terça-feira, 24 de março de 2015

Falsas Lentas



A Polícia Judiciária acaba de abrir um concurso para recrutar 120 novos inspectores. Pelos vistos, embora nada o faça prever, a PJ está à espera uma grande onda de gatunagem em Portugal nos próximos tempos. É a vida, após tantos anos de honestidade generalizada, algum dia haveríamos de ser atingidos pelo fenómeno da criminalidade. Mas voltemos ao concurso. Sabendo da actual preocupação da sociedade com a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, resolvi analisar os requisitos exigidos aos candidatos dos dois sexos. E, para meu grande espanto, o processo de contratação pauta-se por uma enorme justiça e igualdade. Ora vejamos…
Para chegarem a inspectores da PJ, homens e mulheres têm de se submeter a um teste escrito de conhecimentos. Superado este, chega a hora de calçarem as sapatilhas (“ténis” é um desporto, seus morcões) e de mostrarem ao mundo as aptidões físicas através de provas de destreza, velocidade, resistência e força. E aqui começa a justiça do processo. Os homens devem saltar de pés juntos um comprimento mínimo de 225 centímetros, as mulheres podem ficar-se pelos 165; os homens têm de correr 2400 metros em menos de 12 minutos e realizar um percurso de velocidade em menos de 18 segundos, as mulheres dispõe de 14 minutos para a primeira dessas provas e de 21 segundos para a segunda; aos homens são exigidos 40 abdominais e 35 flexões de braços com apoio na ponta dos pés, às mulheres pedem-se 30 abdominais e 25 flexões com apoio nos joelhos; os homens precisam de ultrapassar uma pista de obstáculos em menos de 18 segundos, as mulheres precisam de percorrer a mesma pista em menos de 24.

Embora à primeira vista pareça existir uma forte discriminação entre os sexos, com claro prejuízo para o masculino, essa é uma análise precipitada e que não leva em conta a segmentação da ladroagem. Na verdade, existem gatunos rápidos e gatunos gordos que são mais lentos, bandidos ágeis e bandidos que já revelam problemas nas articulações, larápios resistentes e larápios fumadores que abafam após uma breve corrida, meliantes cheios de força e meliantes mais fracos devido à falta de vitamina D (é uma ocupação em que se trabalha muito à noite, ficando prejudicada a saudável exposição ao sol). Assim, perante cada caso concreto, a PJ destacará para o lugar da ocorrência uma brigada constituída por homens ou uma brigada constituída por mulheres. Se o episódio criminoso for protagonizada por um gangue heterogéneo, avança uma brigada mista e decide-se no local quem persegue ou quem luta com quem. Fica por isso claro que aquilo que parece ser um claro favorecimento do sexo feminino é, afinal, um mecanismo justo em prol de uma gestão moderna e eficiente dos recursos humanos. E os homens excluídos do concurso que conseguirem tempos melhores que algumas das mulheres aprovadas devem ficar contentes: uma vez que não há patifes em boa forma física que cheguem para tantos inspectores, acabariam desmotivados por terem de andar a correr atrás de balofos.      


quarta-feira, 11 de março de 2015

Uma praga para proteger a praga


Panos Kammenos, ministro do Governo da Grécia, ameaçou os líderes europeus com uma onda de milhões de migrantes gregos caso a Europa não ceda durante as próximas negociações com Atenas. É uma espécie de reposição das maldades bíblicas que Moisés fez ao faraó egípcio para proteger o seu bondoso povo, só que, em vez de rãs e gafanhotos, a praga invocada pelo protector Kammenos é formada pelo próprio povo bondoso que diz querer proteger. Tentando explicar este paradoxo com uma anedota do Joãozinho (a forma mais fácil de explicar qualquer coisa a qualquer português), seria como se o pai do Joãozinho dissesse à professora do Joãozinho: "ou deixa de escrever na avaliação do meu filho que ele é insuportável ou eu deixo-o em sua casa durante um mês que é para a senhora aprender.”

Este é só mais um caso que mostra que a ideia que o novo Governo grego tem sobre o povo que governa é surpreendentemente parecida com as generalizações abusivas e insultuosas feitas por estrangeiros carregados de preconceitos e por jornalistas-escritores com orelhas grandes e que piscam o olho no final do noticiário. Senão, vejamos: José Rodrigues dos Santos informou-nos, na RTP e a partir de Atenas, que a fuga aos impostos era uma modalidade muito apreciada por aqueles lados; logo lhe caíram em cima todos os membros da Associação de Amizade Portugal-Grécia. Passadas umas semanas o ministro Varoufakis propõe o recutamento de milhares de inspectores à paisana para tentar combater uma “cultura da fuga aos impostos que está muito enraizada na sociedade grega”; logo a Associação de Amizade Portugal-Grécia propõe que a estátua a erguer ao responsável pelas finanças helénicas passe dos anteriormente projectados 10 metros para a mesma altura do Cristo Rei de Almada. Fica a ideia de que as generalizações sobre os gregos apenas podem ser proferidas por homens sem gravata. E digo isto, evidentemente, sem querer generalizar.

quinta-feira, 5 de março de 2015

My God




Estava mais ou menos a meio do terceiro volume da “Recherche” (tinha iniciado a releitura da obra na véspera e sou um leitor vagaroso) quando, ligeiramente cansado, resolvi ligar a television. Primeiro, dada a algazarra e a teatralidade que reinavam no ecrã, pensei tratar-se de um documentário científico sobre a Perturbação Histriónica da Personalidade, mas percebi depois que era apenas o programa “O Eixo do Mal”. Passados uns minutos, no meio da confusão e do movimento de braços, consegui ouvir a Clara Ferreira Alves dizer que o nosso Presidente Cavaco Silva é um saloio. Infelizmente, como tenho passado muito tempo mergulhado na english language (estou a reler todo o Martin Amis, à razão de dois títulos por dia), nem sempre compreendo à primeira o linguajar do povo. Peguei então num dos meus 38 dicionários de Português e consultei a respectiva entrada. A primeira definição que encontrei afirmava que um saloio pode ser um habitante dos arredores de Lisboa, a norte do Rio Tejo. Excluí-a imediatamente. Cavaco é de Boliqueime e, embora ande um pouco baralhado geograficamente (passei os últimos anos numa correria entre Paris, onde terá lugar o meu próxi… primeiro romance, e as fronteiras israelo-libanesa, sírio-turca e turco-iraquiana, onde recolhi os dados necessários para escrever uma série de reportagens a publicar em edições especiais da “New Yorker”), penso que o Algarve fica a sul do Tejo. 

A definição que se seguia relacionava o saloio com o trabalho no campo, o que me deixou com algumas dúvidas pois é provável que o jovem Aníbal tenha dado à enxada em algum terreno da família. Mas isso foi há muitas décadas, antes de investir nos estudos e virar um white-collar worker. Clara Ferreira Alves, uma intelectual de esquerda, não estava de certeza a gozar com o passado de alguém que entretanto apanhou o tão elogiado “elevador social”. (e por falar em elevador, sabiam que li o último Houellebecq numa cabina de um hotel em New York, entre o lobby e o 20º piso? E que escrevi a crónica sobre o mesmo entre o 21º e o 38º, onde ficava o meu quarto? Às vezes até fico atónito com o meu cérebro tão espectacularmente culto! Mas voltemos ao nosso subject)  
Como da última vez que o vi não estava com o cabelo pintado de amarelo nem a gritar por cima das vozes dos outros, também não me parece que o Presidente de República encaixe na terceira definição presente no dicionário, segundo a qual um saloio é uma pessoa com falta de gosto e de educação. E foi assim, por exclusão de partes, que cheguei a uma surpreendente conclusão: a primeira-dama que se cuide, Clara Ferreira Alves acha o Cavaco Silva um pão.

O meu inter-rail; 14º capítulo: Partenon





Estilóbata, fuste, coxim, ábaco, arquitrave, métopas e tríglifos, cornija e frontão. De baixo para cima, ao som da concertina, eis os elementos do templo dórico que Aníbal Éter, ao torresmo do sol, viu com os que a terra há-de comer. Dizem que o mármore do Monte Pentélico com que foi construído o Partenon se incendeia com reflexos de ouro à luz do amanhecer, mas o nosso intrépido turista não chegou a tempo de comprovar a veracidade de tão bela descrição. E se lhe chamo “intrépido turista”, tal não se deve a nenhuma tendência para a ironia da minha parte (que desde já afirmo ter), mas à necessidade de encontrar um termo de equilíbrio entre o turista apalermado, fase da qual o nosso personagem já tinha saído, e o seguro viajante, fase à qual o nosso personagem ainda não tinha chegado. Claro que isso o chateou, deveria ter planeado as coisas de forma a não perder a alvorada na Acrópole. Sabia que a força do impacto da primeira visualização de um monumento, de um local, ou de uma pessoa, é sempre decisiva para os caprichosos sentidos. A sensação de gostar ou não gostar de algo tão concreto como a Fontana di Trevi pode depender de pormenores tão subtis como o ângulo de aproximação na primitiva abordagem. Federico Fellini sabia disso. Aníbal Éter também mas, nesse helénico dia, descuidou-se. Acabou por se desculpar com a imprevisibilidade dos comboios gregos, empurrando a falha para terceiros. Pior do que as coisas más que acontecem a um ser humano são as coisas más que acontecem a um ser humano sem que este consiga culpar outros seres humanos. Felizmente, a falha não acarretou consequências de maior; o encanto deu-se na mesma. Talvez o Partenon, ao contrário de algumas pessoas, nunca sinta a angústia de precisar de uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão.

