de parvo dos visitantes, num daqueles reflexos involuntários cuja ausência denuncia as simuladoras de orgasmos. O irónico Stendhal, nas suas Promenades, caracteriza a escultura como “divina arte”, mas coloca na boca de um monge que o acompanhava as seguintes palavras: “é grande pecado que estas representações possam dar a ideia de um amor profano”. Este “possam dar a ideia”, escrito pela pena de Stendhal, consegue ser ainda mais perversamente explícito que o meu “cesto de ahhhhhhhh..., vime”. Até os membros da família Cornaro, que Bernini colocou numa espécie de camarotes de teatro esculpidos nas laterais da Capela, parecem interrogar-se se estão mesmo a ver aquilo que parece que estão a ver.




"Oh primo Cornaro, o êxtase da tua mulher também é assim?!"



Bernini voltou ao tema na Igreja de San Francesco a Ripa, no bairro romano do Trastevere, extraindo do mármore uma Beata Ludovica Albertoni em preparos semelhantes. Eduardo Pitta, nos seus Cadernos Italianos (colecção de literatura de viagens da, vénia, Tinta da China, coordenada por, vénia mais pequena uma vez que é benfiquista, Carlos Vaz Marques), chama-lhe “uma escultura da época pré-porno”. Como os pés da Beata estão tapados, prefiro não me pronunciar definitivamente sobre o carácter desta obra.



Atenção: esta escultura não é o "Êxtase de Santa Teresa" nem se encontra na Igreja de Santa Maria della Vittoria




Antes de dar por encerrado este capítulo chamo a vossa atenção para a manha artística de Gian Lorenzo Bernini e recordo-vos que no século XVII não existia electricidade.



Capela Cornaro e o vitral superior: de onde vem a luz amarelada
 que ilumina o divino orgasmo de Teresa de Ávila?




Corte transversal: é por ali que a luz entra




O exterior da Igreja com a janela "falsa" construída por Bernini por baixo do vitral



Observai e aprendei. Até à próxima.


* hesitei entre a Valeria Golino e a Ornella Muti para esta terceira posição mas a visualização em sala do filme Hot Shots com a idade de 14 anos fez pender a balança para a napolitana. Admito, no entanto, que a Ornella Mutti tenha sido prejudicada pelas reduzidas dimensões da minha televisão caseira no período crítico em que, esgaramanteando laustríbias (expressão felicíssima de Alexandre O’Neill), me eduquei sentimentalmente.  

** atenção caro leitor: abrem cedo e fecham tarde mas, em derivado das tradições latinas, poderá dar com o nariz na porta em muitas delas entre o meio-dia e as quatro da tarde.