Os templos dóricos são despidos de partes supérfluas. Pelo menos eram estes os ensinamentos dos livros de História da Arte que Aníbal Éter metodicamente desorganizava por toda a casa com o objectivo de impressionar as esporádicas visitas. Claro que o edifício que estava à sua frente (chamemos-lhe edifício para facilitar) se encontrava despido de quase todas as partes, fossem supérfluas ou essenciais; mas isso era fruto do camartelo temporal e não de lapsos dos projectistas. Tentou imaginar o já inexistente todo, procurando redundâncias ou inutilidades. O ábaco e coxim formando o capitel; o fuste e o capitel formando a coluna; as métopas e os tríglifos formando o friso; a arquitrave, o friso e a cornija formando o entablamento; tudo isso formando a fachada. É verdade que alguns elementos, como os capitéis que encimam as colunas, pareciam servir interesses estéticos. No entanto, antes desse honroso servilismo, tinham a essencial função mecânica de transmitir aos fustes, com graciosidade, todo o peso da cobertura. Não eram, pois, dispensáveis.

Diante da monumental ruína, lembrou-se do seu lar, e concluiu que os labores construtivos não tinham sofrido mudanças tão acentuadas como se podia pensar à primeira vista. Tamanhos à parte, o que de essencial se tinha alterado entre a época de Fídias e a época de Mestre Ramiro, encarregado da empreitada da casa dos seus pais? É verdade que no tempo do Mestre Ramiro, que era também o seu, as arquitraves se chamavam vigas e as colunas eram conhecidas por pilares, mas a forma como toda a descomunal massa ia sendo descarregada do topo da cobertura até ao terreno firme da implantação era extraordinariamente semelhante. As dúvidas percorriam a cabeça do nosso “intrépido turista” com a velocidade de uma quadriga grega. Quantos anos tinha demorado aquela construção? E quantos mortos?, num tempo histórico duro, pré-higiene-e-segurança-no-trabalho. Teria o supervisor Fídias exigido aos Arquitectos responsáveis relatórios regulares? E Aspásia?, a muito polémica amante de Péricles, conhecida pelos seus cabelos de ouro e pelo seu pé arqueado. Qual a sua importância no sonho partenoniano do estadista? A fortuna por este gasta em obras públicas era reveladora da existência de momentos de alguma falta de juízo. E Aníbal Éter sabia que não existia nada como mulheres de pé arqueado para desajuizar os homens.
A problemática do tino, ou da falta dele, atormentava-o regularmente. Aníbal Éter considerava-se um atinado com azar, não por ter nascido numa nação de desatinados, mas por ter nascido numa nação de desatinados, sem a coragem necessária para se aproveitar dessa situação. Tinha a noção que num país constituído maioritariamente por desajuizados existiam duas grandes opções para aqueles que não o eram: abandonavam qualquer desígnio de irrepreensibilidade moral e tentavam retirar ganhos da falta de juízo dos outros, ou, desejando manter altos níveis de decência, aceitavam a neurose que mais tarde ou mais cedo lhes bateria à porta. Infelizmente, pensava ele, o aproveitamento pessoal da falta de juízo dos outros era, em si mesmo, um acto desajuizado, pelo que, existindo incompatibilidade entre a natureza dessa opção e a natureza da pessoa com juízo, era muito mais provável a existência de desajuizados que obtinham ganhos do juízo de terceiros do que a existência de ajuizados não neuróticos. A esta injusta incongruência dava o nome de “Paradoxo do Ajuizado sem Juízo ou: como tentei aprender a parar de me preocupar e a amar ser idiota, e falhei”.

Era também visitado, a quase toda a hora, por pensamentos relacionados com o dinheiro, mais propriamente pela problemática moral do desperdício. Educado no respeito pelas virtudes da poupança e da frugalidade, esforçava-se afincadamente para amenizar esses princípios, pois julgava-os, nesses optimistas anos do final do século, antiquados e totalmente desencontrados com o ar do tempo. No entanto, sem surpresa, o conservador que era impunha-se quase sempre ao progressista que gostaria de ser, e a continuação do passeio pela Acrópole transformou a sua mente no ringue a que já se habituara.
O combate do dia era um dos grandes clássicos: no canto esquerdo e usando calções vermelhos, a inclinação estética que cultivava; no canto direito e usando calções azuis, o utilitarismo que lhe corria no sangue. A estúpida e impertinente pergunta pairava, aos seus olhos, em todas as pedras: qual tinha sido o benefício concreto de tão colossal e dispendiosa obra? Tentou desculpar-se da mesquinhez do pensamento com algumas lendas históricas igualmente mesquinhas, nomeadamente aquelas que faziam notar a resistência dos concidadãos de Péricles ao seu projecto megalómano. Lembrava-se de ter lido acerca de uma pequena matreirice usada pelo governante para conseguir a aprovação dos atenienses: percebendo que as reticências à construção do Partenon estavam relacionadas com dinheiro, Péricles anunciou que financiaria a obra do seu bolso. Em contrapartida, seria o seu nome e não o de Atena a decorar o frontão. Espicaçados pela inveja, logo lhe autorizaram o gasto público por forma a impedir a glória privada.

“Felizes os que nasceram antes do there is no such thing as public money”, pensou Aníbal Éter em jeito de louvor às virtudes da ignorância, “mas muitos devem ter ficado com os pés de fora para que outros pudessem cobrir a cabeça”. A manta curta, sempre a parábola do dinheiro como manta curta a condicionar a sua, se assim lhe podemos chamar, moral monetária. Brincando com as palavras, podemos dizer que se consumia com as decisões de consumo! Consumição inglória e injustificada, visto que não era verdade que as mantas curtas (ou o dinheiro) só permitissem cobrir a cabeça destapando os pés ou cobrir os pés destapando a cabeça. Com criatividade e uma tesoura, era possível cortar a manta ao meio e, deixando a cintura destapada, utilizar uma das metades para cobrir os pés e a outra metade para cobrir a cabeça. Ao nosso Aníbal o que lhe faltava, verdadeiramente, era a imaginação.

PS - este texto, de estilo diferente do habitual, foi publicado originalmente no blogue http://despesadiaria.blogs.sapo.pt


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Uma questão de cou




“Não deixes o teu pescoço aos grilhões da sorte”

Shakespeare



Os responsáveis do Syriza, numa bem sucedida operação de charme, conseguiram desviar totalmente as atenções do mundo. Ao invés de estarmos focados, como antigamente, no gargalo financeiro do governo da Grécia, estamos com os olhos postos no gargalo anatómico dos governantes gregos. A gravata de Alexis Tsipras, ou, mais propriamente, a ausência de gravata no colarinho de Alexis Tsipras, ocupou a comunicação social na primeira semana a seguir às eleições helénicas. O cachecol do Ministro Varoufakis tomou conta da agenda noticiosa na segunda. Desde os tempos da Revolução Francesa que não havia uma tal atenção aos pescoços dos políticos.
Imagina-se a troca de conversas nos Conselhos Europeus: o representante francês, admirado, solta um comentário sobre  le cou do grego; Maria Luís Albuquerque, entusiasmada, acena com a cabeça e diz concordar que a Grécia está a merecer um pontapé no cu para fora da zona euro; o ministro das finanças alemão, acalmando as hostes, afirma despreocupadamente que o Syriza é só garganta. Nunca na história da construção europeia uns simples gasganetes provocaram tamanha confusão nos salões de Bruxelas.
Na opinião deste vosso humilde analista político e aprendiz de anatomista, Tsipras e Varoufakis não estão a abordar os parceiros da moeda única da forma adequado. Na verdade, acertaram na parte do corpo que será útil à resolução dos seus problemas - o pescoço -, mas falharam nos acessórios que trouxeram à discussão. Nada me move contra gravatas e cachecóis, mas a resolução deste imbróglio deve ser procurada na História de Portugal e nas suas lendas, nomeadamente as relativas à fundação da nacionalidade. Diz-se que Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, como penhor pela quebra do juramento de fidelidade do seu amo perante Leão e Castela, apresentou-se diante do Imperador da Hispânia com um baraço ao pescoço. Afonso VII, comovido com tamanha honra e coragem, poupou-lhe a vida e encheu-o de presentes. Alexis Tsipras pode esquecer a gravata e Yanis Varoufakis deve deitar fora o cachecol. Na União Europeia, uma corda ao pescoço e a bolinha baixa são os únicos acessórios de que vão precisar.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Borgen, o império da assertividade



Atrasadinho como sempre, acabei agora de ver a 1ª temporada de Borgen. A palavra que melhor descreve o estado de espírito com que fiquei é a tal maldita com que Camões encerrou Os Lusíadas: inveja. Não da organização dinamarquesa, ou das casas elegantes e confortáveis onde se pode andar descalço o ano inteiro, ou da beleza da chefe de governo (desculpe-me, Eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo), mas da presença avassaladora da assertividade em todas as facetas do quotidiano. Claro que nunca sei se as séries reflectem a realidade cultural dos países onde são filmadas ou apenas os desejos de quem está a filmar. No entanto, é muito mais avisado da minha parte apostar na primeira hipótese, uma vez que a segunda não me proporcionaria assunto sobre o qual escrever.

Portugal é, de todos os países onde vivi, quer no reino do real quer no reino da ficção, aquele em que a assertividade é mais difícil de encontrar. É verdade que no reino do real nunca vivi noutro lado, mas no reino da ficção já estive por várias vezes emigrado. Os portugueses, em detrimento da postura assertiva, preferem a postura passiva, a postura agressiva, ou, na maioria dos casos, a postura passivo-agressiva (por esta ordem, da passividade à agressividade, sem passar por nenhum estado intermédio). Na minha totalmente infundada análise, este é o motivo pelo qual temos um dos maiores níveis de consumo de ansiolíticos em todo o mundo. A passividade conduz-nos normalmente a uma refeição completa: adiamos as tomadas de decisão (aperitivo); respondemos “sim” a solicitações às quais nos apetece responder “não” (prato principal); digerimos um grande sapo (sobremesa). Nesta situação, a benzodiazepina acaba por se tornar obrigatória no processo de digestão. Da outra postura, a agressiva, que nos leva a falar e a agir sem reflexão prévia, retiramos quase sempre meia-dose de taquicardia imediata e uma boa dose de arrependimento a médio-prazo, sendo o mergulho no Xanax uma questão de tempo. Quem se alimenta de emoções e de impulsos, acaba por perfumar a retrete com o aroma da culpa e do remorso. Mas isso não acontece nas casas de banho dinamarquesas de Borgen. Nessas, onde se sentam os belos rabos da P.M. Birgitte Nyborg e da jornalista Katrine Fønsmark, reina o doce aroma da assertividade, um cocktail formado por doses bem equilibradas de racionalidade, auto-estima, abertura, confiança e frontalidade. Não são, como no conhecido piropo dos trolhas, bombons. Mas em relação às matérias fecais portuguesas, até parecem.

(também aqui)


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A angústia do cidadão no momento de abrir a caixa do correio




De acordo com uma velha máxima é possível avaliar um homem pela qualidade dos seus inimigos. Esta semana, ao receber uma carta do Instituto Nacional de Estatística que me acenava com uma “contra-ordenação grave” caso não respondesse rapidamente a um inquérito, percebi que um homem também se mede pela imponência de quem o ameaça. E concluí que sou muito pequenino.
O meu avô evitava falar de política nos cafés, temendo a PVDE e o Campo do Tarrafal. O meu pai lia panfletos às escondidas, com medo da PIDE e de uma viagem antecipada para Angola. Eu tremo de cada vez que abro a caixa do correio e me deparo com uma carta das Finanças, da Segurança Social, e, agora, também do INE. Cada um sofre as ameaças que a sua estatura merece. E a minha acaba de atingir este ponto.

É mais ou menos consensual que as grande conquistas de Abril foram a democracia, a educação e a igualdade. O caso que acabo de contar confirma esse consenso. A democracia pressupõe que o poder não seja detido por poucos mas sim por todos. O Estado Novo, tendo concentrado na polícia política toda a força intimidatória, não salvaguardava os direitos de uma imensidão de outros organismos públicos que também devem ter acesso à sua quota-parte de prepotência. A ASAE e a ACT nunca poderiam gozar dos seus actuais poderes no ambiente autocrático do anterior regime. E isso seria profundamente antidemocrático.

Quanto à segunda grande conquista de Abril, a educação, há que admitir que não foi alcançada por mero acaso mas através de uma estratégia bem delineada e eficazmente executada. Uma das maneiras de evitar as garras dos pidescos agentes era não ler nada, pois nunca se sabia com toda a certeza se o papel que tínhamos na mão não se revestia de um carácter comprometedor. Ora, todos sabemos que sem hábitos de leitura não há educação que resista. Por isso, actualmente, se queremos fugir das ameaças dos organismos públicos, somos obrigados a ler tudo. E esta obrigação não é uma maldade que o Estado nos faz, é sim uma política educativa pensada para o nosso bem. Pretende o meu caro amigo evitar a ansiedade de abrir a caixa do correio e dar de caras com uma qualquer ameaça de um qualquer organismo? Então mergulhe nas Leis, Decretos-Lei, Decretos, Portarias, Regulamentos, Resoluções, Despachos, Circulares Normativas, Circulares Informativas, Assentos, Acórdãos, Ofícios-Circulados e Directivas em vigor. E quando acabar de ler tudo, volte ao início que já é diferente. Não se esqueça que Verdi só afirmou que la donna è mobile porque nunca foi apresentado à legislação portuguesa.

E o que dizer da igualdade? Qual era a lógica de fazer a vida negra ao Manel, que se tinha esquecido de inscrever o filho na Mocidade Portuguesa, deixando em relativa paz o Joaquim, que deixara passar o prazo de entrega da Modelo 651-B na repartição do 3º Bairro Fiscal? Um esquecimento é um esquecimento. Nesse sentido tenho de me vergar perante a justeza contemporânea: se o sistema persegue os cidadãos que dão tiros aos vizinhos e que violam as vizinhas, é perfeitamente razoável que também me persiga a mim por não querer colaborar com o INE. Afinal, não há quem não conheça o famoso mote da revolução: “25 de Abril sempre, lacunas no Anuário Estatístico nunca mais!”


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A prisão de José Sócrates: toda a verdade



Agora que consegui prender a vossa atenção com esta pequena ratoeira, passarei a tratar da verdadeira questão de regime. Mais que não seja, do meu. E a questão é que vou ser pai. E pela primeira vez. E é uma menina.
Antoine Marie Jean-Baptiste Roger de Saint-Exupéry, um homem com nomes suficientes para receber a Duquesa de Alba nos salões do paraíso, escreveu um dia que as crianças têm de ter muita paciência com os adultos. Parece-me agora que o éternel enfant  se esqueceu dos simpáticos fetos na simpática frase. E como sofrem enquanto estão hospedados no T0 ventral! Em primeiro lugar são permanentemente apalpados por quase todas as mulheres com quem se cruzam. Amigas, conhecidas, colegas de trabalho, vizinhas, tias, primas, cunhadas, a cabeleireira, a empregada do café, a senhora da mercearia, não há representante do sexo feminino que não esfregue deleitada o ventre da minha mulher. Se a gravidez durasse 9 anos em vez de 9 meses, acontecia-lhe à barriga o mesmo que aconteceu à estátua de São Pedro na Basílica Vaticana: tantas vezes os turistas lhe passaram a mão nos pés que o pobre apóstolo já não tem dedos.
E que dizer da falta de privacidade. Os fetos estão sujeitos a uma videovigilância apertada, efectuada com recurso a sistemáticas ecografias não respeitadoras de princípios salutares de uma democracia liberal, nomeadamente os de não filmar pessoas enquanto estas estão nuas, ou a dormir, ou a fazer xixi. A sociedade policial em que nos transformámos desrespeita estes valores, confirmando-se também que tem tendência a abusar ainda mais quando está perante criaturas de profunda inocência, sejam elas seres com menos de 38 semanas ou concorrentes da Casa dos Segredos.
A paciência é também necessária aos fetos para que possam aturar de forma graciosa as conversas que os rodeiam. Estas dividem-se em dois estilos opostos: o “fofinho”, em adulação ao “estado de graça”; e o “indignado”, em defesa da grávida. O primeiro pode ser exemplarmente observado nas lojas de artigos para bebés, onde somos recebidos com um “olá famiiiiiiilia!” dito da forma mais querida possível por empregadas muito sorridentes e que são obrigadas contratualmente a terminar 75% das palavras com “inho”. Imagino a minha filha a ouvir uma voz melíflua a perguntar se “o paizinho não quer ver melhor a banheirinha onde vai dar banhinho à princesinha” e a desejar ficar mais uns meses resguardada no SPA intra-uterino. Apesar de estar na mesma imersa em líquido, sempre evita ver as caras de tamanhos piegas. O segundo estilo, o “indignado”, encontra-se por exemplo nas caixas prioritárias dos hipermercados. Entre uma grávida, um deficiente e uma velhota com uma criança ao colo, quem tem prioridade? E se qualquer uma destas pessoas chegar à caixa quando um cliente não prioritário já está a pousar os víveres no tapete, deve este interromper a operação e ceder passagem ou tem o direito de continuar a sua vidinha? E o funcionário da caixa, tem a obrigação de estar atento e gerir estas situações ou é melhor que deixe correr a organização social espontânea? Para estas perguntas há um número de combinações de respostas que é igual ao somatório de todas as pessoas que estão na fila com todas as outras que passam pela zona. Mas há uma personagem que nunca falta: o protector. Fica aqui o “teatro” da última visita da “famiiiiiiilia” ao Continente das Antas:

(entra a “famiiiiiiilia”) 
“Então está aqui uma grávida e vocês não deixam passar?”, resmunga um senhor de camisa Triple Marfel com o bolso derrubado pelo peso da papelada.
“Eu tenho direito a estar aqui, sou muito doente”, responde uma senhora de meia-idade que tem uma bengala no carro para utilizar nas compras de mês.
“A culpa é da funcionária que não abre a pestana, vou fazer queixa à recepção”, grita uma mulher que já pagou noutra caixa qualquer e que transporta o carrinho pelo corredor exterior.
“Eu estou a registar as compras, não consigo controlar o que se passa no fim da fila”, desculpa-se a pobre, completamente arrependida de ter saído da pacatez da aldeia de Trás-os-Montes onde nasceu; “Podia estar sossegada a cuidar da hortinha dos meus falecidos pais, rais´ma parta”.    
“Este país está cheio de gente mal-educada, cambada de filhos da puta”, afirma o homem da Triple Marfel, vermelho de raiva e já com o bolso a chegar à cintura.
“Está a chamar filho da puta a quem?”, vocifera o filho da senhora de bengala, com aspecto de ter acabado de sair do Estabelecimento Prisional de Custóias.  
“Não se preocupem, está tudo bem, nós esperamos”, digo eu, com muito jeitinho, para ver se não se pegam todos à chapada.
“Que merda de homem é você, que não se impõe para defender a mãe do seu futuro filho?”, atiram-me os dois em uníssono, partilhando agora da mesma indignação e da mesma vontade de se pegarem à chapada, já não um contra o outro, mas em parceria contra mim!
“Já não há homens de jeito”, acrescenta a mulher que foi fazer queixa à recepção e que entretanto já regressou acompanhada de uma chefe de caixas.  
“Foda-se”, penso eu, tentado a fazer à funcionária da caixa uma proposta de compra da hortinha dos falecidos pais na tal aldeia transmontana e a mudar-me para lá com a “famiiiiiiilia”.
(acalmam-se as partes; fim do acto)

E pronto, é esta a envolvente da minha filha por nascer. Sim, Exupéry, as crianças têm de ter muita paciência com os adultos. Mas não te devias ter esquecido dos fetos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O meu inter-rail; 13º capítulo: Vila Meã





O nosso último encontro foi debaixo da árvore onde o Camus se lixou com f grande. Estranho encontro dado que nos encontrávamos a caminho de Atenas, atravessando o Peloponeso* em direcção ao Istmo de Corinto e à região da Ática. Deve ser isto a tal coisa do absurdo**. A viagem foi feita de noite, mas o habitual rebuliço dos gregos – uns estão sempre a falar, outros nunca se calam, uns e outros ignoram o significado de “conversar baixinho” – só me deixou dormir em prestações de 10 minutos. Já não podia ver ninguém à frente quando, com o sol no horizonte, o comboio começou a travar e se deu um aumento do rebuliço (um aumento pequeno, visto que não era possível aumentar muito). Ao ver mais de metade dos passageiros a preparar a saída, olhei pela janela para tentar descobrir onde estava. Como dei de caras com um apeadeiro velho e ranhoso voltei a encostar a cabeça ao banco, satisfeito por poder prosseguir a viagem num ambiente mais sossegado. Na parede dessa estaçãozeca estava uma placa feia e ferrugenta (fazia um pendant perfeito com o edifício) que exibia, se a memória não me falha, o seguinte escrito:




Acreditam os meus caros amigos que esta merda quer dizer Atenas? Pois é, nem eu. Mas a verdade é que quer. Verdade essa que só descobri depois do sacana do comboio ter voltado a arrancar, na direcção do caralho mais velho, onde finalmente saí, desorientadinho e ligeiramente pior que estragado. Mas como é que uma cidade de não sei quantos milhões de habitantes e que era a capital de um país da União Europeia tinha uma estação de comboios igual à de Vila Meã mas em feio?! E aquilo – e a palavra “aquilo” nunca foi tão adequadamente utilizada por ninguém – era a estação principal de Atenas; provavelmente até, a estação principal de toda a Grécia! O cheiro indisfarçável da utilização massiva de fundos estruturais europeus em putas e vinho verde atingiu as minhas narinas com prontidão. Mas era preciso avançar, a civilização grega chamava por mim. Apanhei uma outra locomotiva em sentido inverso, sonhando já com os locais calcorreados milhares de anos atrás pelos famosos vultos políticos da Antiguidade Clássica, fossem eles os grandes estadistas como Péricles, fossem eles os que prometiam baixar os impostos ao povo e, simultaneamente, construir mais uns quantos templos para que o povo adorasse os Deuses. Falo dos célebres demagogos gregos, que cultivavam a arte de conduzir as massas através de um discurso emotivo e sem preocupações com a verdade e com a racionalidade. Felizmente, esse nefasto comportamento não chegou aos nossos dias e hoje, quando vemos os políticos a prometer que vão acabar com a austeridade e baixar o défice, diminuir os impostos e aumentar os apoios sociais, não despedir funcionários nem cortar os subsídios, investir na escola pública e apoiar as fundações privadas, proteger o ambiente e baixar o preço dos combustíveis, alargar o investimento público e acabar com a promiscuidade entre o Estado e os grandes grupos económicos, garantir os direitos adquiridos dos mais velhos e criar emprego para os mais novos, estimular o uso dos transportes públicos e reduzir o imposto automóvel, aumentar o salário mínimo e diminuir a taxa de desemprego, proibir os despedimentos e acabar com a emigração da geração mais qualificada de sempre, atrair investimento estrangeiro e taxar corajosamente o capital, promover o consumo interno e fomentar as exportações, eliminar as mordomias dos políticos sem prejudicar os mordomos, podemos confiar que eles acreditam convictamente nas tretas que lhes saem da boca.

Quando lhe perguntavam de onde era, Sócrates respondia que era um cidadão, não de Atenas ou da Grécia, mas do mundo. Ainda não tinham passado 10 minutos desde a saída da Estação (ehehehe) Central (ahahaha) de AθHNAI (ihihihi), e já compreendia perfeitamente os motivos do “cicutas”: tivesse eu nascido naquela cidade e também faria todos os possíveis para que ninguém soubesse disso. O ambiente era mais ou menos caótico: uma mistura de calor, barulho, fumo de carros e fumo de cigarros (numa competição taco a taco; não sei quem estava a ganhar), edifícios feios, congestionamentos, e, pior do que tudo, gregos, muitos gregos por todo o lado! E uma grande parte deles atrás do volante, situação verdadeiramente explosiva. Tentei dirigir-me à Praça Omonia, a referência central que trazia na cabeça, mas vi-me, lá está, grego. Não percebia um caralho do que diziam as placas e os gajos com quem me cruzava não percebiam um caralho de inglês. Devo ter andado meia dúzia de quilómetros para fazer um percurso que não devia ter mais do que um ou dois. Quando finalmente chego ao local pretendido e me enfio num café cheio de fumo para tentar comer qualquer coisa, encontro um casal de interrailers (acho que já não escrevia isto há muito tempo) que me provocaram uma alegria de nómada perdido no deserto quando encontra um oásis. Colo-me a eles, sedento de dicas de sobrevivência para conhecer aquela terra, e recebo imediatamente um conselho encantador: “vai visitar o bairro de Plaka e a Acrópole e depois põe-te a andar o mais depressa possível”. “Mas não querem discutir isso com mais pormenor?”, perguntei eu com cara de surpreendido, “afinal estamos na pátria da filosofia e podíamos desenvolver as artes da retórica e da lógica, aprofundando o tema dos méritos e deméritos desta capital”. “Caga na filosofia e não percas tempo aqui”, responderam-me eles sem qualquer interesse em alcançar a verdade através do método dialético***.  

A fama de Atenas como uma cidade, digamos, de merda, não sendo totalmente imerecida, acaba também por não ser totalmente justa. Paul Theroux, lenda viva destas andanças, refere no seu Pillars of Hercules que um viajante lhe descreveu Atenas como “uma cidade de quatro-horas”, o tempo que considerava necessário para ver tudo o que merece ser visto. Mesmo validando estas opiniões (a transmitida pelo Theroux e a dos meus coleguinhas de inter-rail), reduzindo os pontos de interesse à Acrópole e seus arredores, não consigo dar como perdido o tempo que lá passei. A Acrópole é sempre a Acrópole! Mas claro, isto de nos dirigirmos a uma terra longínqua para ver um local específico não é uma actividade consensual. Nem todas as pessoas, mesmo as que se encontram no grupo das curiosas, subscrevem as mesmas análises, cof cof, custo-benefício. O pensamento do Dr. Samuel Johnson, vertido brilhantemente no diálogo que se segue, coloca a questão na perspectiva certa:       

Boswell - vale a pena ver a Calçada dos Gigantes?
Johnson - valer a pena ver? Sim, mas não vale a pena ir ver.

Como não tive de ir ver a Acrópole (apenas me aconteceu ter visto a Acrópole enquanto me dirigia para Istambul), acabei por respeitar os ideais do Doctor. E confirmo que valeu a pena.

(continua)



* devo ter passado perto da antiga cidade de Clitor, onde, segundo Vitrúvio, corriam umas águas que curavam o alcoolismo. Note-se que esta informação é prestada no seu Tratado de Arquitectura. Seria bom, a julgar por certas construções que se vão vendo por aí, retomar esses estudos, nomeadamente investigando as possíveis ligações entre alguns projectos e o abuso do álcool em contexto laboral.

** agora (ainda) mais a sério: num livrinho do António Mega Ferreira (por mim merece ser promovido a Giga Ferreira, tal o prazer que retiro da sua escrita), explica-se que o absurdo “é a divergência entre o que um homem pede ao mundo – um sentido para a vida – e o que o mundo lhe pode dar – uma vida sem sentido”. Eu não mexia mais.

*** já que falamos de filosofia, deixo aqui a minha, muito mais inspirada em episódios bíblicos do que em episódios de cidadãos da Grécia Antiga. Trata-se de uma filosofia de vida a que dou o nome de “não-não” e pode ser assim resumida: não atirar a primeira pedra; não oferecer a outra face.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

O meu inter-rail; 12º capítulo: Os intrépidos




O Barco da Ressaca
microsoft paint sobre google maps
Aníbal Éter - 2014





Deixei-vos quando me encontrava no convés do ferryboat Brindisi-Patras, incomodamente alojado no chão do mesmo mas usufruindo da agradável companhia de dezenas de outros intrépidos fazedores de inter-rails. O ambiente era festivo, havia comida e bebida espalhada por todo o lado, várias nacionalidades em fraterno convívio, alguma droga a circular, gajas boas, gajas engraçadas, gajas fraquinhas, gajos bonitos com guitarras a tentarem engatar as gajas boas, gajos bonitos que não sabiam cantar a tentarem engatar as gajas engraçadas, gajos feios mas espertos a tentarem engatar as gajas fraquinhas. Como era de esperar, os elementos da equipa feios mas espertos alcançaram os melhores resultados práticos. O pôr-do-sol no Mar Adriático foi muito bonito e perfeitamente adequado a todos os clichés existentes sobre o tema “pôr-do-sol no mar”. Foi um momento em que me senti verdadeiramente feliz, sem qualquer vestígio daquele popular desejo de se querer estar onde não se está, sentimento que foi descrito pela primeira vez por Baudelaire no séc. XIX embora só se tenha popularizado devidamente no séc. XX com o “Estou Além” do António Variações, que Deus o tenha.
A temperatura manteve-se alta durante a noite, deixando os meus ossos a salvo de qualquer vestígio de orvalho e o meu nariz a salvo da catástrofe que iria ocorrer se todos os malcheirosos alapados naquele deck abrissem simultaneamente os sacos-cama para se agasalharem.

A noite foi longa, mas não tão longa quanto as promessas que sobre ela foram lançadas pelos intrépidos. Que ia ser uma directa. Que dormir era um desperdício de tempo. Que nós é que somos duros. Que isto e que aquilo e o caralho. Na realidade, as várias nacionalidades mostraram as suas diferenças culturais em interessantes conversas madrugada dentro e as suas semelhanças na arte da bazófia quando foram derrubadas pela sonolência ao nascer do dia. Como diria Gertrude Stein, uma directa é uma directa nunca é uma directa. Se bem me recordo contribuí para o inevitável e infindável debate sobre as características dos povos, descrevendo o português típico como viciado em sofrimento e empreendedor da indústria da choradeira*. Suponho que andava numa fase maníaca e a sentir-me mais jovial e espirituoso que os meus compatriotas. Agora que a idade e a realidade também me despertam vontade de empreender nesse sector, apercebo-me que fui uma besta. Prossigamos**.       
O período de sono ao relento foi mais curto do que a pila de um gajo acabado de sair do Mar do Norte. Às 9 da manhã, só aqueles que tinham adormecido completamente bêbados continuavam a suportar o sol na cabeça sem abrir os olhos. À custa de uma despesa considerável no bar do navio entre as 11 da manhã e as 3 da tarde aguentei até Patras sem entrar em desidratação. A conversa entre passageiros não mais foi retomada, já ninguém estava com paciência para debater a diversidade cultural no contexto dos povos europeus. Os intrépidos já não se sentiam intrépidos, estava tudo partido e rabugento. Resultado final: Travessia – 2; Interrailers – 1

A cidade de Patras, situada na costa norte do Peloponeso, aparentou ser aquilo a que normalmente costumo chamar uma valente merda. Digo aparentou pois não me parece justo ser assertivo a partir de uma experiência de meia-dúzia de horas, ainda para mais sem recurso a qualquer livro que me impingisse uma hierarquia de lugares a visitar***. É verdade que é uma terra com boas vistas de mar e com algum interesse histórico. Por exemplo, Santo André, patrono de duas igrejas romanas sobre as quais, em textos anteriores, verti já o meu vasto conhecimento (duas linhas sobre Sant'Andrea al Quirinale, a propósito de Bernini; uma linha sobre Sant'Andrea della Valle, a propósito de Puccini e da sua Tosca), foi crucificado em Patras numa crux decussata, também conhecida por sautor, e as suas relíquias mantêm-se por lá. São Pedro achou não ser digno de morrer como Cristo e foi crucificado de cabeça para baixo, o irmão achava o mesmo e teve como destino uma cruz em forma de X (podemos concluir que o sol que apanharam no mar durante os anos em que pescavam peixes e não homens lhes deve ter feito mal à cabecinha; como bem sabe o Dr. Paulo Portas, o chapelinho é importante). No entanto, esta coisa das relíquias não me parece motivo suficiente para vos aconselhar uma visita à cidade. Mas peço-vos que se lembrem de Santo André quando estiverem perante a bandeira da Escócia, ou perante a bandeira da Jamaica, ou perante o boletim do euro milhões.

De Patras a Atenas são duzentos e poucos quilómetros, mais ou menos a mesma distância que o Alfa Pendular percorre nas duas horas e quinze minutos que demora a chegar do Porto a Santarém. Na Grécia dos anos 90 foram umas cinco ou seis horas de comboio até conseguir colocar o meu sagrado pé sem micoses no solo da capital helénica. E isto foi apenas a primeira etapa da horrível e incrivelmente demorada travessia do país a que me submeti com o intuito de chegar à Turquia. Recordo que faltavam muitos anos para os Jogos Olímpicos de Atenas, para a designação de Patras como Capital Europeia da Cultura e para o lançamento dos grandes investimentos que colocaram os gregos nos trilhos da bancarrota. Em alguns momentos de maior irritação lancei tamanhas pragas sobre aquele povo que ainda hoje sinto remorsos diante das notícias relativas à crise socio-económico-financeiro-político-outra-qualquer-a-designar que entretanto sobre ele se abateu. Mas foda-se, que os pariu. Quem, naquela altura, atirava comparações estatísticas a justificar a colocação de Portugal e da Grécia no mesmo patamar de desenvolvimento, tinha merecido uma viagem agarrado ao remo de uma galé até ao porto do Pireu e posterior enrabamento com coluna do Pártenon, capitel a entrar primeiro. Tivesse Camus vivido mais quarenta anos e teria acrescentado uma errata ao seu Le Mythe de Sysiphe com o texto: onde se lê “o absurdo nasce da confrontação entre o apelo humano e o silêncio despropositado do mundo” deve ler-se o absurdo nasce da confrontação entre o apelo humano e o silêncio despropositado do mundo e, também, da elaboração de analogias entre Portugal e a Grécia”. Mas não viveu; maldita árvore.

(continua)



* tinha na cabeça o português, que sem se aperceber, se interroga: “se resolver o problema, depois queixo-me de quê?”

** embora já ande há uns anos com tendências “tudo isto é triste, tudo isto é fado”, ainda não consegui atingir o nível dos viciados em sofrimento de meia-idade que conciliam sem qualquer problema as angústias da existência com as angústias da continuidade. Falo daquelas pessoas que afirmam categoricamente que o mundo e as pessoas prestam para pouco e que Portugal e os portugueses não prestam para nada mas que, ao mínimo indício que os faça suspeitar que os filhos sentem pouca vontade de experimentar a multiplicação gerando netinhos, se desfazem em lamentos a Deus e questionam com ar sofredor como se dará a continuidade da espécie, da família, da nação. Oh desgostosos, se esta merda toda não vale um caralho, mais vale que se interrompa a continuidade e que acabe de vez, não?  

*** decidir sobre a utilização ou não de guias de viagem é outra problemática que deixa em cuidados os verdadeiros viajantes (e por isso, graças a Deus, não me deixa em cuidados a mim). Alguém cujo nome não recordo apresentou esta questão com base no conceito da “hierarquia estabelecida por terceiros”: os guias avaliam o interesse e importância dos vários locais de uma cidade e nós acabamos por adaptar a nossa opinião e as nossas visitas à opinião do gajo que escreveu o livro. Numa palavra: maravilhoso! Alguém a decidir por mim os locais a visitar, permitindo uma confortável dose de preguiça mental, a que se adiciona a dose de vaidade proporcionada pela posterior transmissão aos amigos das “nossas” sábias análises sobre os sítios que “descobrimos” enquanto “flanávamos”.   


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O meu inter-rail; 11º capítulo: "O sacana do convés, a mim não me convém, la la la la"



 



A despedida não foi fácil. Roma impressionou-me tanto que durante uns dias via tudo em tom ocre, como se a cor predominante da cidade me tivesse contaminado a retina. Apesar de lá ter chegado com uma brutal expectativa acumulada, fiquei mais perto de padecer do Síndrome de Stendhal (alterações psicossomáticas provocadas por uma overdose de beleza) do que do Síndrome de Jerusalém (alterações psicossomáticas provocadas por uma overdose de desilusão e decepção*).
Uma maneira interessante de fazer o desmame teria sido utilizar a Via Appia, a estrada que liga Roma a Brindisi desde o III século antes de Cristo. Desconfio até, que ao caminhar durante vários dias entre ciprestes, pinheiros e restos das cruzes dos homens de Spartacus, teria usufruído de uma real possibilidade de me transformar num homem santo. Curiosamente, ou nem por isso, nunca liguei pevas aos pinheiros em Portugal mas fico sempre fascinado com os pinheiros em Itália. Pode ser aquela coisa dos santos da porta que não fazem milagres, ou aquela outra da galinha da vizinha, historietas que não são mais do que uma abordagem popular à miopia psicológica que condiciona a relação dos seres humanos com as coisas que conhecem melhor. Ou, pior ainda, com as coisas que não conhecem de todo apesar de serem de visualização diária. Como quando reparamos num turista a olhar muito atento para uma casa na nossa cidade, casa essa que já tínhamos visto inúmeras vezes sem ter visto verdadeiramente vez nenhuma. Mas nisto dos pinheiros estou mais inclinado a justificar a discrepância com a técnica italiana da poda (não confundir com as actividades que decorrem nas festas organizadas pelo Berlusconi, pois nesse caso escreve-se com ph).   





A Via Nomentana desagua em Roma na antiga Strada Pia
    Também já vos falei da Via Flamínia, ide lá ver os apontamentos  




Apesar do chamamento da Via Appia, optei por percorrer esses 500 km no habitual comboio nocturno, poupando tempo** e custos de hotelaria. Recordo que o dia passado na capital italiana foi apenas um inevitável compasso de espera no percurso para Istambul, percurso esse que passava por Brundisium, a principal janela romana para o oriente.
Descobri nessa noite que as imediações das stazione ferroviarie di Roma não são os locais ideais para passear depois do ocaso (palavra poética, muito mais bonita que pôr-do-sol). Bastante frequentadas por sem-abrigo e por marginais de pequeno calibre, constituem excelentes opções de visita para as pessoas que têm a mania que são verdadeiros viajantes e que desejam fugir dos pontos turísticos. Como não sou desses, preferi procurar rufadeira dentro da estação e não nas redondezas da mesma. Para ser rigoroso, “rufadeira”, uma palavra portuense para designar comida farta e que me parece ainda mais popularmente genuína do que “tacho”, talvez não seja bem aquilo com que pude contar na maioria dos dias desta viagem.

Tratemos então, mais aprofundadamente, da pergunta que se impõe: nos anos 90 o que comiam os, lá vem o asqueroso termo novamente, interrailers ? E a resposta é: depende. Partindo do princípio que a maioria viajava com o dinheiro contado, podemos dividir essa maioria em dois grupos: os gajos e as gajas. Os primeiros comiam no McDonald's e, quando desesperados da repetição, faziam um intervalo de desenjoo num italiano barato. Os segundos (neste caso, as segundas) procuravam supermercados onde adquiriam fruta, iogurtes e ingredientes para a confecção de sandes. Chegavam até a comprar alfaces e tomates, as saudáveis! Por vezes havia gajos que se comportavam como gajas e gajas que se comportavam como gajos, mas não conheci muitos casos desses. Em relação à minoria que viajava com orçamento folgado, não tenho dados empíricos que permitam uma análise nem capacidade intelectual para desencantar conhecimento apriorístico sobre o tema (em resumo, só conheci tesos). Quanto à minha experiência gastronómica, se retirar os dias que passei em Istambul, onde comi bem e barato em restaurantes modestos, resumiu-se ao já referido binómio: Big Mac e Massa à Bolonhesa em italianos foleiros. O segredo para maximizar a utilidade da segunda opção, ainda assim mais cara do que a primeira, consistia em pedir muito pão. Este podia ser ingerido durante a refeição desde que se salvaguardasse um bom bocado para o final, que seria engolido após cumprir a sua função de lava-loiça.  

Não me recordo já do que comi nessa noite antes do embarque. Recordo-me sim, de uma forma quase dolorosamente perfeita, do estado lastimoso em que tinha os músculos das pernas e a região do cóccix, vítimas principais da minha ganância de turista. Também tenho bem presente a vontade que sentia de tomar um banho e de ter tido de me contentar com a lavagem da tromba nos lavatórios da estação. E de me ter visto grego para abrir o cacifo onde a minha mochila tinha passado o dia (sortuda, esteve à sombra, eu apanhei um escaldão que me lixei), o que me levou a pensar que a União Europeia, no meio de tantos milhares de directivas estúpidas que emite, se podia dedicar a emitir uma (igualmente estúpida, naturalmente) em que uniformizasse os mecanismos de abertura e fecho de todos os cacifos existentes em aeroportos, estações de comboio e centrais de camionagem***. Estourado, adormeci mal entrei no comboio e quando acordei, já com o sol a entrar pela janela do meu compartimento, estava tão próximo de Brindisi que nem arrisquei uma visita ao WC da carruagem. O dia que passei na cidade, a fazer horas para o ferry do fim da tarde, foi vivido sob o signo do desperdício de tempo. Não pesquisei, não procurei, não me informei. As poucas coisas que vi foram aquelas que se atiraram para a frente dos meus olhos no percurso entre a estação de comboios e o porto, onde aguentei várias horas em estado semi-letárgico. Soube depois que Brindisi tem alguns pontos de interesse e que Plínio o Velho**** a colocou entre as mais importantes localidades da península italiana. Paciência, não estava com paciência. Algumas viagens são tão cansativas que as pessoas só falam bem delas depois do regresso, quando já se encontram sossegadas no conforto do lar. E nesses momentos proclamam as saudades que sentem dos locais por onde passaram e o quanto se divertiram no espectacular passeio. Se as apanhassem a meio da viagem, no ambiente doentio de um aeroporto, afectadas por um daqueles achaques de cansaço provocados pela conjugação das longas caminhadas com as diferenças climáticas e com a troca dos sonos, era possível que aceitassem ser cobaias de uma qualquer perigosíssima experiência de teletransporte que lhes prometesse o sofá de casa em 5 minutos.

O ferry que me levaria até à Grécia (especificando especificamente, até à cidade de Patras) abriu as portas ao embarque muito antes da hora da partida, por forma a conseguir engolir os milhares de passageiros e as centenas de carros que transportaria no ventre (achava eu) durante as mais de 20 horas de navegação pelos mares Adriático e Jónico. Mas poucos minutos depois da abertura já a realidade das coisas chocava violentamente contra o meu focinho. Penso já vos ter dito que esta travessia me ficaria de borla, uma vez que o passe do inter-rail contemplava aventuras aquáticas nesta região (suponho que por causa das muitas centenas de ilhas gregas). O que não vos disse foi que a borla concedida implicava a renúncia a qualquer tipo de leito, assento, ou mesmo tecto. Os interrailers que esquecessem o ventre do navio, o nosso lugar era no dorso. Quando me apercebi que ia passar um dia inteiro no chão de um convés, primeiro sob o relento da noite que se aproximava e depois sob a inclemência do sol grego, pensei em atirar-me ao mar. Com a chegada dos outros desgraçados e a visão da respectiva “tenda” que se foi montando, animei ligeiramente. Os comes e bebes que instantaneamente forraram os sacos-cama (sacos-cama que, por sua vez, tinham previamente forrado o deck da embarcação) fizeram-me redescobrir o amor à vida. Aos meus leitores que estão neste momento a questionar a minha imprevidência e falta de planeamento, baseando essa postura crítica na suposição de que teria sido fácil obter informações sobre as condições em que realizaria a travessia antes do início da mesma, tenho apenas um comentário: bardamerda. Cuidais vós que é bonito e avisado planear as putinhas das viagens ao pormenor e que dessa forma vos livrais de todas as surpresas desagradáveis e consequente mal-estar? Livrais-vos mas é o caralhinho. O mal-estar é parte integrante da existência e tentar fugir-lhe é como tentar escapar por entre as gotas da chuva. Nas viagens, como na vida, há apenas que optar pelo tipo de mal-estar que julgamos preferível. Podemos não nos preocupar com nada e acabar trucidados pelos acontecimentos ou, em alternativa, podemos preocupar-nos com tudo, controlar os acontecimentos, e acabar trucidados pela ansiedade. Pensai nisto e até à próxima.  




* não conheço Jerusalém e por isso não sei se é justo que a patologia em causa - uma desilusão doentia provocada por uma realidade que não corresponde às elevadas expectativas previamente acumuladas - leve o seu nome. No entanto, sabe-se que os serviços de saúde mental da cidade recebem uma média de 10 pessoas por mês gravemente atormentadas com a diferença entre a cidade que está à frente dos seus olhos e a cidade “celeste” que idealizaram antes da visita.


** o tempo, sempre o tempo. Qual é, afinal, a verdadeira duração de uma hora, visto que algumas passam a correr e outras se prolongam ad nauseam (em certos dias, as que passo no trabalho são desesperadamente eternas). Gostava de recorrer à Recherche de Proust ou à obra de Bergson para dissertar sobre a ilusão, subjectividade e relatividade do tempo, ou seja, sobre o carácter metafísico da duração. E não é por nunca ter lido nem um parágrafo de um ou de outro que não o conseguiria fazer. Mas fiquemo-nos por exemplos simples: quando a mulher diz ao marido “depois hás-de ver aquela torneira que está a pingar”, está a associar a palavra “depois” a um intervalo de tempo compreendido entre os 5 e os 50 segundos, enquanto o destinatário da mensagem está a idealizar um intervalo de tempo situado entre os 5 e os 50 dias. O facto de Proust ter conseguido escrever os seus livros sem ter vivido estas interessantíssimas experiências conjugais (era homossexual), ilustra bem as suas superiores capacidades intelectuais.


*** estimo ter gasto 3% da duração do meu inter-rail a ler instruções de cacifos, outros 3% a enfiar-lhes murros e à volta de 5% a explicar aos seguranças das estações que estava tudo bem comigo e que tinha sido uma fúria passageira que não se repetiria (com excepção da Grécia, em que os seguranças me ofereceram a sua solidariedade e também quiseram atestar no irritante cubículo).


**** um gajo que respeito, apesar de ter sido nabo o suficiente para ir a correr ver de perto a erupção do Vesúvio e acabar morto pela mesma. Plínio o Velho era daquele tipo de pessoas tão curiosas que, vivendo nos dias de hoje, pararia o carro na estrada para ver um acidente e trataria de se colocar na posição perfeita para ser atropelado. Plínio o Novo, mais fino, ficou a ver ao longe enquanto tirava notas, deixando às gerações futuras um registo valioso sobre vulcões e um testemunho interessante sobre as virtudes da prudência (apesar deste episódio singular entre Plínios, continuo a acreditar na relação directa entre vetustez e sabedoria, e no insubstituível papel de um ancião na corrente de transmissão geracional. É uma crença baseada na experiência pessoal. Passei uma grande parte da infância na companhia da geração sénior da minha família. As avós (materna e paterna) deram-me o mimo que é de lei, os avôs ensinaram-me umas coisas. O avô paterno, habitante de uma casa de lavoura de um meio rural, ensinou-me a vindimar, a cavar, a regar, a dar de comer a bichos, a armar ratoeiras, a rachar lenha, a serrar e a pregar, além de me deixar andar no carro de bois e de me dar boleia no quadro da bicicleta; o avô materno, habitante de um apartamento de um meio urbano, ensinou-me a ler o jornal, a jogar damas e xadrez, a escrever à máquina, a engraxar sapatos até estarem a brilhar, a ouvir música com mais de 100 anos e a estar longas horas sentado num sofá sem ficar irrequieto. Curiosamente, o avô rural e o avô urbano viviam a uma dúzia de quilómetros um do outro, uma vez que nos anos 80 bastava andar uma dúzia de quilómetros para chegar de uma qualquer livraria da baixa do Porto a uma qualquer eira de pedra na Maia ou em Vila do Conde. Nos dias de hoje tudo mudou e já é preciso andar para aí uns 15).     



sexta-feira, 25 de julho de 2014

O meu inter-rail; 10º capítulo: Popolo, Popolo, Popolo




Tentei explicar, nos capítulos 7, 8 e 9 (clique no “7” para ser reencaminhado para a Estação de Termini; no “8” para visitar uma rua onde moram três beldades; no “9” para se chocar com o péssimo trabalho da APRe! - Associação de Aposentados Pensionistas e Reformados da Dra. Maria do Rosário Gama), de que forma utilizei as primeiras horas do período de 14 que tinha disponíveis para fazer o que me apetecesse em Roma. Deixei-vos na Via Vittorio Veneto, perto da Villa Borghese, cujos jardins atravessei em seguida até à íngreme encosta do Pincio. Desse ponto alto pude observar aquela que é para mim a mais bela praça da cidade, a Piazza del Popolo. Neste momento sinto já o indisfarçável ódio de alguns de vós, prontos para me atirarem à cara nomes de outras praças romanas que são na vossa opinião incomparavelmente mais bonitas, ou mais elegantes, ou mais românticas, ou mais típicas, ou mais outra merda qualquer do que a minha Piazza del Popolo. No entanto, apesar de respeitar imensamente as vossas opiniões e sentimentos, é com pesar que vos informo que a mais bela praça de Roma é (pausa para dar ênfase) a Piazza del Popolo. E consigo sustentar esta minha absoluta convicção apenas naquilo que podemos ver sob a sujeição dos elementos, não levando em consideração nada que se encontre debaixo de qualquer tecto, como por exemplo as pinturas e esculturas de Caravaggio, Carracci e Bernini que se encontram nas Capelas da Igreja de Santa Maria del Popolo ou os interiores do Café Rosati* e do seu rival Café Canova**.
Esta praça, uma grande elipse*** centrada por um obelisco egípicio (devem existir mais obeliscos egípcios em Roma do que em qualquer outra parte do mundo, Egipto incluído****), era um verdadeiro hall de entrada para os muitos viajantes que chegavam à cidade percorrendo a Via Flamínia. E cumpria com eficácias as funções de um hall, distribuindo as pessoas pela urbe através de um tridente encabeçado pelas “igrejas gémeas”.




Via del Babuino (à esquerda), que conduz ao Quirinal através da Praça de Espanha 
Via del Corso (ao meio), que conduz à Praça Veneza e ao Capitólio
Via di Ripetta (à direita), que conduz à zona da Praça Navona através do antigo porto fluvial, do Mausoléu de Augusto e do Ara Pacis




Como apressado turista ranhoso que era não resisti a ser distribuído pela rua da esquerda, atraído pela fama da escadaria da Praça de Espanha e pelo quarteirão das lojas de luxo. Se fosse agora, que sou um descontraído viajante com estilo, deixar-me-ia distribuir pela rua da direita e caminharia em direcção ao antigo Porto di Ripetta e às marcas deixadas pelo divino Augusto: o seu mausoléu e o seu altar de consagração à pax romana, sabiamente instituída através da distribuição de maciças doses de bordoada. Também a mim me apeteceu utilizar os métodos de Augusto, para instituir a paz nos tumultuosos locais que visitei de seguida, nomeadamente a Praça de Espanha, o Panteão e a Praça Navona.
Salvou-se a Igreja de Santo Inácio de Loiola, onde pude admirar em relativo sossego o ilusório tecto “sem fim” e a “cúpula”, quase tão falsa como os funcionários do Estado que justificam as greves com a defesa dos serviços públicos e dos seus respectivos utentes. Também não fui muito esmagado por pessoas de olhos em bico na Basílica de Santo Agostinho e consegui, olhando para a Madonna dos Peregrinos, perceber mais ou menos as ideias de Caravaggio: representar tudo, até motivos religiosas, através de seres humanos normais, não idealizados, utilizando como modelo a populaça da rua, putas incluídas. Unhas com lixo, dentes podres, pés sujos e calejados e rugas vincadas são acolhidos na tela de braços abertos e sem hesitar muito para não atrasar a obra. Caravaggio gostava de trabalhar rápido, precisava de tempo livre para se embebedar, armar confusão, andar à porrada, frequentar rameiras, ser preso com regularidade. “Putridum et foetidum”, pútrido e fétido, baptizaram-no os Cavaleiros da Ordem de Malta depois de o enfiarem, uma vez mais, num calabouço. Claro que conseguiu, uma vez mais também, fugir, mas apenas para morrer novo, como era de esperar. Avancemos… 
 


Madonna dos Peregrinos - pormenor



Sem tempo para experimentar o melhor cappuccino da cidade (Caffè Sant´Eustachio, perto do Panteão), nem o célebre tartufo do Tre Scalini (na Navona), nem a melhor pizza do mundo (Pizzeria da Baffetto*****, perto da Navona), nem a segunda melhor pizza do mundo (La Montecarlo, perto da Navona, propriedade dos filhos dos Baffettos), nem a terceira melhor pizza do mundo (propriedade dos netos dos Baffe… foda-se, estou a brincar, os netos dos Baffettos não têm nenhuma pizzeria; vocês acreditam em cada merda que não lembra nem ao diabo!), avancei para o Corso Vittorio Emanuele II, que percorri em quatro actos: o acto de ir ver os gatos que habitam as ruínas milenares do Largo di Torre Argentina, acrescido dos três Actos da Tosca de Puccini. Muito resumidamente, dá-se início à “obra” na Igreja de Sant'Andrea della Valle, faz-se um ligeiríssimo desvio à esquerda até ao Palácio Farnese e, para terminar, retorna-se ao corso e caminha-se até ao seu final. Aí, já com a visão do Tibre e do Castelo de Sant'Angelo, imagina-se um céu nocturno com estrelas a brilhar e um gajo com boa voz a cantar isto:




(Di Stefano naquela que é, na opinião dos entendidos e também na minha, a melhor gravação da Tosca de todos os tempos)




(aqui é Pavarotti que interpreta Mário Cavaradossi, o pintor que aguarda pelo fuzilamento no Castelo de Sant'Angelo; um grande artista, o tenor dos plebeus)



Terminados os três Actos e limpas as lágrimas, caminhei do Castelo até São Pedro pela Via della Conciliazione, mandada rasgar por Mussolini pelo meio do antigo casario. O choque que os peregrinos aparentemente sentiam quando se libertavam das ruelas e viam o gigantismo da Basílica, da Praça e da Colunata desapareceu com a abertura da nova via “fássista”, uma vez que tudo isso passou a ser perfeitamente visível a mais de meio quilómetro de distância. Dando como quase certo que a surpresa, a admiração e a sensação de esmagamento eram os objectivos que o teatral Bernini pretendia alcançar com os arranjos exteriores de São Pedro, podemos concluir que o Benito fodeu tudo. Literalmente…


Antes de o Benito foder tudo


Enquanto o Benito fodia tudo


Enquanto o Benito fodia tudo


Depois de o Benito foder tudo


Felizmente, todas essas emoções aparecem um pouco mais tarde quando se ultrapassa a porta da basílica, pelo que também eu terei ficado com cara de parvo e de pasmadinho diante dos mais de 200 metros de comprimento do templo. Lembro-me de ter ficado a pensar se um camião TIR conseguiria fazer inversão de marcha na nave principal, se as pias de água benta teriam tamanho suficiente para dar um mergulho, e se seria possível alojar a Torre dos Clérigos debaixo da cúpula e a Igreja da minha freguesia debaixo do baldaquino. A resposta foi sim a tudo, com excepção do mergulho nas pias (mas apenas por uma questão de poucos centímetros). A vontade de humilhar pelo tamanho é de tal ordem que o chão da basílica está preenchido com marcas que indicam onde se situariam as portas de várias outras catedrais do mundo se os seus altares-mor coincidissem com o altar-mor de São Pedro. Por exemplo, só quando vamos mais ou menos a meio da nave principal é que nos aparece a marca da Notre-Dame de Paris, o que significa que poderíamos lá enfiar duas. Embrulha, corcunda…
Foi o Papa Júlio II que lançou este empreendimento descomunal mas o que lá vemos hoje tem pouco a ver com os planos iniciais de Bramante, o primeiro arquitecto que lá trabalhou. Se olharmos para os seus projectos da basílica e principalmente para o Tempietto, o pequeno templo da sua autoria que se encontra na colina do Janículo, a poucas centenas de metros do Vaticano, percebemos rapidamente duas coisas acerca de Donato Bramante: leu exaustivamente os livros de arquitectura de Vitrúvio e era daquelas pessoas que medem e acertam as pontas dos atacadores antes de os apertarem. Não querendo com isto dizer que a sua mente clássica não poderia por si só justificar a perfeição extrema da obra, a correcção das proporções, a precisão matemática, o equilíbrio dos componentes e a harmonia geométrica, parece-me claro que a monumental tara pela simetria só pode ser explicada por uma neurose obsessivo-compulsiva.  




Tempietto - a obra de Bramante 

 


Projecto da Basílica de São São Pedro em cruz grega – o sonho de Bramante




Simetria - o pesadelo de Bramante


Antes de abandonar o território papal, ainda tive a oportunidade de me rir como um perdido perante a dimensão da fila de entrada nos Museus do Vaticano e de chorar como um desalmado quando soube o preço da garrafa de água que tinha acabado de comprar para tentar sobreviver à canícula. De São Pedro segui para a “Roma antiga” - Capitólio, Palatino, Célio e Aventino - mas não vos vou maçar com conversa de ruínas uma vez que pretendo causar-vos esse transtorno quando chegarmos à Grécia. Do meu dia romano guardo acima de tudo, nunca é demais repetir, a beleza da Piazza del Popolo. Gosto de pensar que o próprio Fellini percorreu a Via Flamínia e entrou em Roma pela primeira vez através desta praça. É que o excêntrico realizador nasceu em Rimini, a cidade situada no outro extremo dessa antiga estrada romana. Infelizmente, pela lei das compensações, a terra que viu nascer o monstro italiano da arte de filmar foi também a terra que viu morrer o monstro italiano da arte de pedalar. Sim, falo de Marco Pantani, um gajo que andava de bicicleta, mas que não era nada cínico, ao contrário do Edgar Novo, a quem dedico este texto.

(continua)



* tendo ouvido dizer que era no Café Rosati que se reuniam os intelectuais de esquerda consegui confirmar que este era frequentado por Italo Calvino, Pasolini e Alberto Moravia.

** tendo ouvido dizer que era no Café Canova que se reuniam os intelectuais de direita consegui confirmar que este era frequentado pelo Federico Fellini. Não consegui foi confirmar se podemos considerar o Fellini como um homem de direita! Embora também duvide que alguém consiga confirmar se podemos considerar o Fellini como um homem de esquerda.

*** na gravura de Piranesi (1720-1778) que vemos no início do texto a piazza ainda não tinha a sua aparência actual, apresentando-se com um austero formato trapezoidal. Foi muito provavelmente o desenho elíptico que Bernini atribuiu à Praça de São Pedro que inspirou a sua posterior renovação.    

**** sem querer ser exaustivo, ficam aqui alguns dos obeliscos roubad… digo, emprestados pelos egípcios aos seus amigos romanos: Obelisco di Dogali (Termas de Diocleciano), Obelisco Macuteo  (Panteão), Obelisco Flaminio (Piazza del Popolo), Obelisco Lateranense (Basílica de São João de Latrão), Obelisco della Minerva (o que está em cima do elefante, nas traseiras do Panteão), Obelisco Vaticano (Praça de São Pedro). Note-se que alguns dos obeliscos antigos que podemos ver em Roma, como por exemplo os que se encontram na Praça Navona, no Quirinal ou na scalinata da Praça de Espanha, não vieram do Egipto, sendo apenas cópias mandadas erigir por romanos com segmentos de ADN provenientes de macaquinhos de imitação.

***** nesta fotografia tirada numa muito posterior viagem a Roma podem ver o sacana do Baffetto agarrado à minha mulher! Em troca de uma boa pizza um gajo até faz de corno manso.